Escravidão: ONU reconhece, mas até quando Brasil cometerá crime?

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A conta chegou: o país deve e já passou da hora de começar a pagar

Por Edu Carvalho, compartilhado de Projeto Colabora




Foto: John Mahama, presidente de Gana, país que propôs o reconhecimento da escravidão como o maior crime da humanidade discursa na ONU: Brasil tem conta a pagar (Foto: Manoel Elias / Nações Unidas)

O reconhecimento da ONU de que a escravidão transatlântica foi o maior crime contra a humanidade não é uma efeméride. É a emissão de uma fatura histórica de 400 anos que o Brasil se recusa a pagar. Para o país que foi o maior porto de desembarque de pessoas escravizadas e o último a assinar uma abolição de fachada, a declaração internacional rasga o véu de uma “democracia racial” que sempre serviu como cativeiro simbólico.

O Brasil não apenas aboliu a escravidão tarde; ele a refinou. O que aconteceu em 1888 foi um pacto de elites para garantir que a liberdade fosse uma peça de ficção jurídica. Retiraram-se as correntes de ferro para instalar as algemas da exclusão econômica, do fuzilamento policial nas periferias e do apagamento ancestral.

Estamos em um navio negreiro que se recusa a atracar, com milhões de corpos moídos para erguer as fundações financeiras deste país. E, em 2026, a engrenagem continua a mesma. O navio negreiro não afundou; modernizou-se. Enquanto o Estado brasileiro manipula o conceito de liberdade, a juventude negra permanece sob a mira constante de um sistema penal que herdou a lógica dos capitães do mato.

As marcas do chicote hoje são as estatísticas: é o desemprego que tem cor, é o saneamento que desvia de certos CEPs, é a fome que tem endereço. O Brasil de hoje ainda é um pouco de senzala porque a estrutura de poder nunca mudou de mãos. A elite que lucrou com o tráfico de gente é a mesma que hoje precariza o trabalho digital e criminaliza a existência de quem sobrevive no “corre”. Pesquisas realizadas pelo Núcleo de Estudos Raciais, em 2024, apontavam que o salário médio de um trabalhador negro é 42% menor que o de trabalhadores brancos em 2024. Entre as mulheres, a diferença é de 40%.

Reconhecimento sem reparação é cinismo. Cada um que carrega a memória dos que ficaram pelo caminho tem o bastão na mão. cada cultura que tentaram enterrar e que insiste em florescer deve ser potencializada. 

O reconhecimento da ONU, sem a implementação imediata de políticas de reparação histórica e financeira, é apenas máscara diplomática.

Não há página virada enquanto o sangue negro continua sendo o óleo. A conta chegou. O Brasil deve. E já passou da hora de começar a pagar.

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