EUA acusam 40 países de ajudar China para pressionar Pequim em negociação 

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EUA inclui Brasil na lista de acusados de facilitar entrada de produtos chineses e prepara fiscalização com inteligência artificial, China rejeita acusação

Por Lucas Toth, compartilhado de Vermelho




Encontro entre Donald Trump e Xi Jinping

A poucas semanas do encontro previsto entre Donald Trump e o líder chinês Xi Jinping, em setembro, em Washington, o governo dos Estados Unidos abriu uma nova frente de pressão comercial contra a China.

Relatório divulgado nesta quinta-feira (13) pela Casa Branca acusa Pequim de utilizar uma rede de mais de 40 países para contornar as tarifas impostas pelos Estados Unidos. 

O documento fornece a Trump um novo argumento para as negociações: a tese de que a China preservou indiretamente seu acesso ao mercado norte-americano apesar das barreiras comerciais.

O Brasil está entre os países colocados sob suspeita por Washington. Também aparecem Canadá, México, Índia, Japão, Coreia do Sul e países da União Europeia. Na América Latina, a lista inclui ainda Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Panamá, Costa Rica e República Dominicana.

O documento classifica o Brasil no chamado “Nível 2”, destinado a países que, segundo a Casa Branca, apresentam “integração econômica significativa com a China”. 

A classificação não demonstra a participação do governo brasileiro ou de empresas brasileiras em fraude, mas coloca o país entre os mercados que Washington pretende submeter a maior escrutínio por suas relações comerciais com Pequim.

Batizado de “The Great Transshipment Scam” (“O Grande Golpe do Transbordo”), o relatório foi elaborado pelo Escritório de Política Comercial e de Manufatura da Casa Branca, comandado pelo assessor comercial Peter Navarro.

A acusação se concentra no chamado transbordo (transshipping), prática pela qual uma mercadoria passa por um terceiro país antes de chegar ao destino final. 

O procedimento é comum e legal no comércio internacional. Washington sustenta, porém, que empresas chinesas estariam utilizando terceiros países para reembalar produtos ou alterar sua documentação, ocultando sua verdadeira origem para pagar tarifas menores nos Estados Unidos.

Navarro acusa Pequim de desenvolver métodos cada vez mais sofisticados para contornar as barreiras comerciais desde que Trump iniciou sua guerra tarifária contra a China, em 2018.

“Durante anos, o grande golpe do transbordo permitiu que a China comunista lavasse suas exportações por meio de mais de 40 países, roubasse dezenas de bilhões de dólares do nosso Tesouro e os salários dos trabalhadores americanos”, declarou.

O argumento permite aos Estados Unidos mirar também cadeias produtivas chinesas instaladas ou conectadas a outros países e pressionar governos que mantêm relações econômicas crescentes com Pequim.

A Casa Branca calcula em cerca de US$60 bilhões o comércio associado às operações que classifica como evasão tarifária. Outros estudos do governo norte-americano e privados citados pelo próprio relatório apresentam estimativas que variam de aproximadamente US$40 bilhões a US$303 bilhões.

A divulgação ocorre em meio à preparação para a visita de Xi a Washington. Apesar da trégua comercial acertada pelos dois governos, Estados Unidos e China continuam em disputa sobre tarifas, acesso a minerais de terras raras, tecnologia e restrições norte-americanas contra empresas e produtos chineses.

EUA recorrem à inteligência artificial

Para ampliar a fiscalização, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) começou a utilizar um sistema baseado em inteligência artificial chamado “Detective Border” (“Fronteira Detetive”).

A ferramenta deverá cruzar informações sobre composição, classificação, origem e rotas das mercadorias para identificar produtos que Washington considere registrados de maneira irregular para escapar das tarifas. 

Segundo Navarro, a nova fiscalização poderá render dezenas de bilhões de dólares em receitas tarifárias aos cofres norte-americanos e criar “milhares de empregos a mais para os americanos”.

O governo Trump também vem incluindo cláusulas contra o transbordo nos acordos comerciais negociados com outros países e trabalha na definição de regras de origem mais rígidas para determinar onde um produto foi efetivamente fabricado.

A ofensiva pode atingir diretamente países que aprofundaram sua integração comercial com a China. Ao classificar essas economias como potenciais canais de evasão tarifária, Washington amplia o alcance de sua política comercial para relações mantidas entre Pequim e terceiros países.

China rejeita acusação

A China rejeitou a ofensiva da Casa Branca. Em resposta ao relatório, um porta-voz da Embaixada chinesa em Washington criticou tanto a política tarifária de Trump quanto o uso de instrumentos estatais contra empresas do país.

“Guerras comerciais não têm vencedores”, afirmou o representante chinês, acrescentando que Pequim “se opõe às medidas tarifárias dos Estados Unidos e ao uso do poder estatal para atingir empresas chinesas”.

O porta-voz também reagiu à tentativa de Washington de envolver terceiros países na disputa comercial.

“Quaisquer ações ou acordos unilaterais relacionados a mercadorias transbordadas não devem ter como alvo nem prejudicar os interesses de terceiros”, declarou.

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