Filme: “Meio Irmão”, a desesperança de uma geração

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Por Celso Sabadin, jornalista, cineasta, crítico,  do Planeta Tela

Com roteiro e direção da estreante em longas Eliane Coster, “Meio Irmão” é um retrato pungente da desconstrução da classe média baixa (paulistana em particular, nacional em geral) através de uma família disfuncional. Se bem que cada vez mais parece pleonasmo dizer “família disfuncional”.




Observamos a decadência pelo olhar de Sandra (a estreante Natália Molina, estupenda), uma adolescente abandonada em sua própria casa. Após o desaparecimento de sua mãe, Sandra tenta, de maneira totalmente desestruturada, dar algum senso ou sentido à vida, perdendo-se em meio à pia entulhada de louça, aos conflitos que trava na escola, ao pai ausente, à solidão, e ao desequilíbrio de seus próprios rumos. Credores batem constantemente à sua porta, dilapidando seus bens, sua alma, e o que ainda possa restar de sua autoestima.

Muito perto dali, Jorge (o também estreante Diego Avelino) trabalha com seu pai Wilson (Francisco Gomes) no ramo de instalação de câmeras de segurança. Será justamente uma câmera – a de seu celular – que colocará Jorge em tensa rota de colisão com um violento grupo homofóbico.

A periferia da capital paulista é o entorno destes dois personagens tão ricos que desenvolverão a trama. Um cenário de desesperança potencializado pela constante interferência dos onipresentes noticiários policiais de TV que ratificam a atual podridão da mídia. Ninguém está feliz.

E se em tempos anteriores tal infelicidade eventualmente gerasse alguma ação, contemporaneamente o que e vê é a total imobilidade. A juventude deste tempo/espaço não luta mais, apenas se resigna.

Tudo isso emoldurado com uma fotografia esmaecida, em elegantes tons pasteis, que sublinha a carência de luzes, cores e contrastes que acompanha a geração abordada no longa.

“Meio Irmão” chama a atenção pela habilidade tanto do roteiro como da direção em construir personagens densos e reais que têm o poder de hipnotizar o público, prendendo-o às suas trajetórias. Uma maturidade narrativa que, nem de longe, faria alguém supor que se trata de uma diretora estreante.

“Meio Irmão” foi exibido na 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e eleito pelo público o Melhor Filme Brasileiro de Ficção. Também levou o Prêmio da ABRACCINE – “Melhor Filme Brasileiro de Diretor Estreante”.

O longa venceu ainda dois prêmios e recebeu a Menção Honrosa no 6o Festival de Cinema de Caruaru, em 2019. Diego Avelino foi consagrado como Melhor Ator, Cleisson Vidal foi reconhecido pela Melhor Fotografia e Natália Molina recebeu a Menção Honrosa como “Atriz Revelação”. No Festival Internacional de Cinema da Fronteira ano passado, Natália Molina venceu como “Melhor Atriz”.

 

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