Loteria da vida

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E não é que o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, conta na maior cara de pau que chegou a passos da Estação Paquetá das Barcas, na Praça XV, no chamado Shopping Chão, mas não teve a coragem de cumprir uma promessa distante, a de visitar nossa Ilha?

César, ganhar na loteria para mim (Washington) e Maurinho será no dia que veremos você e sua bela família pisando na nossa linda Paquetá para cumprir a promessa.




Mas vamos à crônica desta semana do tratante.


“Não sei quanto a vocês, mas eu, antes de escrever, fico pensando em muitas coisas, uma vez que tudo pode ser matéria-prima para uma crônica. Por vezes, não vem nada; por vezes, a crônica passa na sua cara, quase esbarra em você e você mal se dá conta. Paciência é uma ciência.


Dito isto, neste final de semana que passou ocorreu algo que praticamente me deu a história da semana de bandeja: eu topei com um vendedor de bilhetes da Loteria Federal. Você se lembra do tipo? A ele a gente pode juntar o amolador de facas, o funileiro, o vassoureiro, o vendedor de enciclopédias de porta em porta, as ciganas, os que aplicam o conto do vigário, os Hare Krishnas, quem mais?


O mais bacana é a abordagem: o vendedor olha pra você, faz uns cálculos mentais, e sopra um milhar, dando um chute para descobrir a sua idade. Cai quem quer.


Pois bem, Layla e eu estávamos no Centro neste sábado visitando a feira da Praça XV e eis que surge com uma camisa vinho do Fluminense um sujeito com pinta de bom de copo. O distinto olha para mim e diz o número 1973. E eu digo a ele, não, não, não quero nada disso, não, obrigado.


Ou seja, ele estava chutando a minha idade, né? Errou por dois, eu sou de 1971. E aí eu continuei batendo perna, mô feirão, olha lá um poster do Cartola e do Papa, etc. e tal; e, para minha surpresa, encontrei com o cara de novo, que olhou para mim e disse: 1965!


Pô, aí eu fiquei chateado, né? Em duas rodadas o cara me envelheceu seis anos! Para ele, da primeira vez, eu tinha 53; e agora eu teria, não sei quanto, sei lá, quase 60 anos, 61 anos. Isso pode vir a ser, entre outras coisas, um sinal de que caminhar demais não faz muito bem à saúde.


Não tive cabeça em dizer ao vendedor de maneira espirituosa: Rapaz, no domingo passado, nós tiramos a sorte grande. Explico-me abaixo.


Essa ida à Feira da Praça XV foi pra mim e pra minha mulher um passeio determinado pela vitória do Lula. Era o primeiro final de semana com a nossa vitória em mãos, depois de tanto tempo de grandes incertezas.


Enfim, a nuvem negra momentaneamente se dissipou. O sol voltou a brilhar, ainda que timidamente. Nós vimos muitas pessoas com os broches do Lula, de camisas vermelhas. E nós éramos um deles.


Vimos muitos casais de mãos dadas, felizes, felizes. Dá uma certa alegria a questão da pluralidade, das inúmeras possibilidades das pessoas se relacionarem e serem felizes do jeito que lhes aprouver. Eu acho que talvez seja este o fator mais decisivo: a democracia tem disso: pluralidade.


Então, eu achei o passeio ótimo. A feira, maravilhosa, divertida, plural. Cansados de tanto bater perna, encaramos uma feijoada ali naquele corredor onde tem a livraria Folha Seca. A igreja estava aberta. Que coisa misturar o fumegando do feijão com os o dos defumadores.


Ficou para próxima uma visita à Casa Porto. Já tinha batido o cansaço. Mas mamata sempre há de pintar por aí.


Ainda tentei ver, num esforço hercúleo, uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, mas como eu não tinha levado óculos, eu não consegui retirar o ingresso para visitar a exposição “Amazônicas”. Fica para próxima.


Voltando ao assunto do vendedor de bilhetes, penso cá com os meus broches do Lula: se ele me soprasse a milhar 2026, eu levava o bendito bilhete nem que fosse de recordação. Pois 2026 foi o ano em que renasceu uma esperança na rua e nas redes.


Lula é tetra, meus amigos. E a luta está só começando. É preciso estar atento e forte, e não deixar de ocupar as ruas com a nossa alegria.

Amém.
Amendoim.


P.S. Falta eu tomar um cafezinho lá no Café recém-inaugurado em Paquetá. Irei marcar com o senhor M mais meu editor favorito.
P.S.2 Pelo fim das Bets.“

Foto: reprodução Medium

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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