Por Adermir Assunção, poeta e jornalista
Sei que amanhã, quando eu morrer / Os meus amigos vão dizer / Que eu tinha bom coração / Alguns até hão de chorar / E querer me homenagear / Fazendo de ouro um violão / Mas depois que o tempo passar / Sei que ninguém vai se lembrar / Que eu fui embora / Por isso é que eu penso assim / Se alguém quiser fazer por mim / Que faça agora / Me dê as flores em vida / O carinho, a mão amiga / Para aliviar meus ais / Depois que eu me chamar saudade / Não preciso de vaidade / Quero preces e nada mais…
(Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)
Parte 1
Se você fizer a descomprometida perguntinha no Google, “como foram os últimos anos de Orides Fontela”, é isto o que a Inteligência Artificial da megacorporação vai responder:
“Os últimos anos de vida da poeta e filósofa Orides Fontela, na década de 1990, foram marcados por grave precariedade financeira, isolamento e deterioração da saúde. Apesar do grande reconhecimento acadêmico e de prêmios como o Jabuti, ela viveu em condições de extrema vulnerabilidade em São Paulo.
Os principais eventos do final de sua vida incluem:
- Situação Financeira Extrema: Sobrevivia com uma aposentadoria irrisória (cerca de R$ 423 na época) e dependia da ajuda de amigos para custear o básico.
- Despejo e Moradia: A autora de livros como Teia chegou a sofrer despejo do apartamento onde morava na região da Vila Buarque e precisou voltar a viver na Casa do Estudante, dividindo espaço com jovens.
- Exposição Midiática: Em 1996, uma rara aparição no programa Fantástico revelou ao público nacional a triste realidade de uma das maiores poetas do país vivendo na miséria.”
Parte 2
Mas agora ela é a homenageada da Flip. Alguns vão ganhar um bom dinheiro em cima da paupérrima defunta. Tudo, claro, em nome da “genial obra da poeta” morta na miséria e no abandono.
Aos escritores, escritoras e escritorxs que vão participar dos festejos literários em Paraty, badalando, fofocando e cavando um lugarzinho ao sol eu faço três descompromissadas perguntinhas: não acham tudo isso uma tremenda sacanagem? Não sentem uma pontinha de vergonha? Não acham que o espírito de Orides – se houver algum tipo de energia que sobreviva à podridão do corpo – deve estar soltando fogo pelas ventas e tramando algum tipo de vingança, junto com a também sacaneada (bem mais recentemente) Márcia Denser?
Não, né?
Beleza, divirtam-se.
PS: E não adianta ficarem putos comigo. Fiquem putos com os que sacaneiam os vivos.
Obs.: título e abertura do Bem Blogado







