Garimpando meus vinis

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Por Lourenço Paulillo, cronista e poeta

Finalmente a casa da chácara está livre das goteiras, após tanto tempo, e pude retirar meus vinis das caixas de papelão e começar a revê-los, prazerosamente.




É como se eu adentrasse um grande salão e me deparasse com inúmeros artistas, agrupados ao redor de amplas mesas, trocando histórias entre si, sobre as letras das canções que interpretam, sobre a vida.

Fafá de Belém explica que Tamba Tajá, a música do maestro Waldemar Henrique, que abre seu primeiro LP, é uma planta nativa da Amazônia, considerada sagrada pelos índios macuxis e caboclos marajoaras.


“Tamba-tajá me faz feliz
Que meu amor me queira bem
Que seu amor seja só meu de mais ninguém
Que seja meu, todinho meu, de mais ninguém

Tamba-tajá me faz feliz
Assim o índio carregou sua macuxi
Para o roçado, para a guerra, para a morte
Assim carregue o nosso amor a boa sorte

Tamba-tajá… Tambá -tajá… Ah.
(LP Tamba Tajá, Polydor, 1976).

À mesma mesa, Isaurinha Garcia diz que quis homenagear Carmem Miranda ao gravar E o Mundo não se acabou, de Assis Valente:


“Anunciaram e garantiram que o mundo ia acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso lá no morro não se fez batucada…
….
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou”.

(LP Isaurinha Garcia Nua e Crua, EMI/Odeon, 1976).

Dalva de Oliveira relembra Bom Dia, de Aldo Cabral e Herivelto Martins:

“Teu travesseiro vazio
Provocou-me um arrepio
Levantei-me sem demora
E a ausência dos teus pertences
Me disse, não te convences?
Paciência, ele foi embora
……..
Na toalha que esqueceste
Estava escrito Bom dia!”

(LP Dalva, Odeon. 1973).

Nana Caymmi reverencia Noel Rosa, em Último Desejo:


“Nosso amor que não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão”.

(LP Nana, EMI, 1985).

Doris Monteiro revive histórias fortes de Lupicínio Rodrigues em Vingança:

“Você há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar”.

(LP Doris Monteiro, Odeon, 1974).

Carmem Costa, de volta ao Brasil após viver décadas nos EUA, lembra de outra música de fossa, Eu sou a outra, de Ricardo Galeno:

“Não tenho nome,
Trago o coração ferido,
Mas tenho muito mais classe
De quem não soube prender o marido”.

(LP Carmem Costa – 30 Anos Depois, RCA, 1973).

Maysa escolhe um trecho de sua Bronzes e Cristais:


“Bronze é a tristeza que implora
Um novo dia, um clarão da aurora,
Cristal sorriso, luz da certeza,
Tormento e paz são bronzes e cristais”.

E Maysa ainda relembra o lado mais intimista de Adoniran Barbosa:

“Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de
bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza Tristeza de amar”.

(LP Pra Sempre Maysa, RGE, 1977).

Sylvia Telles relembra os belos versos de O Que Tinha de Ser, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes:


“Porque foste em minha alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser”.

(LP Amor de Gente Moça, Imperial, 1970).

Elis Regina vem com O Rancho da Goiabada, de João Bosco e Aldir Blanc:

“Os bóias-frias
Quando tomam
Umas biritas espantando a tristeza
Sonham com bife a cavalo,
Batata frita e a sobremesa
É goiabada cascão
Com muito queijo
Depois café
Cigarro e um beijo de uma mulata
Chamada Leonor ou Dagmar”.

(LP Transversal do Tempo, Philips, 1978).


E Elis comenta que Angela Maria foi sua grande inspiração.

Maria Bethânia vai buscar a música de João de Barro, Anda Luzia:
“Anda Luzia
Pega um pandeiro, vem pro Carnaval
Que essa tristeza lhe faz muito mal
Apronta a tua fantasia
Alegra teu olhar profundo
A vida dura só um dia, Luzia
E não se leva nada desse mundo”.

(LP Recital na Boite Barroco, Odeon, 1968).

Dolores Duran puxa sua Solidão:


“Eu quero qualquer coisa verdadeira
Um amor, uma saudade
Uma lágrima, um amigo
Ai, a solidão vai acabar comigo”.

(LP A Música de Dolores, Copacabana, 1959).

E a solidão de Dolores faz outras cantoras da roda trazerem o mesmo tema.
Elizeth Cardoso começa a cantar Refém da Solidão, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro:
“Quem da solidão fez seu bem
Vai terminar seu refém
E a vida para também
Não vai, nem vem”

(LP Falou e Disse Elizeth Cardoso, Copacabana, 1970).

E o retrato encarnado da solidão vem com Nora Ney, em Bar da Noite, de Bidu Reis e Haroldo Barbosa:


“Garçon, apague esta luz
Que eu quero ficar sozinha
Garçon, me deixe comigo
Que a mágoa que eu tenho é só minha”.

