E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva para passear num dos bairros mais antigos do Rio de Janeiro, o Andaraí. Fora o chiste bem legal do César (andar aí), a palavra vem do tupi-guarani – Andarahaí -, significando Rio dos Morcegos.
Isto o César não contou, mas ele conta suas andanças de infância pelo bairro, onde morou, bem depois do tempo em que o Don-don jogou no Andarahaí Athletico Club (como diz a gostosa letra da música do Nei Lopes, cantada por Zeca Pagodinho e Dudu Nobre, que vai no final deste texto GPS. Ah, e tem vídeo da história do Don-Don, parando por aí).
“Há relatos que dão barato na gente. Eu li este sobre o bairro do Andaraí e comecei a sentir, sei lá, um rebuliço no coração (https://bemblogado.com.br/site/andarai-bairro-carioca-tenta-resistir-a-invisibilidade-e-ao-apagamento/). Comecei a escrever como quem anda pelo bairro, algo que fiz muito quando morei lá por aquelas bandas. A gente, molecote, batia pernas mesmo, para desespero dos pais que imaginavam que a gente estava quietinho, com talquinho no pescoço, na sala da aula nas lições de Moral e Cívica. Que nada, que nada!
Vou, Andaraí, a zanzar pelas tuas ruas, mais pelo passado do que pelo presente, se queres saber. Qualquer coisa, é só passar no Batalhão da PM se eu me perder. Qualquer coisa, me espera sentado na Malharia Mena. Qualquer coisa, toma uma fresca na calçada em frente à fábrica da Brahma, ou melhor, em frente ao Assaí. Caracoles, cinema virou igreja; fábrica, supermercado; esquina, drogaria.
Deixa pra lá, me dê a mão, vamos sair para ver o sol de uniforme de tergal mesmo. De Kichute ou de Bamba cabeção. Se for nos meados do 1980s, de All Star. E se for o caso a gente volta no Azulão da CTC.
Quando a gente muda, a gente é capaz de mudar de pele e de alma. Eu saí da Praça Seca para Vila Isabel, para o coração da Praça Sete. A depender da sexta, eu ouvia pontos de macumba, o baticum do samba, o barulho ritmado da montagem das barracas de feira.
Vila Isabel é o sino da igreja e o cheiro de podre que ficava sábado à tarde por conta da feira.
Eu nasci de novo em Vila Isabel, na Rua Barão de Cotegipe, que é bem perto, menos de uma quadra do campo do América, no Andaraí. A gente matava aula e ia para o jogo do América na época do centroavante Luisinho, o grande.
O casario do Andaraí ainda está de pé. É provável que a pintura esteja queimada devido ao passar dos anos e à poluição, mas passar por ali é como entrar em um túnel do tempo.
Vambora no acelerado, me deixar seu cicerone, que Cícero eu já sou.
Eis o Hipermercado Boulevard na Maxwell, rua do canal. Para mim, aquilo é Andaraí, sem dúvida. Meu pai fazia compras do mês ali no Boulevard, que um dia foi fábrica de tecidos, mas não a que cantou Noel.
Aos domingos tinha área de lazer no estacionamento. Por ali por perto tinha o campo do Confiança.
Ou será que ainda tem? Quer ver comigo?
E milagre dos milagres, era no Andaraí a garagem dos ônibus da Viação Cometa. Agora é um Supermercado Guanabara. Viação Cometa, meu amigo, os ônibus de viagem mais bonitos do mundo. Só isso bastava para que o bairro fosse tombado, preservado, para que se andasse ali a pé como quem anda de joelhos. É o que eu faço. Amém, amendoim.
Ai de mim, Andaraí. Sigamos.
Mais lá pra dentro, o hospital do Andaraí, onde, segundo o mestre dos mestres Aldir Blanc, tu entra tomate e sai caqui. O que quer que isso signifique é uma graça, não é não?
E tem o conjunto dos tijolinhos. Tem o Banco do Brasil. Tem a praça Verdun, que é limite entre uma coisa e outra. Tem as tinturarias. Tem as padarias. Tem os velhos botequins. As velhas árvores. As velhas sombras.
Mais um pouquinho a gente bate lá no Grajaú, onde tu entra truta e sai tatu. Essa foi eu que inventei.
Quando eu era pequeno, antes da Praça Seca, eu morei na Tijuca ou no Andaraí. A Praça Xavier de Brito fica onde? Vai me dizer que é na Muda? Eu não acredito. Enfim, eu morei ali na região em uma casa que tinha quintal que dava para uma pedra. O fim do quintal, pois é, era aquela pedra lisa de não sei quantos mil anos.
São essas lembranças que a gente carrega com a gente que nem souvenir, que nem pedra no bolso, para provar para quem quer que seja que a gente existiu.
E tinha a Vitória, que estudava na Escola Municipal Equador (cujo lema era: “Entra burro e sai doutor!”), em Vila Isabel, e morava no Andaraí, na Rua do Canal da Maxwell. Certa vez, depois da aula, a gente foi “stalkeando” a Vitória até onde ela morava, uma coisa bárbara, absurda, estranha, coisa de criança com um pingo de malícia. Ela nem percebeu.
A Vitória me deu um compacto do Kiss, o primeiro primeiríssimo, que ninguém tinha, que hoje deve valer umas duas fortunas. Eu era fã do Kiss e da Vitória. Ela me deu um compacto do Kiss, e eu não lhe dei nem um beijo. Será que ela se lembra de mim?
Vicky, gimme a kiss, darling, play it again, o magricela ali sou eu, quase o mesmo, só mudei porque agora eu sou da Beija-Flor.
Só ficou esse guizo aqui, que nem cascavel.”
Ai no tempo!
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
Nossa vida era mais simples de viver
De viver
Não tinha tanto misere, nem tinha tanto ti ti ti
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
Propaganda era reclame, ambulância era dona assistência,
Mancada era um baita vexame, e pornografia era só saliência
Sutiã chamava porta-seio, revista pequena gibi (i)
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
Rock se chamava Fox, tiete era moça fanática,
O que hoje se diz que é xerox, se chamava então de cópia fotostática
Motorista era sempre chofer, cachaça era parati (i)
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
22 era demente, minha casa era meu bangalô,
Patamo era socorro urgente e todo cana dura era investigador
Mulato esticava o cabelo, mulher fazia misampi (i)
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
No tempo que Don-don jogava no Andarahy
(Tempo do Don-don, Nei Lopes)
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







