“Os ETs de Varginha” revisita a apuração sob o olhar de quem esteve no epicentro dos acontecimentos
Por Jean Silva, compartilhado de BdF
Foto: Margarida Hallacoc autora do livro Os ETs de Varginha – Os bastidores de uma cobertura de outro mundo | Crédito: Arquivo pessoal
No dia 20 de janeiro de 1996, uma tempestade fora do comum caiu sobre Varginha (MG). Moradores relatam uma chuva violenta, em que o “céu roncava”. Foi nesse cenário que o policial militar Marco Eli Chereze teria participado da captura de uma criatura descrita de forma semelhante àquela avistada, horas antes, por Kátia, Valquíria e Liliane em um lote da cidade.
A morte de Chereze, dias depois, tornou-se um dos pontos mais sensíveis e controversos do chamado Caso Varginha, episódio que projetou o município mineiro para o centro do debate ufológico mundial e que, três décadas depois, segue cercado por silêncios oficiais, contradições e disputas de narrativa.
É a partir desse terreno instável que o livro Os ETs de Varginha – Os bastidores de uma cobertura de outro mundo, da jornalista Margarida Hallacoc, revisita os acontecimentos sob o olhar de quem esteve no centro da cobertura jornalística em 1996. À época repórter da sucursal do Hoje em Dia no Sul de Minas, Hallacoc precisou conciliar a rotina exaustiva de uma repórter regional com a apuração de um dos episódios mais desconcertantes da história recente do país.
Sem a pretensão de convencer o leitor sobre a existência de vida extraterrestre, a obra aposta na memória, no método jornalístico e na análise do contexto político, militar e midiático que envolveu o caso. O resultado é um texto de leitura fluida e magnética, que intercala bastidores, pressões e relatos regionais com pausas divertidas e momentos quase hipnotizantes, conduzindo o leitor pela curiosidade e pelo desejo constante de seguir adiante.
Reconhecido por pesquisadores e ufólogos, o livro chama atenção para um aspecto frequentemente ignorado: segundo relatos de testemunhas civis, militares e pesquisadores, o episódio não teria envolvido apenas um ser, mas vários. 30 anos depois, novos depoimentos e produções audiovisuais voltam a reacender o debate.
Ao Brasil de Fato MG, Margarida Hallacoc revisita os bastidores da cobertura, analisa os impactos do caso em Varginha e reflete sobre o direito à informação e os limites do jornalismo diante de temas considerados incômodos.
“No livro eu conto os bastidores de uma cobertura de uma jornalista angustiada. Eu corro por fora da necessidade de comprovar o que quer que seja, afinal, não sou ufóloga”, destaca a autora.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Quem era a Margarida Hallacoc de 1996? Que tipo de jornalismo você exercia naquele momento e como era sua rotina quando o caso de Varginha ganhou projeção nacional e internacional?
Margarida Hallacoc – Em 1996, eu era uma repórter muito jovem e sem experiência, mas extremamente empenhada em fazer o meu melhor. Quando vim para a sucursal do jornal Hoje em Dia, trouxe comigo essa determinação, embora ainda estivesse aprendendo os detalhes da profissão em uma época em que o trabalho exigia presença física constante, sem o auxílio de internet ou celulares.
Passávamos muito tempo nas estradas, o que me permitiu conhecer profundamente a região em um raio de 200 km ao redor de Varginha. Nesse contexto de idas e vindas constantes, comecei a ouvir relatos sobre o aparecimento e o avistamento de luzes misteriosas. Naquela época, eu era uma repórter bastante cética e encarava essas histórias como meros boatos ou confusões das pessoas, que muitas vezes associavam tais fenômenos a assombrações.
Esses avistamentos de luzes e fenômenos estranhos ocorreram cerca de um ano antes do que viria a ser conhecido como o Caso Varginha. Embora eu ouvisse essas histórias com desconfiança, elas faziam parte do cenário que eu percorria diariamente.
