Há 50 anos surgia o jornal dos jornalistas sem patrão que lutava contra a ditadura

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Nesta sexta-feira, dia 10, evento no Centro MariAntonia da USP vai lembrar a história do Movimento, marco da imprensa alternativa dos anos 1970

Por Luiz Prado, arte de Daniela Gonçalves* e compartilhado de Jornal USP




Foto: O jornal Movimento circulou de 1975 a 1981 – Fotomontagem feita por Jornal da USP com imagens de Freepik e Arquivo Público do Estado de São Paulo

Há exatos 50 anos, um grupo de jornalistas se reuniu para fundar um periódico de combate à ditadura militar então em vigor no Brasil. Mas eles não queriam apenas lutar pela democracia: queriam praticá-la. Sem patrões e financiado coletivamente, o jornal Movimento juntou intelectuais e militantes de esquerda em uma grande frente, tornando-se um dos mais importantes veículos da imprensa alternativa dos “anos de chumbo”.

Sua história será lembrada nesta sexta-feira, dia 10, às 15 horas, em um evento comemorativo no Centro MariaAntonia da USP. Estarão reunidos ex-integrantes do jornal, que discutirão o papel do periódico no enfrentamento ao regime e seu pioneirismo na luta pela redemocratização a partir da segunda metade dos anos 1970.

A primeira edição de Movimento ganhou as ruas no dia 7 de julho de 1975 – um tabloide de 28 páginas que custava 5 cruzeiros. A ditadura militar já passava de dez anos e quem estava no comando era o general Ernesto Geisel, que chegara à Presidência em 1974 prometendo abertura política segura, lenta e gradual. O milagre econômico estava ficando para trás, e a crise do petróleo de 1973 não ajudava o projeto político dos fardados. Mas eles ainda ficariam mais uma década no poder.

Certos setores contrários ao regime acreditavam que a chegada de Geisel poderia realmente aliviar as tensões e estavam dispostos a mostrar boa vontade. Entre eles, Fernando Gasparian, empresário nacionalista e diretor do Opinião, jornal de oposição lançado em 1972. Mas quem não concordava com ele era seu próprio editor, Raimundo Rodrigues Pereira, que ocupava o cargo no Opinião depois de um currículo de respeito na grande imprensa, com passagens pelas revistas Veja e Realidade.

“O Opinião pertencia ao Fernando Gasparian, e houve um momento, quando o general Geisel estava assumindo a Presidência e apresentou a proposta de abertura, em que ele resolveu apoiar essa tendência e se aproximar, disposto a publicar gratuitamente anúncios da Petrobras”, conta Carlos Azevedo, autor do livro Jornal Movimento: uma Reportagem, que vai participar do evento no Centro MariAntonia, nesta sexta-feira. “Raimundo não concordou, achava que essa política não atendia ao povo”, explica.

“A ideia de um jornal sem patrão era antiga”, afirma Tonico Ferreira, considerado o braço direito de Raimundo Pereira, secretário gráfico do Movimento e que também trabalhou no Opinião. Tonico recorda que, no início dos anos 1970, já se discutia a ideia de uma publicação que não estivesse ligada a grupos econômicos, patrões, empresários ou órgãos do Estado. “Tínhamos um grupo de jornalistas em São Paulo com essa ideia e não conseguíamos viabilizar. Um jornal, mesmo semanal, exigia muitos recursos e infraestrutura”, acrescenta Tonico, que também estará presente no evento no Centro MariAntonia.

Era desse sonho que tinha vindo a parceria com Gasparian, em 1972, que levou Raimundo e Tonico para o Rio de Janeiro e fez surgir o Opinião. Na época, Gasparian era um exilado político em Londres, que havia sido perseguido pela ditadura e estava disposto a fazer um jornal de oposição. Por alguns anos o projeto funcionou, mas os atritos foram crescendo, e aquela divergência sobre a abertura proposta por Geisel colocaria um ponto final nessa história.

O jornalista Tonico Ferreira, que trabalhou no jornal Movimento - Foto: Reprodução/O Planeta Azul/YouTube
O jornalista Tonico Ferreira, que trabalhou no jornal Movimento – Foto: Reprodução/O Planeta Azul/YouTube

Imprensa silenciada

Em fevereiro de 1975, Raimundo acabou demitido da publicação. Para os colegas de redação, a atitude de Gasparian soava autoritária demais para um jornal a favor da democracia. Em solidariedade, vários colegas decidiram pedir as contas, incluindo Tonico. Desse rompimento é que surgiria o Movimento. Raimundo, Tonico e algumas outras pessoas voltaram para São Paulo e apresentaram a proposta de um jornal dos jornalistas, sem patrão empresário, para a imprensa e a intelectualidade local.

