Le Freak na pista e na história de São Paulo

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Uma música recém-lançada, um improviso decisivo e um concurso esquecido da Banana Power revelam como a cultura disco transformou a cidade — e colocou jovens anônimos no centro da cena.

Por Renato Flôr, jornalista do Bem Blogado




Foto: Ilustração gerada no Gemini AI

Recentemente reencontrei um grupo de velhos amigos. Entre lembranças soltas, histórias pela metade e muitas risadas, um nome surgiu como um disparo coletivo de memória: Banana Power. A partir dali, percebemos o quanto lembrávamos pouco, apenas flashes, sensações e músicas.

Aquilo me inquietou. Resolvi pesquisar.

Quanto mais eu buscava, mais as peças iam se encaixando, trazendo de volta não só fatos, mas emoções. Uma nostalgia viva, pulsante. Aos poucos, a memória foi se reconstruindo e junto com ela, uma percepção inesperada: de alguma forma, eu também tinha feito parte de um pedaço da história da noite paulistana.

No final dos anos 70, São Paulo vivia o auge da febre disco. A cidade pulsava em ritmo importado das pistas americanas, mas com identidade própria. No meio desse cenário, a Banana Power, na Avenida São Gabriel, no Itaim Bibi, era mais do que uma discoteca — era um símbolo. Moderna, iluminada, vibrante. E, aos domingos, abria espaço para um público especial: adolescentes que lotavam suas matinês. E eu estava ali, no meio de tudo.

Pista do Banana Power, publicada no Facebook de Paulinho Penteado

Foi nesse cenário que tudo começou.

Eu e Kika, ambos da Vila Maria, Zona Norte, éramos frequentadores assíduos. Jovens, curiosos e completamente envolvidos pela música. Dançar era mais do que diversão: era linguagem, expressão, identidade. Até que surgiu o tal concurso: “Concurso de Danças Discoteque Juvenil 1978”, do Banana Power.

As eliminatórias aconteciam aos domingos. A cada semana, mais gente, mais expectativa, mais tensão. Sem perceber, fomos avançando. Quando vimos, estávamos na final.

Imagem do Facebook de Vasco Morgado

Não escolhíamos a música — o DJ tocava aleatoriamente.

Lembro como se fosse hoje. Domingo à tarde, casa cheia, expectativa no ar. Um corpo de jurados — entre eles, nomes conhecidos da televisão — observava atentamente. Nós estávamos prontos. Ou pelo menos achávamos que estávamos.

Foi então que começou a tocar uma música que ninguém conhecia.

Le Freak”, do grupo Chic, estava sendo lançada, no Bana Power, provavelmente naquele momento.

O impacto foi imediato — e estranho. O refrão vinha logo no início, sem aviso. A batida era diferente, mais recortada, mais “black”, menos linear do que estávamos acostumados.

Eu e Kika nos entreolhamos. A plateia também reagiu, meio desconcertada. Não tínhamos coreografia. Nenhum passo ensaiado. Por um instante, pareceu que tudo poderia desandar.

Mas aí aconteceu algo difícil de explicar.

A música entrou no corpo. O groove tomou conta. A genialidade de Nile Rodgers começou a se revelar, e o que antes era estranho virou energia pura. Começamos a improvisar. A pista respondeu. O público, que antes hesitava, se entregou junto. Quando percebemos, já não estávamos mais pensando — estávamos dançando. E dominávamos o espaço.

E foi assim que vencemos.

Recebemos um troféu. Fomos anunciados como campeões. O prêmio era grande: uma viagem para a Disney, oferecida pela agência Stella Barros Turismo. Para dois jovens da Zona Norte, aquilo era quase inacreditável.

Mas a viagem nunca veio.

Recebi, semanas depois, uma carta da própria Banana Power confirmando a premiação. Guardei o documento. Corri atrás. Procurei a agência. Voltei à discoteca. Insisti. Nada. A resposta era sempre vaga — até que ficou claro: o prêmio simplesmente não existia.

Na época, escrevi uma carta de protesto ao Jornal da Tarde. Usei palavras duras. Falei em desrespeito. Em “picaretagem”. Era indignação legítima de quem acreditou.

Esboço do texto que enviei para o Jornal da Tarde, na época trabalhava no House Horgan do Unibanco, por isso a lauda timbrada.

Mas, curiosamente, essa não é a memória que ficou mais forte.

O que ficou foi o que veio depois.

Por um período, eu e Kika nos tornamos conhecidos nas danceterias. Fomos convidados para apresentações em outras cidades. Lembro especialmente de Uberlândia e Araguari, em Minas Gerais. Subíamos ao palco como representantes de uma cena que estava nascendo, levando um pouco da energia da Banana Power para outros públicos.

Era um momento único. Breve, intenso, inesquecível.

Depois, a vida seguiu seus caminhos. Kika foi estudar fora do país. Eu ainda tive uma passagem pela formação do Grupo Raça, antes de seguir carreira no Jornalismo e Relações Públicas.

Mas aquela tarde de 1978 nunca saiu de mim.

Hoje, ao revisitar essa história, percebo que ela não é só pessoal. Ela faz parte de um momento maior — quando São Paulo experimentava novas formas de cultura, comportamento e expressão. Quando a pista de dança era também palco. Quando jovens anônimos podiam, por alguns minutos, se tornar protagonistas.

E, em meio a luzes, batidas e improvisos, eu e Kika tivemos nosso momento.

Um momento que, agora eu sei, também pertence à memória da cidade.

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