Por Angela Carrato, jornalista
A bem tão nova jogada do JN para a eleição
Depois de vários dias sendo encurtado e exibido fora do horário, o principal telejornal da família Marinho teve nesta terça-feira (23/6) mais uma edição profundamente manipulada. Que o JN não tem compromisso com os fatos é notório e sabido, mas a dose de hoje ultrapassou todos os limites.
Como vem acontecendo desde o início da Copa do Mundo, o futebol ocupou perto de 70% da edição, voltada para os jogos do dia, preparativos da Seleção Brasileira e Escocesa para o confronto de amanhã, e curiosidades, como o mau tempo que atrasou o voo da Seleção Brasileira de Nova Jersey para Miami.
Até aí, tudo bem. No entanto, como só esses fatos não seriam suficientes para cobrir a maior parte do telejornal, entrou em campo o enche linguiça de informações sobre a Copa sem qualquer relevância num dia marcado por assuntos de extrema importância na política brasileira e internacional.
A primeira grande omissão do JN diz respeito ao depoimento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele foi ouvido pela Polícia Civil sobre o crime (mais um) de ter arma em sua residência em Brasília, onde cumpre sentença de prisão, por tentativa de golpe de Estado. A prisão domiciliar de Bolsonaro termina hoje e caberá ao ministro do STF, Alexandre de Moraes, diante dos novos fatos, determinar se ele continua no regime domiciliar ou retorna para a Papuda.
Não é a primeira vez, desde que está preso, que Bolsonaro apronta. Quem se lembra da tentativa dele de, com uma solda, destruir a tornozeleira eletrônica? O porte de arma por um preso é crime gravíssimo.O depoimento dele à Polícia Civil durou meros cinco minutos. Tempo tão exíguo contrasta com a gravidade da situação, especialmente quando se sabe que seus filhos tentam vender fora do país a imagem de que ele é um “injustiçado e perseguido”.
Nada mais absurdo, quando o que se vê é Jair tendo regalias que nenhum outro presidiário teria em qualquer parte do mundo. Ao omitir isso, o JN joga a favor do ex-capitão e obviamente da extrema-direita brasileira e internacional.
A segunda grande omissão é continuar passando pano para o ministro do STF, André Mendonça, que mesmo diante de diálogos gravados e fartas evidências de corrupção por parte de Flávio Bolsonaro, insiste em não determinar mandado de busca e apreensão em sua residência e nem determinar a quebra do seu sigilo bancário.
A mesma família Marinho que tentou criminalizar de todas as formas os ministros do STF, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, não vê nada de errado na conduta de Mendonça, mesmo ele colocando em prática o famoso dois pesos e duas medidas quando se trata de um petista, como o senador Jacques Wagner, e um extremista de direita, como Flávio Bolsonaro.
A terceira grande omissão foi ter silenciado sobre a ameaça direta que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez ao Brasil. Em sua rede social, Trump anunciou hoje, formalmente, que a eleição brasileira é seu próximo desafio e diz que vê o Brasil como “um perigo”. Como sempre faz, suas postagens são confusas e contraditórias, mas nunca inocentes ou despropositadas, especialmente porque a nova doutrina de Segurança Nacional dos Estados Unidos menciona, com todas as letras, que o país pretende retomar o papel de tutor da América Latina. Papel que o secretário de Estado, Marco Rubio, define como retomar o nosso “quintal”.
O anúncio de Trump deveria ser motivo de grande preocupação diante dos resultados das três eleições presidenciais este ano na região: Honduras, Peru e Colômbia. Há fortíssimos indícios de que Trump, CIA e Israel tiveram influência nos resultados que deram vitória à extrema-direita e a aliados diretos da Casa Branca, como o eleito no último domingo na Colômbia, Abelardo de la Espriella, que além de morar em Miami e ter cidadania estadunidense, é filiado ao Partido Republicano.
A audiência do JN não ficou sabendo do que aconteceu na campanha eleitoral nestes países, porque o telejornal da família Marinho e o restante da mídia corporativa brasileira simplesmente não cobriu. Desconhecimento que é muito útil para a extrema-direita, pois impede que a população brasileira perceba como os esquemas adotados para derrotar candidatos progressistas são semelhantes.
Pode-se alegar que a situação do Brasil é muito diferente. Oitava economia do mundo e maior país da América Latina, as investidas de Trump – que estão se intensificando – não terão o mesmo impacto que em democracias frágeis como o Peru, em crise política há uma década, ou mesmo na Colômbia, onde só o governo de esquerda de Gustavo Petro destoa de um histórico de presidentes de extrema-direita.
Por outro lado, sabe-se que o modelo adotado por Trump e seus aliados pauta-se pelo uso das big techs e redes sociais para jogar a opinião pública contra candidatos progressistas, confundindo as pessoas e levando-as a uma espécie de exaustão política.
Por tudo isso chama atenção a reportagem sobre a atuação de criminosos no Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. Ela mostrou a ação da Polícia Civil que invadiu o morro para capturar bandidos da facção Comando Vermelho. Como sempre, a operação policial foi truculenta, houve tiros, um ferido e muito medo na comunidade. Para um delegado ouvido pelo JN, os bandidos impedem que os direitos dos moradores sejam respeitados. Verdade, mas o curioso é esse tipo de fala (ou recorte de fala) desconhecer toda a luta do atual governador do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, e do governo federal contra as facções criminosas e as milícias, tão próximas à família Bolsonaro.
Tão ou mais grave ainda foi o JN desconhecer que exatamente hoje a Polícia Federal estava executando a Operação Red Fox, para combater o tráfego internacional de drogas e lavagem de dinheiro, focada no CV, que atua no Rio de Janeiro, em outros estados brasileiros e internacionalmente. Operações sem as quais toda tentativa de enfrentar criminosos nos morros e comunidades se mostrará inócua.
Ações, por outro lado, que envolvem um combate a setores do mercado financeiro nacional e internacional, que se beneficiam e são parte disso.Não por acaso a operação teve braços em Suriname e envolveu prisões e bloqueio de bens superiores a R$ 500 milhões.
Qual a razão para o JN ter omitido esta operação da Polícia Federal em parceria com o Ministério Público Federal e mencionar só a da Polícia Civil do Rio de Janeiro? Eram operações conjuntas? Não tenho a resposta, mas não me sai da cabeça que por trás de tudo isso está um jogo muito bem articulado para beneficiar Flávio Bolsonaro na disputa pela presidência da República.
Mesmo desmoralizado, sem currículo compatível e sem programa eleitoral minimamente aceitável, o que resta para o Filho 01 é bater na tecla da segurança pública, apostando no medo das pessoas. Dito isso, qual impacto eleitoral poderia ter se, por exemplo, faltando dias para a eleição, Trump armasse um ataque a supostos narcoterroristas em alguns pontos do Brasil, sob o mentiroso argumento de que o governo Lula não os combate?
De pouco adianta o governo, o PT e os setores progressistas da sociedade brasileira fingirem que não está acontecendo nada.A disputa de Lula não será apenas com o medíocre e corrupto Filho 01. Desta vez a disputa é com a Casa Branca e está em jogo a nossa própria soberania, mas para a família Marinho o que parece valer são os milhões que está faturando com a Copa do Mundo, além do serviço que, mais uma vez, presta à extrema-direita.O Brasil e o povo brasileiro que se danem.
titulo do post: Bem Blogado







