A presença de Lula nesse espaço consagra sua figura como líder global e intelectual da política internacional
Por Geraldo de Majella*, compartilhado de 082 Notícias
Nessa sexta-feira, 6 de junho de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi homenageado por duas das instituições culturais e intelectuais mais prestigiadas da França e da Europa: recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Paris 8, e foi acolhido pela tradicional Academia Francesa — um gesto simbólico e político de altíssima repercussão internacional.
Universidade Paris 8: um centro de pensamento crítico europeu
Fundada em 1969 no contexto das lutas estudantis e sociais de Maio de 68, a Universidade Paris 8 surgiu como um marco na democratização do ensino superior francês. Localizada em Saint-Denis, uma comuna operária da região metropolitana de Paris, a instituição se notabilizou por seu compromisso com a inclusão de trabalhadores, imigrantes, minorias raciais e de gênero. Ao longo de décadas, se tornou um celeiro do pensamento crítico europeu, tendo em seu corpo docente e discente intelectuais que moldaram debates sobre filosofia, sociologia, literatura, artes e política.
O título de Doutor Honoris Causa concedido ao presidente Lula é, portanto, mais do que uma homenagem: é o reconhecimento simbólico de que sua trajetória de vida — de operário metalúrgico à liderança sindical, da prisão política à presidência da República — encarna os ideais de emancipação social e democratização que moldaram a criação da Paris 8. Como afirmou Lula em seu discurso:
“A homenagem de hoje não é apenas um reconhecimento pessoal. É um reencontro com valores que moldaram minha vida: a justiça social, a educação como ferramenta de emancipação e o compromisso com os que sempre tiveram de lutar por voz e por espaço.”
A presença na Academia Francesa: um gesto de legitimação histórica
Em outra agenda igualmente simbólica, Lula foi recebido pela Academia Francesa, instituição fundada em 1635 e guardiã da língua e da cultura francesa. A Academia é conhecida mundialmente por reunir 40 membros, os chamados “imortais”, responsáveis por preservar a tradição literária e intelectual da França. Raramente chefes de Estado são acolhidos em seus salões, e menos ainda líderes vindos da classe trabalhadora.
A presença de Lula nesse espaço consagra sua figura como líder global e intelectual da política internacional, capaz de dialogar com os grandes temas da contemporaneidade — como o multilateralismo, a justiça climática, a educação e a paz — a partir de um olhar forjado na experiência concreta da desigualdade social e da luta coletiva.
O silêncio da grande imprensa brasileira: sintoma de uma elite que se recusa a mudar
Apesar da relevância internacional dos dois eventos, a imprensa corporativa brasileira praticamente ignorou as homenagens. Nenhuma cobertura em destaque, nenhum editorial celebrando o fato de que um presidente brasileiro é tratado na Europa como uma das mais importantes lideranças democráticas do mundo atual.
Essa omissão não é casual. É reflexo direto do incômodo histórico da elite brasileira — e seus porta-vozes na mídia — com a ideia de que um homem que veio do chão de fábrica, um nordestino migrante e sem diploma universitário, possa ocupar um papel de liderança global com tanto prestígio.
Lula, ao ser homenageado por essas duas instituições culturais da França, rompe simbolicamente a lógica elitista que domina a política externa e interna brasileira há séculos. O que Paris reconhece, a mídia brasileira se esforça para invisibilizar. Esse “complexo de vira-lata”, como definiu o dramaturgo Nelson Rodrigues, se manifesta não só na submissão às potências globais, mas também na recusa em aceitar o valor de suas próprias lideranças populares.
Na França, Lula não foi tratado como “exceção”, mas como parte viva de uma tradição internacional de luta democrática, inclusão e soberania dos povos. A homenagem da Universidade Paris 8 e a recepção na Academia Francesa projetam não apenas sua figura, mas também o Brasil, como ator relevante na construção de um mundo mais justo e plural.
Enquanto parte da mídia local se fixa em picuinhas sobre gastos de viagens, líderes globais e instituições se voltam para Lula como símbolo de resistência democrática e esperança de um novo modelo de governança internacional.
A elite brasileira pode seguir negando. Mas o mundo já entendeu: o operário nordestino é hoje um dos mais respeitados chefes de Estado do planeta. E isso, por si só, já é uma revolução.
*Historiador e jornalista







