Flup, antídoto da tristeza, celebração da vida

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Festa Literária da Periferia aponta para o passado, a fim de saudá-lo e compreender onde estamos, com quem chegamos e para onde iremos

Por Edu Carvalho, compartilhado de Projeto Colabora




Foi uma catarse, capaz de suspender até uma chuva. Na real, o que veio depois do início da manhã do último sábado (13/5), com as bênçãos do Afoxé Filhos de Gandhy na Ladeira do Livramento, no Morro da Conceição, era uma tempestade de poesia. Depois de anuviado o céu, não foram poucas as múltiplas multidões que ajudaram a colorir os lugares que antes foram habitados por Joaquim Maria Machado de Assis, o maior dos maiores. Um homem – antes menino – como não poderia deixar de ser, com as características que apresentam a maioria, até hoje, de brasileiros.

Assim, a 13ª edição da Festa Literária das Periferias, a Flup, cumpriu sua vocação. Mais uma vez, apontou suas atenções para o passado, a fim de saudá-lo e compreender onde estamos, com quem chegamos e para onde iremos. Uma festa que soube moldar-se ao tempo, antes denominada pelas unidades pacificadas pela Polícia, um projeto falho e custoso aos cariocas e ao país; mas que soube resistir positivamente no imaginário coletivo favelado, e não só, como um arrebatamento que colocavam, na mesma página, intelectuais orgânicos e acadêmicos, imortais e mortais, no mesmo verso.

Para onde se olhasse, um colega, um autor ou autora conhecido, alguém que a gente segue e curte o trabalho. Mais do que um mero evento reconhecido por apontar a nova safra de escritores, questionando o sistema de publicações e chamando atenção para o lugar da escrita, a Flup virou elemento de encontro para o Brasil, com pertencimento e reconhecimento. Sua realização une do menó da quebrada à senhora que mora no Leblon. É o reunir a Zona Norte e a Sul que o Lulu tanto canta.

Na data, que também comemorava o dia de Preto Velho e Nossa Senhora de Fátima, evocados foram os batuques do Cordão do Prata Preta, a Vizinha Faladeira, o Bonde das Crespinhas, a Zélia do Prato e o Samba de Caboclo, como forma de reverenciar o novo junto de quem fez o ontem.

Gilberto Gil, Eliana Alves Cruz e Haroldo Costa: ancestralidade e pluralidade na Flup (Foto: Reprodução / Instagram)
Gilberto Gil, Eliana Alves Cruz e Haroldo Costa: ancestralidade e pluralidade na Flup (Foto: Reprodução / Instagram)

Entre estantes ambulantes reunidas na quadra da Acadêmicos do Samol, feijoada para iluminar a cuca e encher a barriga, para que não muito distante pudessem queimar as calorias ao representar, no corpo, a gira que lembrou Mãe Beata de Iemanjá.

Seus muitos filhos estavam lá, naquela que foi a véspera de Dia das Mães. Haveria melhor forma de homenagear quem pariu e apadrinhou muitos numa trajetória de fé, luta e inclusão? Numa sequência de mesas que ajudou a contar a história da Ialorixá, Flávia Oliveira, jornalista, e sua filha, Isabela Reis, brindaram o público para compartilhar eixos de atuações da generosa líder religiosa e cidadã. Não foram poucos os momentos de emoção.

O apogeu da tarde foi o encontro de Gilberto Gil, Haroldo Costa e Eliana Alves Cruz, conferindo a pluralidade de possibilidades e reuniões que o local propicia.

Para momentos de tanto temor e incertezas, com mix de umas boas e pequenas alegrias da vida adulta, uma Flup por semana resolveria algumas faltas. É antídoto da tristeza, pulveriza o ambiente, abre os poros.

Mais do que isso, é a celebração da boa vida para aqueles que a cada minuto são violentados pela falta. ‘’A festa não contradiz a luta. Pelo contrário. É no arrepiado das arrelias e na plenitude dos corpos em trânsito que o mais subversivo dos enigmas há de nos salvar contra os arautos da morte: a capacidade criadora da alegria nos infernos’’, sinaliza Luiz Antônio Simas.

Apropriem-se.

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