Na Índia, Lula alertou para “práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho”
Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensa Piauí
Foto: Lula na India
Em discurso na abertura da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial nesta quinta-feira (19) em Nova Délhi, na Índia, o presidente Lula fez duras críticas à atuação das chamadas big techs, oligopólio que reúne as principais empresas de tecnologia, e alertou para a regulamentação para colocar o ser humano no centro das discussões sobre o tema.
“A regulamentação das chamadas ‘big techs’ está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países. O modelo atual de negócios dessas empresas depende da exploração de dados pessoais, da renúncia do direito à privacidade e da monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política. O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo. Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente”, afirmou o presidente brasileiro, citando as ações no país para “atração de investimentos em centros de dados e um marco regulatório de Inteligência Artificial”.
Lula ainda alertou para “práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho” e ressaltou que as big techs são “parte de uma complexa estrutura de poder”.
“Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia. Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital. São parte de uma complexa estrutura de poder. Sem ação coletiva, a Inteligência Artificial aprofundará desigualdades históricas”, afirmou Lula – leia e veja o discurso na íntegra ao final da reportagem.
Encontro com CEO do Google
Também na manhã desta quinta-feira, Lula se reuniu, a pedido, com o CEO do Google, Sundar Pichai, para falar sobre a atuação da empresa no Brasil.
Segundo nota divulgada no perfil oficial do presidente, “Pichai falou da importância do Brasil para o Google, dos investimentos da empresa no país, da abertura do Centro de Engenharia em São Paulo, e as ações de infraestrutura e parcerias com o setor público”.
“Apresentamos a visão brasileira para Inteligência Artificial, as ações do governo na área de serviços públicos digitais, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e o plano para atração de investimentos em datacenters”, escreveu Lula.
No encontro, o presidente brasileiro voltou a falar da “preocupação com os riscos da IA” e sobre a urgência em se regulamentar o setor.
“Falamos também da preocupação com os riscos da IA, especialmente para meninas e mulheres, e da proposta de marco regulatório em discussão no Congresso Nacional, com medidas de proteção para a indústria criativa brasileira. O Google sinalizou o compromisso de aprofundar a parceria com o governo brasileiro e de ampliar as ações com o setor privado no país”, afirmou.
Veja e leia o discurso de Lula na cúpula da IA na íntegra.
Discurso do presidente Lula na Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial (IA)
Para o Brasil é uma satisfação participar da Cúpula de Impacto de Inteligência Artificial organizada pelo governo indiano, sendo esta a primeira ocasião em que se realiza no Sul Global.
Aqui em Délhi, o mundo digital retorna à sua terra natal.
Foram matemáticos indianos que nos legaram, há mais de 2 mil anos, o sistema binário que viria a estruturar a computação moderna.
Fazemos o caminho de volta para debater um dos maiores dilemas da atualidade.
Nossas sociedades encontram-se em uma encruzilhada.
A Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente.
É nesse contexto que a governança global da Inteligência Artificial assume um papel estratégico.
Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas.
A aviação, o uso do átomo, a engenharia genética e a corrida espacial são exemplos desse fenômeno.
Elas podem multiplicar o bem-estar coletivo ou lançar sombras sobre os destinos da humanidade.
A Revolução Digital e a Inteligência Artificial elevam esse desafio a níveis sem precedentes.
Elas impactam positivamente a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética e a forma como conectamos uns com os outros.
Mas também podem fomentar práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho.
Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia.
Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital.
São parte de uma complexa estrutura de poder.
Sem ação coletiva, a Inteligência Artificial aprofundará desigualdades históricas.
Capacidades computacionais, infraestrutura e capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas.
Os dados gerados por nossos cidadãos, empresas e organismos públicos estão sendo apropriados por poucos conglomerados sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda em nossos territórios.
Segundo a União Internacional de Telecomunicações, 2 bilhões e 600 milhões de pessoas estão desconectadas do universo digital.
As estimativas mostram que, em 2030, ainda teremos 660 milhões de pessoas sem eletricidade.
Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação.
A regulamentação das chamadas “Big Techs” está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países.
O modelo atual de negócios dessas empresas depende da exploração de dados pessoais, da renúncia do direito à privacidade e da monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política.
O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo.
Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente.
O Congresso brasileiro discute uma política de atração de investimentos em centros de dados e um marco regulatório de Inteligência Artificial.
O Brasil lançou em 2025 o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.
Esse plano expressa nosso compromisso com a melhoria da qualidade de vida das pessoas através de serviços públicos mais ágeis e maior estímulo à geração de emprego e renda.
Este foi o paradigma da declaração sobre Inteligência Artificial que aprovamos na Cúpula dos BRICS no Rio de Janeiro no ano passado.
Esta é a postura que o Brasil adota no diálogo com outros parceiros e foros.
Participamos da iniciativa da China sobre a criação de uma Organização Internacional para Cooperação em Inteligência Artificial com foco nos países em desenvolvimento.
Dialogamos com a Parceria Global em Inteligência Artificial que nasceu no G7.
Mas nenhum desses foros substitui a universalidade das Nações Unidas para uma governança internacional da Inteligência Artificial que seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento.
O Pacto Digital Global que aprovamos em Nova York em setembro de 2024 estabeleceu um mecanismo crucial.
O Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial é o primeiro órgão científico global sobre o tema e reúne especialistas, fatos e evidências em suas manifestações.
O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a Inteligência Artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países.
Senhoras e Senhores,
A Índia, ao longo da sua história, legou à humanidade contribuições fecundas e extraordinárias em diversos campos do conhecimento: nas artes, na ciência e na filosofia.
Uma herança que traz à luz grandes dilemas éticos sobre a justiça, a diversidade, a inclusão e a resiliência.
Esse patrimônio é um poderoso referencial na busca por respostas aos desafios que a Inteligência Artificial impõe às sociedades contemporâneas.
Muito obrigado.