Naquela época, eu colhi muitos relatos e realizei diversos trabalhos nesse sentido, tratando tudo com naturalidade, como meras narrativas. Eu vinha da escola de jornalismo dos anos 90, pautada por diretrizes como as do Manual da Folha, onde apurar uma notícia significava, essencialmente, ouvir os dois lados e explicar os fatos. Para mim, essa era a regra de ouro, até que o Caso Varginha aconteceu e me trouxe uma dose necessária de humildade profissional.
O maior aprendizado que tive com esse episódio foi perceber que nem sempre é possível ter acesso aos dois lados de uma história, mas isso não faz com que ela deixe de ser notícia. O Caso Varginha me ensinou que, se um fenômeno está na boca de todos e mobilizando a opinião pública, o repórter tem o dever de cobri-lo e relatar o que está acontecendo. Essa experiência mudou minha percepção sobre o fazer jornalístico, mostrando que a realidade nem sempre se encaixa perfeitamente nos manuais.

Foto: Divulgação/Memorial do ET
No livro, você relata que não tinha envolvimento com a ufologia antes do episódio. O contato direto com as fontes, testemunhas e instituições alterou sua forma de enxergar o tema? Em que momento o caso deixou de ser apenas mais uma pauta?
Naquela época, a ufologia era um conceito totalmente estranho para mim. Meu foco profissional estava voltado para economia, cultura e o cotidiano das cidades. Mesmo já tendo passado pelo jornal Estado de Minas e estando no Hoje em Dia, eu me sentia muito “crua” quando o Caso Varginha estourou.
As autoridades tentaram nos convencer de que não eram extraterrestres no hospital, mas sim um casal de anões grávidos
No livro, eu conto os bastidores de uma cobertura de uma jornalista angustiada. Eu corro por fora da necessidade de comprovar o que quer que seja, afinal, não sou ufóloga. No entanto, logo me vi em uma profunda crise de consciência. A sucursal recebia dezenas de ligações diárias de leitores que usavam o telefone fixo para sugerir pautas, criticar ou elogiar, e o volume de relatos sobre luzes e avistamentos “cabulosos” começou a me assustar.
Eu temia estar alimentando uma histeria coletiva ou falhando com o meu compromisso de fidelidade ao leitor. Era um conflito ético intenso: de um lado, o medo de ser irresponsável profissionalmente; de outro, a pressão avassaladora da concorrência.
Com cerca de 50 repórteres na cidade, todos buscavam seu “lugar ao sol”. Lembro-me bem das tentativas de entrevistar o médico Ítalo Venturelli; nós o cercávamos, pois sabíamos que ele detinha informações, mas ele se mantinha em silêncio. Eu saía da sala de imprensa angustiada, vendo outros repórteres entrarem logo em seguida. O medo de que ele confiasse neles e não em mim me tirava o sono; eu chegava a sonhar que estava em uma banca de jornal e via o concorrente com a manchete e a foto da criatura enquanto eu “dormia no ponto”.
As coletivas de imprensa eram momentos em que voltávamos rindo, incrédulos com as explicações oficiais dos militares. Em certa ocasião, as autoridades tentaram nos convencer de que não eram extraterrestres no hospital, mas sim um casal de anões grávidos. Aquilo soava tão surreal que acabava produzindo o efeito contrário: eu pensava que, se estavam tentando nos convencer de algo tão improvável, era porque realmente havia algo muito sério sendo escondido.
Estavam, claramente, “fazendo hora” com a nossa cara. O dia em que um Major do Exército deu essa declaração sobre os anões foi decisivo para mim. Saí daquela coletiva acreditando piamente que o Caso Varginha era verdade.

Ao optar pelo título Os ETs de Varginha, você rompe com a narrativa mais difundida do “ET” no singular. Por que foi importante afirmar essa pluralidade, sobretudo diante da desinformação e do desconhecimento que ainda cercam o caso?
