Faces do governo Bolsonaro: A defesa da ditadura no Brasil, silêncio no Chile

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Por Patricia Faermann, publicado em Jornal GGN – 

Outros presidentes conservadores vizinhos, Chile e Argentina, não têm a mesma ousadia do mandatário brasileiro de defender, explicitadamente, os regimes ditatoriais

Assunto já aberta e deliberadamente exposto pelo governo de Jair Bolsonaro no Brasil, a defesa da ditadura recebe um certo receio do presidente do Brasil quando se tratam de visitas internacionais, mesmo quando o encontro reúne figuras representativas do conservadorismo político. Mas diferentemente de como se posiciona no Brasil, a família Bolsonaro evitou defender o ditador chileno Augusto Pinochet durante o lançamento do bloco Prosul, em Santiago, Chile, nesta semana.

Isso porque ainda entre os considerados de direita na ideologia política, há um consenso inegável a nível internacional sobre as graves violações, sejam por mortes, torturas e prisões políticas praticadas nos regimes ditatoriais. Na América Latina não é diferente. Alguns políticos ou representantes do poder que rechaçam o quão negativo foram as ditaduras evitam manifestar essa posição publicamente – por óbvio consenso frente aos crimes e violações.




Por isso, quando o avião das Forças Armadas brasileira pousou em Santiago, Bolsonaro foi logo questionado pelos jornalistas chilenos sobre como ele pensa a respeito da ditadura no país (1973-1990). Bolsonaro esquivou-se: “Aqui eu não vou falar de Pinochet”, respondeu, surpreendendo a imprensa local.

A surpresa ocorreu porque nos meios de comunicação do Chile já é de conhecimento público que Bolsonaro defende e elogia as ditaduras do Brasil e do Chile e, enquanto deputado federal, já chegou a falar que “Pinochet deveria ter matado mais gente”. Em dezembro do ano passado, o filho do mandatário, Eduardo Bolsonaro, disse em entrevista ao jornal La Tercera que “Pinochet foi uma pessoa que impediu que o Chile se transformasse em uma nova Cuba”.

Mas o presidente conservador do país, Sebastián Piñera, apesar de efetivamente representar a ideologia liberal na economia e a voz dos grandes empresários, não é tão radical como Bolsonaro. Na mesma linha está o presidente argentino, que apesar de seu pai, Franco Macri, ter multiplicado por sete a quantidade de empresas do holding da família durante a ditadura vizinha, o filho empresário e atual mandatário não ousa defender ou exaltar publicamente o regime.

Em ambos os casos, historiadores do Chile e da Argentina atribuem isso ao que a transição democrática já conseguiu avançar e consolidar, seja junto a Comissões da Verdade e a responsabilizações a nível judiciário. E tratando desse tema, coincidentemente, no mesmo dia em que Bolsonaro pousou no Chile, nesta quinta, a Corte de Apelações de Santiago condenou 11 membros aposentados do Exército pela responsabilidade nos crimes de homicídio qualificado das duas vítimas do Caso Queimados, emblemático da ditadura chilena, quando dois jovens foram queimados vivos durante ato contra o regime, em 1986.

Por isso, a caracterização de Jair Bolsonaro como ultraconservador e fascista é um entendimento naturalizado, diante de todas as declarações sem receio já dadas por ele enquanto deputado, durante sua campanha eleitoral e agora alçado à Presidência do país em defesa do regime militar.

Enquanto seu ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, elogiava deliberadamente a política econômica adotada pelo ditador Augusto Pinochet, em entrevista à Rádio Gaúcha, acrescentando que “o Chile teve de dar um banho de sangue”, nesta quinta (21), a repercussão foi maior no Brasil que no país latino, uma vez que Bolsonaro tratava de conter o assunto polêmico, deixando apenas uma pista:

“Aqui eu não vou falar de Pinochet. Tem gente que gosta dele, outros não, mas eu só digo que o regime militar do Chile foi muito parecido ao do Brasil”.

E assim como o mandatário brasileiro, com a presença de seu filho na comitiva internacional ao Chile, o deputado Eduardo Bolsonaro parece também ter sido avisado do cuidado que deveria tomar nas declarações sobre Pinochet. Em contradição às suas palavras três meses atrás, para o mesmo jornal chileno, agora o filho do presidente concedeu nova entrevista ao La Tercera, dizendo que “não há desculpas para a violação de direitos humanos”.

Visivelmente mais contido, o deputado federal completou: “Caso contrário, sempre haverá pessoas que pensarão que, ao matar um milhão de pessoas, nada irá acontecer porque ‘o melhor ainda está por vir’. Assim pensaram Stalin, Mao Tse Tung, Hitler, e não podemos continuar pensando assim”.

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