Homens, a culpa é de vocês

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Culpabilizar mulheres por feminicídios e outras formas de violência de gênero revitimiza mulheres, legitima impunidade masculina

Por Júlia Pessôa, compartilhado de Projeto colabora

Foto: Mulheres protestam contra feminicídios em São Paulo: homens precisam assumir a culpa e a responsabilidade sobre a violência (Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil – 07/12/2025)

Eu sei que há mulheres que reproduzem discursos machistas que fazem ouvidos sensatos sangrarem: “se apanhou, aprontou alguma”, “com aquela roupa, tava pedindo”, “também ela provocou”, e por aí vai. Estamos em 2025, e qualquer pessoa que tenha pelo menos dois neurônios em pleno funcionamento sabe que todas as violências praticadas contra mulheres têm apenas um culpado: o agressor, abusador, estuprador, perpetrador… o homem que infligiu isso contra um corpo feminino.




Não adianta culpar as roupas, o temperamento, o comportamento, o chifre levado, a rejeição ou o diabo a quatro: nada justifica que uma mulher seja morta ou violentada em qualquer sentido. A violência acontece porque homens acreditam que estão exercendo seu direito: de posse do corpo feminino, de superioridade, de lavar uma “honra” ferida, de fazer alguma ideia torta de justiça eliminando ou violando as grandes desafiadoras da ordem IMAGINÁRIA que valida a superioridade masculina: as mulheres.

Como se a gente não tivesse motivo suficiente para subir pelas paredes de ódio, a solução para que parem de nos matar e violar também é cobrada de nós. São as mulheres que ocupam as ruas clamando por isso. É das mães que se espera que haja mudanças na maneira em que se cria e se educa meninos para que não sejam machos deploráveis como vimos nas gerações de seus pais, avós, irmãos, tios, primos, agregados e o escambau. Somos nós que precisamos atravessar a rua, apertar o passo, trocar de roupa, aprender defesa pessoal, cuidar das amigas e manter um estado de alerta permanente, para que continuemos vivas e com integridade física e mental.

Vivemos com medo e com raiva de carregarmos um alvo no corpo, que pode ser acertado a qualquer momento, e por qualquer um, apenas por sermos mulheres. Mas sobretudo estamos exaustas e de saco cheio. Enquanto os homens não entenderem que são os únicos culpados, no sentido estrutural e individual, pelos feminicídios e toda sorte de violência imputada às mulheres, não conseguiremos vislumbrar um futuro melhor para nossas meninas.

Não interessa quem possa ficar incomodado e puxar um coro de “nem todo homem”. Ainda que, de fato, obviamente nem todo homem seja um agente de violência, é responsabilidade de cada um contribuir para que ela possa ser combatida. Isso requer repensar as próprias ações, apontar violências dos outros (ainda que sejam “bróders”, “parças” ou qualquer coisa que o valha) e contribuir ativamente na educação de meninos, para que eles entendam que a masculinidade não se forja na força, na agressividade e numa ideia descabida de superioridade.

Estamos cansadas de moderar o discurso, sob o risco de sermos consideradas “radicais” e afastar os cristaizinhos que argumentam que “o feminismo não pode odiar os homens”. Ninguém aguenta mais ter que mobilizar o discurso de que a misoginia também causa sofrimento aos homens (o que é verdade) para que eles tenham empatia, enquanto somos nós que estamos sendo mortas, estupradas e acuadas. É preciso que a masculinidade defenda nosso direito de viver sem que precise pensar que “poderia ser sua mãe/filha/esposa”, mas simplesmente pelo fato de que somos pessoas. Não dá mais pra esperar por instituições brancas, velhas e masculinas que nos resguardem.

Se a culpa pelas violências de gênero é dos homens, a solução também precisa ser. Não adianta queremos viver se a masculinidade não assumir sua responsabilidade por nossas mortes e feridas, e decidir, enfim, parar de nos atacar.

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