No início, todos nós tratamos os relatos sobre a criatura como meros boatos. Acreditávamos que a cidade estava mergulhada em rumores sem fundamento e, por isso, acabamos “dormindo” durante a primeira semana, que era justamente o período mais crucial para a apuração.
O que me deixava mais cética era a cronologia dos eventos. Recebíamos informações de que, por volta de 10h30 ou 11h da manhã de um sábado, bombeiros teriam capturado um bicho esquisito, colocado em uma caixa e levado embora após barulhos de tiros. No entanto, poucas horas depois, por volta das 15h30, as meninas relatavam ter visto uma criatura em um local mais acima.
Na minha cabeça, aquilo não fazia sentido: como um ser capturado e levado pela manhã poderia aparecer novamente à tarde? Parecia óbvio que o povo estava ficando louco.
Ao entrevistar as meninas pessoalmente, percebi que o relato delas era sólido e idêntico ao que vinha sendo descrito. Foi então que, após cerca de duas semanas, sentei para refletir e cheguei a uma conclusão perturbadora: ou a cidade inteira estava sofrendo uma alucinação coletiva, ou não estávamos falando de apenas uma criatura, mas de várias.
Essa hipótese ganhou força com novos avistamentos, como o da senhora Vera no Zoológico de Varginha. Ela relatou ter visto uma criatura muito de perto quando foi fumar na parte externa, tempos depois do episódio das meninas. Dias após o avistamento, quatro animais do zoológico morreram sem causa conclusiva. A criatura parecia ir e vir, surgindo em pontos diferentes e em momentos que desafiavam a lógica de uma captura única.
Infelizmente, levamos cerca de dez a doze dias para processar essa possibilidade e começar a levar os relatos a sério de forma investigativa. Esse tempo perdido foi precioso, pois as evidências físicas e os rastros iniciais já haviam se dissipado ou sido recolhidos.
No capítulo do livro intitulado Olhem pra cima, você aborda uma série de avistamentos de OVNIs em Varginha e em cidades vizinhas após os acontecimentos de 1996. O título remete, ainda que indiretamente, ao filme Não Olhe pra Cima, que trata da negação coletiva diante de um acontecimento iminente. Existe uma metáfora intencional sobre uma negação coletiva e institucional diante de fatos que desafiam versões oficiais?
Eu acho que existia isso: um medo de olhar para o céu e ver o que não queria ver, e ao mesmo tempo uma curiosidade incontrolável. Acho que mais que na região, porque as matérias estavam em rede nacional e nos jornais grandes, foi um ano em que se olhou muito para o céu.
Os observatórios, que até então eram um negócio mais de estudo de astronomia, não eram locais muito visitados. Nessa época, você tinha que fazer inscrição para ir. A gente começou a fazer matérias também dos observatórios que tinha em todo o Brasil.
Eu me lembrei do filme, sim, porque era essa onda de olhar para cima, não olhar, ter medo, ter curiosidade. No filme você tem medo de olhar para cima. Então, isso tudo passou na nossa cabeça em 1996. Foi um ano desafiador nesse sentido. Foi um ano complicado.
Como você avalia a cobertura da mídia comercial à época do caso Varginha? Houve silenciamento, ridicularização ou enquadramento político do tema?
Na época, todos trabalharam intensamente, devido à forte concorrência entre os veículos. Ninguém queria ficar para trás. Havia um medo, que não era só meu, de chegar à banca e ver uma manchete com a foto da criatura, que alguém tivesse conseguido algo que eu não consegui.
Enquadramento político não estava muito associado. As pessoas hoje são muito mais politizadas que naquela época. Hoje é quase time de futebol, quase torcida. Sobre silenciamento, não fomos censurados por nenhuma instituição. Apenas negavam. Falavam do caso quando a gente procurava, nos recebiam educadamente e nos dispensavam. Quando recebiam, era para desconversar.
