E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, passeia de aerobarco pela sua infância. Ah, e ainda nos presenteia com uma poema sobre Paquetá, dedicado a este editor que vos tecla e à minha companheira de viagem por esta vida ilhada por amizade por toda a parte, Carmola. Paquetá que hoje, 04 de novembro, recebe a presença do príncipe inglês Willian, mas isso é assunto para uma crônica futura do César, dependendo de sua nobre inspiração.
Não sei bem por que me lembrei que certa vez fiz meu pai pegar um tal de aerobarco de Niterói para o Rio. Coisa de criança que não pode ver uma novidade, decerto.
Meu pai daquela vez me fez as vontades. Lá fomos a família viajar de aerobarco, o tal Frecchia di Rio. E não é que ela se erguia sobre as águas mesmo?
Só que a viagem, de tão rápida, só pode ser comparada a uma, sei lá, ejaculação precoce:
“Amor, cheguei!”
“Mas já?”
Realmente não sei o que motivou o pedido daquela viagem. Talvez o fascínio pela velocidade, ou alguma cena que vi na tevê, algo do tipo. No mais a mais, quando penso em retrospectiva, era bem melhor ir de barca do que de aerobarco, muito melhor. Era uma espécie de “higiene mental”, expressão tão antiga quanto as barcas.
Na minha cabeça, houve aerobarco para Paquetá, mas acho que me engano. Acho que desloquei lembranças, o que não é tão incomum. Irei deixar aqui esta pergunta para o pessoal local responder. Quem souber que lance a flecha.
Na minha primeira viagem para Paquetá, lembro-me nitidamente de uma latinha de cerveja Brahma, daquelas pesadas, a boiar nas águas escuras da Baía. Lembro-me também dos golfinhos que acompanharam parte da viagem, cortejo louco, delirante.
Era a época em que havia um seriado chamado “Flipper” ou era um seriado que tinha um golfinho chamado Flipper, algo assim. E eu comparei os golfinhos que via com o da tevê e cheguei à conclusão de que nossos golfinhos eram, vamos dizer assim, mais duros na queda, o que quer que isso signifique.
Até hoje eu não me acostumei às novas barcas. Sei lá, ar-condicionado é legal e tal, mas não me apetece muito. Modernidade é bom, mas progresso demais quebra o clima de quem quer sombra e água fresca. Eu odiaria ver empreendimentos do tipo PQT Resorts, o mais novo lançamento da Estrovenga Engenharia. É que nem ver o sagrado nome de um batuta da nossa música popular associado a empreendimentos imobiliários na região portuária. Me dá um nó na garganta, sabe?
Cantareira maconheira sem piteira. Eu preferiria sentir o cheiro da brisa e a marola de maconha que rola lá no final da barca, isso sim. Tem sempre alguém que aperta unzinho por lá. Eu já não fumo nem aperto, mas acho graça, entendo e perdôo. O visual é lindo demais. E fica mais bonito ainda com o vento na cara.
Me disseram que lá na Pedra do Arpoador tem um pessoal que deixa na bandeja uns não sei quanto baseados para quem quiser apreciar a paisagem com a cabeça feita. “Marijuana, Sir?” Paga-se em dólar? Não sei.
Não é merchandising nem nada. Live and let die, man. Espero que a polícia não pinte na área atrapalhando o business da rapaziada. É que o bagulho é sério, gente! Tem que ter alguma coisa para acalmar os nervos. Pegando carona no que o Chico Buarque diz em uma de suas canções, a paisagem é de arrombar a retina de quem vê.
Flechas por flechas, a viação Cometa (Salve, salve!) tinha um ônibus chamado Flecha de Prata. É, eu devo ser de Oxóssi mesmo. Ou o cupido pidão pratica no meu coração tiro ao Álvaro nas horas de folga dos amores impossíveis. Foi bom ter me lembrado dessas coisas. Eu já te disse que eu pedia a meu pai para ir de Cometa para São Paulo? Era quase uma obsessão. Qualquer dia desses eu cometo uma loucura e compro um Cometa só para mim.
Vou-me embora pra Paquetá
(Para Washington, Carmola, e toda a patota de Paquetá)
Deus deu à luz uma ilha,
E a gente a batizou.
Deus nos deu os peixes e as garças,
E a gente fez o mercado na praça.
Deus fez a ilha gravata-borboleta,
E a gente misturou as cores na paleta
E nas traquinagens na Casa de Artes
Deus é ouvido em toda parte!
Deus nos deu o até aonde a vista alcança,
E a gente O carrega nas garupas da infância
E quando vamos embora na barca das cinco e meia
É Deus quem diz: Por que não ficam para a ceia?
Foto: Américo Vermelho
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







