Imprensa internacional vê poderosos brasileiros tentando neutralizar veredito do STF, enquanto crise com os EUA se intensifica
Por Cezar Xavier, compartilhado do Portal Vermelho
Foto: Imprensa internacional vê poderosos brasileiros tentando neutralizar veredito do STF, enquanto crise com os EUA se intensifica
O jornal britânico Financial Times trouxe nesta segunda-feira (8) uma reportagem sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF), classificando-o como um processo que “dividiu o Brasil” e pôs a maior democracia da América Latina no centro de uma crise geopolítica com os Estados Unidos.
Conforme resume o jornal, Bolsonaro responde por acusações de conspiração golpista, supervisão de plano para assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, além de incitar a invasão das sedes dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. Ele pode pegar mais de 40 anos de prisão se condenado.
O plano, segundo a acusação, só fracassou porque os comandantes do Exército e da Aeronáutica se recusaram a apoiá-lo. Uma mensagem de texto encontrada no celular de um assessor mostra que Bolsonaro estava ciente da conspiração. O ex-presidente está em prisão domiciliar em Brasília, sob restrições de comunicação.
Pressão dos poderosos
Segundo o jornal britânico, setores influentes da política e da economia brasileira trabalham nos bastidores para articular uma anistia que livre Bolsonaro e seus aliados de uma condenação. A manobra, impulsionada sobretudo pelo Centrão e por líderes conservadores, com o objetivo de aliviar seu ônus judicial e preservar seu legado político. Esse movimento, segundo o jornal britânico, reflete preocupações com o risco de o processo no Supremo Tribunal Federal transformar Bolsonaro em um mártir no imaginário público.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, citado como favorito de Bolsonaro para sucedê-lo, já atua em Brasília para viabilizar um projeto de lei de perdão. Analistas ouvidos pelo FT afirmam que o Congresso poderia aprovar uma versão diluída, reduzindo penas de insurgentes, mas dificilmente avançaria com uma anistia plena ao ex-presidente antes das eleições. O objetivo seria postergar o veredito ou neutralizar suas consequências através de um indulto ou anistia ampla. A urgência é ainda mais evidente diante do cenário eleitoral para 2026.
Lula, que cumpre seu terceiro mandato presidencial, rejeita veementemente a ideia: “Não podemos retroceder. O Brasil não pode virar um país onde se tenta derrubar a democracia e depois se perdoar.”
Crise diplomática com Trump
O julgamento elevou as tensões com Washington. O presidente Donald Trump, aliado de Bolsonaro, impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sancionou ministros do STF, em especial Alexandre de Moraes, classificado como alvo político.
O Departamento do Tesouro dos EUA (OFAC) chegou a notificar cinco dos maiores bancos brasileiros — entre eles o Banco do Brasil , responsável pela folha de pagamento do STF — exigindo informações sobre o cumprimento das avaliações. O STF, por sua vez, já decidiu que as avaliações não valem no Brasil sem autorização judicial local.
Lula, por sua vez, rejeitou a “pressão inaceitável” dos EUA e buscou apoio junto ao bloco Brics, apresentando-se como defensor da soberania nacional.
Divisão no Brasil
Pesquisas citadas pelo FT indicam que a sociedade segue polarizada: uma parte vê o julgamento como necessário para proteger a democracia, outra o enxerga como “perseguição política”. A AtlasIntel mostra que, se fosse possível disputar 2026, Bolsonaro e Lula estariam tecnicamente empatados, com cerca de 48% cada.
Para analistas, o veredito dificilmente encerrará a crise: “Quem acha que a prisão de Bolsonaro é justa continuará achando. Quem vê farsa, continuará vendo farsa. O julgamento apenas definirá o peso político dele como fiador de candidaturas da direita”, avaliou Lucas de Aragão, da Arko Advice.
O jornal ainda relata que, neste último domingo, Dia da Independência, o Brasil foi palco de protestos rivais: em São Paulo, apoiadores de Bolsonaro marcharam com bandeiras dos EUA e faixas: “SOS Trump”. Em outras capitais, os manifestantes contra Bolsonaro gritavam “Soberania!” e “Não à ingerência externa!”
O Brasil, hoje, está diante de uma encruzilhada: entre a defesa da democracia e o risco de um novo ciclo de impunidade. O veredito do STF pode ser o início — e não o fim — da batalha. “O Brasil não pode esquecer o que aconteceu em 8 de janeiro. Mas também não pode ignorar que milhões ainda veem Bolsonaro como um herói”, diz o texto.