O que me fez me interessar pelo caso é que a região tem muito caso de avistamento, mesmo antes do Caso Varginha e depois. Eu nunca vi ninguém despencar dos Estados Unidos e vir aqui conferir. Comecei a ir nos hotéis, com muito cuidado, pesquisar quem ficou hospedado no hotel. Consegui levantar dados de pessoas que tinham se hospedado em Varginha naquela semana. Enquanto a gente achava que o caso era conversa de barbearia, tinha pessoas dos Estados Unidos, da NASA, do Japão que tinham se hospedado aqui.
Havia medo da ridicularização e da pressão. Ninguém quer pagar o preço de afirmar publicamente que viu um extraterrestre
Me perguntei o porquê de tudo isso. Todo dia tem uma história de avistamento, de algum lugar, de luzes pelo céu. Todo dia tem um relato. O Brasil inteiro tem história de avistamento de naves: é ‘Operação Prato’, é no Maranhão, no Sul. Por que essas pessoas deram tanta importância para o Caso Varginha, antes de qualquer brasileiro dar importância? Antes de qualquer repórter entrar na parada, tinham pessoas aqui. Por quê?
O Caso Varginha é um diferencial. Acho que o caso era mais importante. Com o tempo, fui me convencendo de que aquela operação não foi uma coisa ao acaso. Percebi que estavam executando uma operação que alguém estava instruindo: “vai em tal lugar, faz isso, faz aquilo”. Era o executar de um trabalho, não era iniciativa de nenhuma instituição daqui.
O episódio envolve elementos graves, como a morte do cabo da Polícia Militar Marco Eli Chereze, ainda cercada de lacunas, além de relatos de medo, ameaças e pressão psicológica sobre moradores. Que clima você encontrou em Varginha durante a cobertura?
As pessoas nos recebiam para demonstrar cordialidade, mas logo encerravam o contato afirmando que “não era assim” ou que “nada havia acontecido”. Ao mesmo tempo, ficava evidente que alguns médicos queriam falar, mas estavam travados, impedidos de se manifestar. Nós insistimos muito, procuramos diversos profissionais à época.
Hoje, ao ver alguns desses médicos falando publicamente sobre o caso, confesso que isso me causa um pouco de raiva. Naquele momento, eu os procurei insistentemente e ninguém se dispôs a falar. Ainda assim, compreendo que o médico Ítalo Venturelli, assim como outros profissionais, tinha suas razões. No hospital, no Corpo de Bombeiros e em outras instituições, era nítido que muitas pessoas quase falavam, mas se continham.
Havia medo da ridicularização e da pressão. Ninguém quer pagar o preço de afirmar publicamente que “viu um extraterrestre”. No caso do doutor Venturelli, tratava-se de um cirurgião respeitado, com um nome a zelar. Uma declaração como essa poderia resultar em seu desligamento da instituição. Naquele contexto, ninguém estava disposto a arriscar a própria carreira para falar. Eu compreendo isso hoje.
A questão já não é mais se existe ou não vida fora da Terra. O grande desafio é como comunicar isso à sociedade
No início da minha trajetória como repórter, fui formada com a ideia de que a informação é um direito e que o jornalista deve buscá-la com coragem, de peito aberto, porque a sociedade tem direito de saber. Com o tempo, passei a entender que a questão não se resume apenas ao direito à informação.
Quem ocupa posições de comando em instituições estratégicas também tem a responsabilidade de proteger a sociedade de determinadas informações. Hoje, compreendo isso de outra forma. Quando se chega, por exemplo, a conclusões relevantes sobre uma vacina ou um medicamento, nem sempre é possível divulgar tudo imediatamente. Não se trata apenas do conteúdo, mas do cuidado com a forma e o momento da divulgação.
Vemos, por muito menos, consequências graves. Informações mal conduzidas podem levar pessoas a deixarem de se vacinar ou de procurar atendimento médico, gerando crises e catástrofes sociais. Por isso, é necessário cautela.
