E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, sai do armário, como escritor, a pedido.
É possível para as pessoas utilizarem o corpo como uma metáfora para as ideias (Yukio Mishima)
Recentemente a senhora R me pediu para escrever uma história de homossexuais. Eu lhe disse que iria fazê-lo, mas também disse que ela era a pessoa ideal para escrever a história. Era ela que tinha voz e conhecimento sobre o assunto.
Entretanto, ela não se fez de rogada. Tirando o corpo fora me disse que cada um deveria carregar a sua cruz e que eu era o escritor, não ela. Então eu que escrevesse uma história que estivesse à altura dos acontecimentos recentes. Uma história que fosse respeitosa com todo esse contingente de pessoas.
Saí borboleteando: nós dois nos conhecíamos desde jovens. O tempo passou para nós e, de certa forma, o etarismo vem batendo à nossa porta. Não é fácil envelhecer em um mundo que a todo instante produz imagens, senão da busca pela beleza eterna, pelo menos de eterna redução de danos. Haja clareamento dos dentes, aplicações de botox, eliminação da bolsa de gordura ao redor dos olhos, lipos, colágenos e aquele remédio que é tiro e queda para prevenir a osteoporose – esperando que seja menos queda, por óbvio.
E o inchaço da próstata? Fazer o quê? Cuidar do cu e da cútis. Cerveja só em dia de sol, muita caminhada, vida na régua, alimentação saudável. Exercícios físicos. Óculos para longe e para perto, para dias de sol e dias de chuva, filtro solar etc. etc.
Bem, o papo poderia se estender alegremente. Como quem sai do armário, isto é, de maneira livre, leve e solta, eu poderia falar do Vitasay, do Periatrin, do Calcigenol, da Emulsão Scott e do Vick Vaporub, dos remédios de outrora.
Eu poderia, puxando a sardinha para a brasa do cinema, falar do colorido “Priscila, a rainha do deserto” (1994), do cubano “Morango e Chocolate” (1993), do militante “Pride: Orgulho e esperança” (2014) e do intenso “Tenho medo toureiro” (2020) com o extraordinário ator Alfredo Castro fazendo o papel de uma travesti velha e solitária que se apaixona por um militante cubano em plena ditadura do Chile.
Eu poderia falar da crítica queer Judith Butler, do seu livro “Quem tem medo de gênero” (2024), que sai em defesa de todos os LGBTQI+, que mostra por A + B o quanto a Igreja e a extrema direita têm ódio do que lhes é diferente. Tudo isso em linguagem acessível. É sempre bom lembrar que tal livro foi escrito porque Judith Butler e sua companheira sofreram terríveis represálias quando em visita ao Brasil para uma conferência em 2017.
Eu poderia falar de tanta coisa. Falar e deixar falar. Não parar de falar da Parada Gay. A questão sendo essa: viver e deixar viver, que a vida é curta e o desejo é grande.
Mas será que senhora R tem razão? Será que é possível desenvolver uma história? Por que não tentar?
Vamos à história!
A MULHER MACACO
Quando eu era criança eu era fã do número da Mulher Macaco. Você se recorda? Uma mulher de biquíni ficava dançando, dançando, e do nada ela se transformava em um gorila, para nosso medo e delírio. Tudo muito canhestro, vagabundo, de parque de praça. Eu talvez hoje me dê conta de que se tratava apenas de um truque de espelhos: que tinha alguém fantasiado de gorila que sempre esteve ali à nossa frente.
Cresci infeliz com meu corpo. Via-me no reflexo do espelho, não aceitava a minha visão. Se pudesse, me descarnava como quem tira uma grotesca, pesada fantasia.
Eu era a mulher macaco; aquele ali não era eu.
Às escondidas comecei a dar vazão aos instintos, aos poucos. Meu corpo, minhas pregas. Fui me soltando. Corri para trás, voltei à cena original. Comprei vestidos vermelhos como rosas. Fiz curso de maquiagem. Deixei os cabelos crescer. Cuidei das unhas. E finalmente comprei uma coisinha pra mim em um brechó. Veio-me pelos Correios um biquíni amarelinho que mal cabia em mim, o que dirá na Ana Maria. Que fricote.
Então, nas noites de estréia, o Homem Macaco vinha desposar-me com fúria enquanto eu, ah eu, eu fingia resistir, feliz, feliz da vida, por dentro e por fora do espelho.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.
Imagem: Mulher Gorila do Tivoli Park, que existiu na Lagoa Rodrigues, Rio de janeiro







