Está na hora de abrir contagem por Mãe Bernadete

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Passam-se os dias e a polícia da Bahia patina para desvendar o assassinato brutal – e bem explícito – da líder quilombola nos arredores de Salvador

Por Aydano André Motta, compartilhado de Projeto Colabora




Enterro de Mãe Bernadete, em Salvador: comoção, revolta e policiais com armas pesadas. Reprodução Rede Bahia
Enterro de Mãe Bernadete, em Salvador: comoção, revolta e policiais com armas pesadas. Reprodução Rede Bahia

Não se passa um dia sem que Eliane Brum – a mais importante repórter do Brasil – publique em seu Twitter a triste contagem da impunidade do assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Nesta sexta-feira (1), serão 1.997 dias das duas perguntas sem resposta: “Quem mandou matar?” “E por quê?” Na tragédia cotidiana de um país que não se emenda, será preciso criar o mesmo ritual para a baiana Maria Bernadete Pacífico Moreira, a Mãe Bernadete.

Mãe de santo e líder quilombola, ela foi assassinada em 17 de agosto, por dois homens que, de capacete para esconder o rosto, invadiram sua casa e dispararam 22 tiros – 12 deles no rosto da senhora de 72 anos. Ela estava sentada no sofá da sala, vendo TV com três netos; os matadores trancaram as crianças num quarto para só depois fuzilar a avó delas.

Não foi crime para virar estatística na sangrenta rotina brasileira, mas um aviso contundente: toda a violência será empregada para varrer os moradores daquele território.

A casa de Bernadete fica no quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, região metropolitana de Salvador. A área de 854,2 hectares (quase 800 campos de futebol) está demarcada, mas não titulada – sinônimo de posse definitiva – e as 300 famílias moradoras suportam ilegalidades dos mais variados tipos. Há casas com helipontos, empreendimentos grandes, médios e pequenos e interesses diversos – até passar dutos e estradas.

O assassinato brutal da quilombola se soma à espiral de violência que se alastra pela Bahia. Depois do crime contra Mãe Bernadete, houve mais uma chacina, agora em Mata de São João, outro município da Grande Salvador, com nove mortos. Além disso, o estado chegou ao topo do ranking de polícia mais letal do país, materializando a façanha de bater o Rio de Janeiro.

E olha que há 16 anos petistas se sucedem no governo baiano, com Jaques Wagner (senador e amigão de Lula), Rui Costa (atual chefe da Casa Civil) e Jerônimo Rodrigues. O atrapalhado inquilino atual do cargo está há três semanas com a morte de Mãe Bernadete no colo, a fragilizar sua gestão. O quilombo tinha câmeras, os assassinos (ainda que com o rosto coberto) entraram na casa, atiraram um monte e depois fugiram – tudo escandalosamente explícito. Ainda assim, os homens patinam para conseguir pistas ou respostas.

(Nesta quinta, o subsecretário de Segurança, Marcel de Oliveira, apareceu para garantir que a polícia já sabe quem matou. “A investigação está bem adiantada”, prometeu, “com autorias definidas e prováveis motivações conhecidas”. Mas se esquivou de mais informações com o clássico sigilo para não atrapalhar o trabalho.)

Caso consiga desvendar o crime, será zebra, diante de outro assassinato na família da ativista, impune há quase seis anos. Mãe Bernadete se foi sem saber quem matou seu filho, Flávio Gabriel Pacífico, o Binho do Quilombo, 36 anos, executado com 12 tiros na manhã de 19 de setembro de 2017 (quando a Bahia era governada pelo petista Rui Costa). Outro crime em meio à luta por direitos que a histórica omissão governamental – de conservadores e progressistas – teima em não garantir.

Revela André Uzeda, no Intercept, que mãe e filho empenhavam-se no combate à empresa Naturelle e a tentativa de instalar um aterro sanitário no território quilombola. O empreendimento pertence a Vitor Lourenço Souto, filho de Paulo Souto, ex-governador de Bahia por dois mandatos e quindim do grupo de Antonio Carlos Magalhães, lendário cacique político que comandou o estado por quase 40 anos.

Por essas e muitas outras lutas, Mãe Bernadete clamava por proteção, mas recebia apenas a “ronda simbólica” (na definição do advogado da família, David Mendez), de uma viatura da PM, no fim do dia, bem previsível. A ativista alertou quem pôde – até a presidente do STF, Rosa Weber, que a visitou menos de um mês antes do crime. Mas as câmeras que podem ter filmado os assassinos foram instaladas pelos próprios quilombolas.

O enterro de Mãe Bernadete, numa calorenta manhã de inverno no Cemitério Ordem 3ª de São Francisco, em Salvador, conjugou revolta, tristeza e tensão. Policiais militares embrulhados em coletes à prova de balas exibiam armas pesadas, como se houvesse perspectiva de alguma violência. Pareciam imitar – de novo – os colegas cariocas, em sepultamentos de traficantes. A ativista foi enterrada ao lado de Binho do Quilombo. O governador faltou.

No bojo dos crimes, está o desrespeito ao conceito dos territórios quilombolas. Ao longo de séculos, os negros foram arrancados de África para serem escravizados do outro lado do Atlântico, numa das maiores brutalidades da história humana. Sofreram todo tipo de sevícias – e os que conseguiram escapar aqui se refugiaram em quilombos. O tempo passou e o reconhecimento do direito às terras, determinado pela Constituição vigente desde 1988, ainda encontra resistência na racista sociedade brasileira.

O Censo 2022 contabilizou 1,3 milhão de quilombolas, espalhados por 1.696 municípios. Exatos 62.859 residem nos 147 territórios titulados, que formaliza a propriedade na lei formulada pelos brancos (e uns poucos pretos). Há outros 1.802 processos à espera de conclusão no Incra – e, no modorrento ritmo atual, o Brasil levaria surrealistas 2.188 anos para consumar o direito dessas populações.

Jamais por acaso, a Bahia concentra a maior parte de localidades quilombolas: 1.046. (Minas Gerais vem em segundo, com 1.021.) O estado nordestino, no qual o PT manda desde 2007, teve 11 líderes assassinados nos últimos 10 anos.

À la Eliane Brum: Dezesseis dias. Quem mandou matar Mãe Maria Bernadete Pacífico Moreira e seu filho Binho do Quilombo? E por quê?

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