Antes, eu me perguntava por que determinadas informações eram escondidas, se a informação é um direito. Hoje entendo que nem tudo pode ser divulgado de maneira irrestrita. É preciso saber como contar e quando contar, para não provocar pânico social.
A sociedade se sustenta em pilares simbólicos e religiosos relacionados à vida e à morte, especialmente no mundo ocidental. Esses valores estruturam a organização social. Se esses fundamentos forem abruptamente invertidos, existe o risco de que tudo isso entre em colapso.

30 anos depois, novos depoimentos, como o do médico Ítalo Venturelli que afirmou ter visto a criatura, reacenderam o debate. Na sua avaliação, o caso ainda pode ter algum tipo de desfecho oficial?
A estratégia do silêncio deve continuar sendo a tônica do Estado brasileiro. Acredito, no entanto, que o caso ainda vai se desdobrar, mas não mais no Brasil. O que precisava acontecer internamente já aconteceu. As próximas novidades, ao que tudo indica, virão do exterior, especialmente em relação ao destino das criaturas.
Quando houver a confirmação de que essas criaturas deram entrada em outros locais fora do país, o caso brasileiro será automaticamente confirmado. As informações mais relevantes, a partir de agora, devem vir de fora.
Nos Estados Unidos, há um avanço significativo na liberação de informações e uma forte pressão institucional, sobretudo por parte do Congresso. O Brasil, por sua vez, não tem autorização para divulgar nada e, portanto, deve permanecer na mesma posição. Se houver a confirmação de que criaturas chegaram a outros países vindas do Brasil, que prova maior poderia haver?
O documentário O Mistério de Varginha, produzido pela TV Globo, trouxe recuos e negações de personagens centrais do caso, como militares e o pesquisador Ubirajara Rodrigues, pioneiro no caso. Como você analisa essas mudanças de discurso e as análises feitas por ufólogos que criticaram duramente o conteúdo da produção?
As críticas ao documentário são compreensíveis e têm fundamento. O material começou muito bem, com uma abordagem que lembrava o padrão “Globo Repórter”, mas terminou como “Casos de Família”, lavação de roupa suja com uma exposição desnecessária. Essa escolha editorial me pareceu equivocada.
A cidade estava mobilizada para assistir ao documentário. Varginha praticamente parou. Havia, inclusive, um clima de preparação para as celebrações dos 30 anos do caso. De repente, é lançado esse material, e eu confesso que não entendi o motivo nem o objetivo. Não sei se foi algo proposital, mas a pergunta que fica é: quem ganha com isso? Qual o interesse em lançar uma espécie de “banho de água fria” sobre a cidade e em desqualificar o trabalho dos ufólogos?
Eu achei que estivesse preparada para lidar com aquelas situações, mas não estava
Desmerecer e desrespeitar o trabalho de pesquisadores que se dedicaram ao caso por décadas me parece desnecessário. O pesquisador Vitório Pacaccini, por exemplo, foi praticamente exposto em praça pública no último episódio do documentário. Houve um esforço evidente para descredibilizá-lo, como se ele tivesse pago testemunhas para sustentarem determinadas versões. Pacaccini sempre foi um entusiasta do caso, dedicou-se profundamente a ele.
Além disso, há outros pesquisadores sérios que acompanharam o caso desde o início e que não foram ouvidos pelo documentário. Ufólogos comprometidos com a investigação ficaram de fora, sem que se saiba exatamente o porquê.
O impacto na cidade foi estranho e frustrante. A sensação geral foi de desconforto. Acredito que seria possível produzir um material equilibrado, ouvindo diferentes lados, sem adotar uma postura agressiva ou desqualificadora em relação aos ufólogos.
Varginha levou anos para fazer as pazes com essa história. Durante muito tempo, as pessoas foram reservadas, evitavam falar sobre o assunto. Para muitos moradores, o Caso Varginha acabou se tornando uma espécie de lenda urbana, como acontece em tantas outras cidades, e isso não representa um problema em si.