Cinco meses depois da debandada, Movimento entrava em circulação. Na capa da edição de estreia, uma matéria do então repórter policial Aguinaldo Silva – aquele mesmo que se tornaria depois autor de sucesso de novelas na Globo. Raimundo Pereira estava no comando, mas dessa vez era de fato o sonho de um jornal dos jornalistas sem patrões e na linha de frente do combate ao regime.

“No momento em que Movimento saiu, a grande imprensa estava completamente silenciada. Ela se omitia por medo, por apoiar a ditadura ou por razões comerciais”, aponta Azevedo. “Havia um desejo de democratização que se tornava um sentimento generalizado na sociedade, e o jornal apareceu com uma proposta que se encaixava perfeitamente nesse anseio.”

O semanário era sediado no bairro paulistano de Pinheiros, em um sobrado na Rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto. Possuía também sucursais no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Campinas e correspondentes em Belém, Curitiba, Londrina, Porto Alegre e Recife. A tentativa era tocar as decisões de maneira coletiva, resultando em assembleias, brigas e rachas.

Era uma situação delicada. Movimento representava uma grande frente de oposição ao regime militar, reunindo desde militantes de partidos de esquerda na clandestinidade até políticos do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o partido de oposição permitido pelo regime. A diversidade de tendências e o apoio amplo podem ser bem exemplificados com uma olhada no expediente do jornal.

Edição de 12 de junho de 1978 do jornal Movimento – Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

O número 112, de agosto de 1977, por exemplo, traz nomes como Chico Buarque de Holanda e Orlando Villas-Bôas no conselho editorial. Eduardo Suplicy, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort e Paul Singer aparecem como colaboradores. Na seção de Cultura, gente como Gianfrancesco Guarnieri, Jean-Claude Bernardet, Paulo Emílio Salles Gomes, Plínio Marcos e Ruy Guerra.

Para bancar essa empreitada, o financiamento vinha de recursos angariados pelos próprios jornalistas e pela Edição S.A., sociedade anônima criada especificamente para tocar o Movimento, cujo diretor responsável era Tonico. Jornalistas das grandes redações, intelectuais e políticos da oposição – todo mundo que queria ver um veículo de contestação ao regime – ajudavam a pagar as contas, comprando as ações da empresa.

“Naquela época, a economia ainda ia bem, estava começando a claudicar, mas havia muita gente bem empregada, a imprensa oficial estava em um momento muito bom e conseguimos fazer dessa forma”, lembra Tonico. “Tudo isso foi feito não apenas para produzir um jornal só de jornalistas, mas também com o sentido de oposição, e de fazer um jornalismo que conseguisse sobreviver àquele período de ditadura.”

Tanto Tonico quanto Carlos Azevedo contam que a ideia da empresa veio de Sérgio Motta, antigo político ligado à esquerda católica que havia se tornado empresário – e que nos anos 1990 viria a ser ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso. “Sérgio Motta ficou a vida inteira do jornal responsável pelas finanças e fazia mensalmente todo o acerto com Raimundo Pereira”, conta Azevedo. “Ele colocou até um funcionário dentro do jornal para cuidar da administração financeira.”

Mas, apesar do apoio, o cerco era duro. Movimento já nasceu sob o jugo da censura. “O general Geisel e o ministro da Justiça, Armando Falcão, tiveram acesso ao número zero de Movimento, com toda a sua proposta editorial, e avaliaram que aquele jornal era um inimigo perigoso”, explica Azevedo. “Geisel então determinou que desde o número 1 ele teria uma censura prévia duríssima. Eles queriam destruir o jornal.”

Páginas do jornal Movimento – Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

Mais de 3 mil artigos censurados

Reflexos disso já estão em sua segunda edição, que teve 14 matérias vetadas completamente e outras 12 foram alvo de censura parcial. A edição de número 15 foi totalmente apreendida, graças a uma reportagem sobre contratos da Petrobras com empresas internacionais para exploração do petróleo brasileiro. Nessa toada, o periódico não pôde sequer citar o nome do jornalista Vladimir Herzog, morto nos porões da ditadura em 25 de outubro de 1975, cuja versão oficial de morte dada pelos militares falava em suicídio. Até o fim da censura prévia, em 1978, cerca de 3 mil artigos e outras 3 mil ilustrações foram cortadas das páginas de Movimento.