(LP Tire o Seu Sorriso do Caminho – Nora Ney, Som Livre, 1972).

Nara Leão fala da sabedoria do sertanejo, com Ouricuri, de João do Vale e José Candido:

“Ouricuri madurou
E é sinal que arapuá já fez mel
Catingueira fulorou lá no sertão
Vai cair chuva a granel”.

(LP O Canto Livre de Nara, Philips, 1965).

Na mesa ao lado, dos compositores, ao ouvir Nara cantar o sertão, Luiz Gonzaga emendou com Assum Preto, sua triste canção com Humberto Teixeira:


“Tudo em vorta é só beleza
Sol de abril e a mata em frô
Mas assum preto, cego dos óio
Num vendo a luz, canta de dor”.

(LP Luiz Gonzaga Disco de Ouro, RCA, 1978).

Ao seu lado, Paulinho da Viola volta a falar de solidão, cantando sua Dança da Solidão:

“Solidão é lava
Que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
……
Desilusão, desilusão,
Danço eu, dança você,
Na dança da solidão”.

(LP A Danca da Solidão, Odeon, 1972).

E Djavan então segue com sua Açaí:


“Solidão
De manhã
Poeira toma acento
Rajada de vento
Som de assombração
Coração
Sangrando toda palavra sã”.

(LP Djavan Luz, CBS 1982).

Já Geraldo Vandré canta a esperança em sua João e Maria:


“Quem sabe o canto da gente
Seguindo na frente
Prepare o dia da alegria
A gente sorria
E tudo era só alegria
Na mesma esperanca
Ficava de novo criança”.

(LP Canto Geral, Odeon, 1968).

Caetano Veloso relembra sua música Coração Vagabundo, que abre seu disco Domingo, junto com Gal Costa, ambos de cabelos curtos na capa:


“Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer
Meu coração de criança….
…..
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim”.

(LP Domingo, Philips, 1967).

E Caetano lembra que, antes, Gal participara do primeiro disco de Maria Bethânia, porém ainda com seu verdadeiro nome, Maria das Graças, cantando Sol Negro (Caetano Veloso)


Foi a música Sol Negro, dele mesmo:
“Na minha voz trago a noite e o mar
O meu canto é a luz de um sol negro e dor
É o amor que morreu na noite do mar”.

(LP Maria Bethânia, RCA, 1965).

Chico Buarque comenta que no ano seguinte foi sua vez de ter o primeiro disco, com seu rosto ora sorrindo, ora sério, cantando sua Pedro Pedreiro:
“……
Esperando a festa, Esperando a sorte,
Esperando a morte,
Esperando o trem
Esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também”.

(LP Chico Buarque de Hollanda, RGE, 1966).

Cinco anos depois, ele chega com sua Rosa dos Ventos:
“Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar”.

(LP Rosa dos Ventos, show ao vivo de Maria Bethânia no Teatro da Praia, Philips, 1971)
.
Nesse mesmo disco, lembram Jards Macalé e Capinan que sua Movimento dos Barcos está presente:


“Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que lhe roubei…

Vinicius de Moraes conversa com Tom Jobim sobre a profunda amizade e sintonia que cresceu entre ambos por tanto tempo. Pedem então, a Elizeth Cardoso, na mesa ao lado, para rememorar Chega de Saudade, de onde se originou a batida da bossa-nova:

“Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer”

(LP Canção do Amor Demais, Elizeth Cardoso, Festa/,CBD, 1967).

Em seguida, pedem a Sílvio Caldas que se junte a Elizeth para reviver Chão de Estrelas, que Sílvio compôs com Orestes Barbosa:


“A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão”

(LP duplo Elizeth Cardoso e Sílvio Caldas, Copacabana, 1971).

E logo chamam João Gilberto, que então compartilha com eles Meditação, do próprio Jobim com Newton Mendonça:

“Quem acreditou
No amor, no sorriso
e na flor
Então sonhou, sonhou….”

(LP O Amor, o Sorriso e a Flor – João Gilberto, Odeon, 1961).

Há tantos outros grandes artistas nas outras mesas! Ney Matogrosso revivendo Cartola em O Mundo é um moinho; Caymmi saudoso de Nana com seu Acalanto; Nelson Gonçalves com Naquela Mesa, que retrata a falta de Jacob do Bandolim; a linda Beatriz do Milton; a Drão do Gil…mas o tempo voou….a noite está findando, a festa também. Outras virão.

Quem escreve vive rodeado de cadernos, cheios dos rascunhos dos textos.
Estes depois são editados e os cadernos ficam deixados de lado.
Toquinho fez uma linda homenagem a esses ricos cadernos, com sua canção Caderno:


“Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo se você quiser

……
O que está escrito em mim, comigo,
Ficará guardado se lhe dá prazer
A vida segue em frente, o que se há de fazer
Só peço a você um favor, se puder
Não me esqueça num canto qualquer”.

(LP Casa de Brinquedos – Toquinho, Ariola, 1983).

Fopto do post: garoto no Feirão do Vinil, centro de São Paulo


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