O que me incomoda é o fato de o documentário ter sido feito com o aparente intuito de desmerecer o caso, a cidade e o trabalho dos pesquisadores. Isso me pareceu bastante desrespeitoso.
Um exemplo claro disso é o caso do morador conhecido como “Mudinho”, apontado pela investigação do Exército como sendo a suposta criatura avistada pelas três meninas. Ele era uma figura amplamente conhecida na cidade e no bairro onde vivia. Ninguém o confundiria com outra pessoa, muito menos com uma criatura desconhecida. É difícil acreditar que bombeiros, Polícia Militar, Exército brasileiro e até forças militares dos Estados Unidos teriam sido mobilizados para chegar a uma conclusão tão simplista.
Que impactos a cobertura do caso teve na sua trajetória profissional e na sua compreensão sobre os limites do jornalismo diante de instituições de poder, como as Forças Armadas e grandes grupos de mídia?
O ocorrido ensinou muito na minha vida profissional. É entender que a gente não sabe tudo, que não temos controle das pautas e que tem coisas que vão surgir no meio do caminho que vão surpreender. Há pautas para as quais não estamos preparados enquanto jornalistas e tudo bem, é assim mesmo. No meu caso, eu achei que estivesse preparada para lidar com aquelas situações, mas não estava. Haverá um dia em que o profissional será surpreendido por uma cobertura em que você pode se perguntar: por onde eu começo?
A gente não está preparado nem para lidar com as vacinas
Nunca imaginei cobrir essa pauta, mas a gente aprende com isso. O importante é não passar ileso das referências, fingindo que as coisas não aconteceram. É importante sempre se questionar. Em relação às grandes instituições, eu aprendi que dificilmente a gente vai conseguir arrancar uma informação importante. Eles é que vão determinar o que querem dizer, e a gente vai reportar o que foi dito. Até porque existem muitas camadas; no caso militar, eles recebem ordens. Dificilmente vão burlar uma ordem e arriscar o pescoço para entregar uma informação a um repórter.
O jornalista é uma profissão que depende dos outros para dar certo. Na época do Caso Varginha, eu imaginava que se eu insistisse muito, se eu persistisse, eu iria conseguir as informações. Mais tarde, levou um tempo para eu descobrir que não era bem assim.
Essa experiência me mostrou que o empenho individual tem limites diante de estruturas fechadas. Por mais que o repórter seja obstinado, a entrega da informação muitas vezes não depende apenas da sua vontade ou competência. O Caso Varginha foi esse grande exercício de paciência e de reconhecimento de que nem todas as portas se abrem, independentemente da insistência do profissional.
Por fim, diante de discussões globais sobre transparência e possíveis anúncios oficiais sobre vida inteligente fora da Terra, você acredita que a sociedade e especialmente a imprensa estão preparadas para lidar com esse tipo de revelação sem negacionismo ou sensacionalismo?
Não estão preparados. Ninguém está preparado. A gente não está preparado nem para lidar com as vacinas.
O grande desafio hoje é como falar disso para as pessoas. Acredito que não revelaram a verdade sobre o caso, não porque querem esconder, mas porque não encontraram uma maneira de comunicar como toda a informação será passada para a sociedade. Tem que ter jeito, tem que ir aos poucos, porque pode causar um colapso nas instituições, na humanidade, tudo que rege a gente.
Posso estar enganada, mas acredito que o Caso Varginha vai se desdobrar de fora para dentro. Internamente, o que deve continuar é o discurso burocrático: apura-se um ponto aqui, ouve-se outro ali, enquanto o tempo passa e muitas das pessoas diretamente envolvidas já não estarão mais vivas.
E, sinceramente, hoje a questão já não é mais se existe ou não vida fora da Terra. O grande desafio atualmente é como comunicar isso à sociedade. Como falar sobre esse tema com as pessoas sem provocar pânico ou caos social.
Editado por: Ana Carolina Vasconcelos