Tonico explica que o método de censura aplicado à publicação teve suas origens ainda na época do Opinião. “Foi um sistema que a ditadura inventou para censurar os jornais de oposição.” Nos veículos da grande imprensa, conta, a censura costumava atuar através de telefonemas ou de correspondência, avisando os jornalistas a respeito dos assuntos proibidos. Alguns jornais recebiam também a visita dos censores nas redações, como foi o caso de O Estado de S. Paulo. “Mas, quando surgiram os jornais de oposição, ficou mais difícil esse tipo de coisa, porque achavam que nós conseguíamos enganar os censores.”

Quando o Movimento começou a circular, os militares já haviam encontrado o sistema ideal. A edição completa do jornal era levada até a sede da Polícia Federal em São Paulo, que remetia o material via malote para Brasília, onde era avaliado por censores da PF de lá. O que escapava da tesoura da censura voltava para publicação e nada mais podia ser acrescentado.

“Mandávamos todo o material bruto para a censura e isso criava um grande problema para editar e manter o jornal”, conta Tonico. “Precisávamos fazer um jornal com dias de antecedência e não podíamos acrescentar nada depois.” Era a maneira que os militares acharam para lidar com uma nova forma de combate ao regime, diz Tonico. “A ditadura estava muito acostumada a combater a luta armada, mas não a luta legal.”

Mesmo com o fim da censura prévia, em 1978, a perseguição a Movimento continuaria. A ditadura passava a usar a Lei de Segurança Nacional e processos criminais para amordaçar o jornal. O próprio Tonico, como diretor responsável, teve que responder judicialmente a um processo motivado pela publicação de uma charge do presidente Geisel. Ele precisou se apresentar na auditoria militar, prestar depoimento diante da corte e reunir testemunhas, que não foram levadas em conta.

Mesmo sob o regime militar, o jornal desafiava a censura -Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

“Pela Lei de Segurança Nacional, quando você fazia uma crítica às autoridades, como o presidente, ela era proibida mesmo que você pudesse provar que era verdadeira”, explica Tonico. Não havia muita saída para o diretor, e ele quase foi preso. Mas as discussões sobre a anistia já estavam acontecendo e seu processo acabou não seguindo adiante. “De certa forma, fui anistiado”, analisa.

Inserido em um campo da imprensa alternativa que já tinha visto surgir, em 1969, o humorístico O Pasquim e, em 1972, o Opinião, mais centrado em artigos, Movimento se destacou por seus esforços de reportagem – sobretudo ao retratar os problemas do País, como a fome, o crescimento da dívida externa e o aumento dos juros e da inflação. A preocupação com a condição de vida da classe trabalhadora brasileira era uma das bandeiras levadas pelo jornal. “Ele mostrava que o País estava em crise econômica e também não deixava de analisar as posturas ditatoriais do governo”, afirma Azevedo.

Na época do lançamento do jornal, Azevedo era militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e vivia na clandestinidade. Muito amigo de Raimundo Pereira – que conheceu na revista Realidade –, colaborou com o jornal lançando mão das estratégias que pôde. Era através das esposas de ambos que se encontravam periodicamente, que Azevedo recebia suas pautas e mandava as matérias que seriam publicadas no Movimento. Algumas sem assinatura, outras com o nome de colegas da redação ou pseudônimos. A colaboração seguiu até 1979, quando Azevedo já havia saído da clandestinidade.

“O jornal foi fruto de uma mobilização que reuniu milhares de pessoas”, lembra Azevedo. Graças ao seu programa editorial, que defendia as liberdades democráticas, a melhoria das condições de vida do povo, a soberania nacional e os recursos naturais do País, Movimento conseguiu mobilizar muita gente, recorda. “Todo mundo da área democrática que estava ali, sob a ditadura, mas já organizando uma ampla frente democrática.”

Movimento também pautou a luta pela redemocratização, defendendo uma Assembleia Nacional Constituinte livre, e fez campanha pela anistia aos exilados e presos políticos. Uma das chamadas encontradas nas páginas do jornal sintetiza seus ideais: “Leia, assine e divulgue Movimento: em defesa das liberdades democráticas, da independência nacional e da elevação do padrão de vida dos trabalhadores”.

