Por René Ruschel, jornalista
Como explicar tanto fanatismo? Milhões de brasileiros ainda veem o ex-capitão como um enviado divino. Mesmo depois do caos, após negar a vacina, debochar da pandemia e sabotar a ciência.
Mesmo com as mentiras diárias, escândalos de corrupção caseira – rachadinhas, joias sauditas, cartões corporativos –, incentivo ao armamento generalizado e as tentativas perigosas de violência e golpe de Estado.
Mesmo assim, há quem insista em tratá-lo como “mito”. Pior: Messias com “M” maiúsculo.
Não se trata de pedir unanimidade. A democracia é o palco das divergências. Mas o que se busca é um pouco de bom senso, esse artigo raro, quase de luxo, em tempos de desinformação abundante.
A adesão incondicional de uma parcela da população não pode ser explicada apenas pela política. Ela está num campo mais profundo, onde fé e identidade se entrelaçam.
Muitos desses fiéis eleitores chegaram pelo discurso religioso. Foram seduzidos por uma narrativa de cruzada. Deus acima de todos, comunismo às portas e a família tradicional em perigo.
Acreditam que o mundo vive uma batalha espiritual entre o bem, eles, e o mal, os que não pensam iguais. Assim, o pastor virou político, o púlpito virou palanque e a religião virou partido.
Outros vieram fardados. Treinados para proteger a lei, desta vez subiram nos palanques para atacá-la. Em vez de garantirem a ordem, fomentaram a desordem.
Armaram-se, no literal e no simbólico, e decidiram que a bala resolveria o que o argumento não alcançava. Justiça virou sinônimo de vingança. É como se estivessem hipnotizados pelo barulho, anestesiados pela raiva.
Todo esse exército de Brancaleone quando confrontado com fatos responde com crenças. Não importa que ele negue o processo eleitoral que o elegeu. Que fira a Constituição que jurou defender. Que pratique tudo o que dizia combater. Ainda assim, para muitos, é o “escolhido”.
O historiador Timothy Snyder alertou que evitemos “o fascismo na sua versão nacional. Ele parecerá familiar, não estrangeiro”.
Bolsonaro foi essa versão tropical. Sem farda, mas com fúria. Sem leitura, mas com live. Ele incorporou o ressentimento de muitos e transformou a frustração em programa de governo.
A adesão cega lembra outros momentos sombrios da história. Em diferentes épocas e lugares líderes autoritários também foram vistos como salvadores. O preço, quase sempre, foi alto.
Afinal, o que impede essa gente de ter um olhar crítico? Medo, ignorância, ressentimento, desinformação? Talvez tudo isso junto, temperado com redes sociais, algoritmos e uma pitada de fanatismo.
O problema não está em divergir. Está em negar a realidade. Há quem prefira acreditar em um mito a encarar o homem real. E o homem é pequeno diante do personagem. Mas a história, essa sim, cobra cada ilusão.