Além disso, circulando de 1975 a 1981, o jornal acompanhou de perto as greves do ABC paulista e o ressurgimento do movimento operário, no final dos anos 1970. Na edição de 14 de maio de 1979, que traz o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva na capa, a seção opinião questiona: “Greves demais ou democracia de menos?”.

Era uma época em que a ditadura já mostrava sinais de cansaço e permitia espaço para questionamentos mais abertos. Contudo, na clandestinidade o perigo ainda rondava, e o jornal sofreu muito com os atentados a bomba em bancas de jornal cometidos por grupos interessados em fechar novamente o regime. Quem vendia o Movimento começou a deixar o semanário de lado, com medo do terrorismo.

Esse foi um dos pregos no caixão do jornal. Mas não o único. A própria redemocratização tão defendida seria decisiva para o fim de Movimento. Com a liberação de novos partidos políticos além do MDB e do Arena – o partido oficial –, a frente representada pela publicação entra em crise. Cada grupo quer ter seu próprio canal para veicular suas posições e apresentar seus projetos para o País. Movimento perde leitores, colaboradores e o próprio sentido.

O jornal “Movimento” acompanhou de perto o movimento sindical nos anos 70 – Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

Sectarismo e divisão 

“A frente vai se ampliando e isso muda a situação”, explica Azevedo. “O jornal que era fruto e origem de uma frente se desfaz. Ela vai adotando outras formas, e o Movimento perde sua condição de sobrevivência. De um lado, o terrorismo, de outro, o avanço da conjuntura política.”

“Quando a ditadura estava mais forte, a esquerda se unia. A partir de um certo momento, houve um processo de divisão entre a esquerda”, reflete Tonico Ferreira. Surgia o Partido dos Trabalhadores (PT), e os grupos antes ligados à luta armada buscavam atuação na legalidade, por exemplo. A esquerda se dividia. Um processo que Tonico reconhece ter acontecido também dentro da redação do Movimento.

“Houve um sectarismo até mesmo da nossa própria parte”, avalia. Para ele, faltaram negociação e debates dentro do próprio Movimento para que o jornal sobrevivesse àqueles novos tempos. “Hoje eu acho que poderíamos ter agido melhor para evitar as divisões. Quando a ditadura estava praticamente terminada tínhamos cinco ou seis jornais, nenhum deles forte. E todos acabaram.”

Tonico sonhava com um jornal que fosse além da ditadura. Para ele, a ideia sempre foi entrar na democracia com uma publicação diária forte, popular e democrática. “Um jornal de linha mais popular, mais de centro-esquerda. Mas isso não aconteceu porque nos dividimos”, lamenta. “Podemos dizer que o jornal – não só ele, como toda a imprensa alternativa – acabou porque se esfacelou. Foram muitas iniciativas e nenhuma com força suficiente para se impor.”

Equipe da redação do Movimento em 1975. Da esquerda para a direita, em pé: Elifas Andreato, Izalco Sardenberg, Flávio Aguiar, Ricardo Maranhão, Alcy Linares, Paulo Barbosa, Maria das Graças Rodrigues, Eduardo Mussi, Jota, Chico Caruso, Juca Martins. Sentados: Cecília Magalhaes, Teresa Ferreira, Raimundo Rodrigues Pereira, Sérgio Buarque de Gusmão, Francisco Marsiglia, Flávio de Carvalho.

Depois de 334 edições, Movimento encerrou sua história em 1981. Mas deixou uma trajetória de combate aos militares através das palavras e das ideias, que revela como a sociedade civil não aceitou passivamente a ditadura. “O jornal mostrava que a forma de lutar contra a ditadura era a legal, uma forma de luta ampla que pudesse reunir todos os setores que se sentiam incomodados com o regime”, afirma Tonico.

“O fato de a dispersão da esquerda ter impedido a continuidade do projeto não invalida o que foi feito”, reflete. “O Movimento foi superimportante em termos de informação e aglutinação de forças democráticas no momento mais tenebroso da ditadura, no exemplo de resistência legal e na defesa aberta da democracia.”

Dessa empreitada, fica também para Tonico o orgulho – no sentido mais positivo da palavra, sublinha. “O orgulho de ter cumprido a nossa obrigação. Não foi fácil, sofremos perseguições, processos, falta de dinheiro. Temos que ter um orgulho muito grande de ter feito aquilo”, pontua. 

O evento comemorativo dos 50 anos de fundação do jornal Movimento acontecerá nesta sexta-feira, dia 10, às 15 horas, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. Não é preciso fazer inscrição.

*Estagiária sob orientação de Moisés Dorado

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