Lula lê?!

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Por Wilson Gomes, publicado na Revista Cult – 

O mês iniciou com um tweet do perfil de Lula: “Preso político há 57 dias, o presidente Lula já leu 21 livros nesse intervalo, leituras que compreendem dos romances à política”. Sim, agora Lula e Dilma, que solenemente ignoraram redes sociais digitais nos tempos de abundante cobertura da mídia e de cotas garantidas de sonora nos telejornais da noite, publicam intensamente por esses meios. E interagem como nunca.

Lula lê?!
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2014 (Foto Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Mas como o antilulismo virou um costume nacional, imediatamente algumas patrulhas identificaram a anomalia e partiram para cima. É claro que Lula não pode ter lido tanto. É claro que Lula não pode ter lido. É claro que Lula não lê.

Como costuma acontecer em ambientes digitais, algum peixinho consegue se destacar do cardume quando logra expressar de forma concisa o que as pessoas gostariam de dizer no momento. É assim que as publicações “viralizam” e os autores se tornam celebridades instantâneas. Foi o que se deu com Bruna Luiza, que se identifica como “cristã e olavette”, uma bela combinação de palavras para dizer, simplesmente, “conservadora de direita”. Fake ou não, pouco importa, é um perfil conservador politizado, dos tantos que se multiplicaram por aí nos últimos anos, só que da cepa de Olavo de Carvalho, que formou e inspirou grande parte da arraia miúda (e graúda) da nova direita conservadora brasileira.




Pois Bruna fez as contas e descobriu que Lula só podia estar mentindo. “Se cada livro tem 150 páginas (o que é pouquíssimo para um livro normal), são 3.150 páginas. Lula teria que ler 55 páginas por dia”. Pronto. Desmascarado. “Qualquer pessoa que costuma ler sabe que isso é irrealista, especialmente para um semi-analfabeto (sic)”, publicou Bruna. O impacto foi enorme. E enquanto o afeto chegava na forma de likes e retweets, a moça subia o tom. Primeiro, publicou que “55 páginas para um semi-analfabeto (sic) é simplesmente impossível”, e, não contente, rematou “Todo mundo sabe que a única coisa que o Lula lê é rótulo de pinga”.

O tempo fechou, claro, porque em ambientes digitais toda a visibilidade vem ao custo de conflitos e tretas. Muitas tretas. Os críticos partiram para o ataque desqualificando antes de tudo o parâmetro “realista” de leituras da moça – o que haveria de extraordinário em 55 páginas lidas por dia, ainda mais quando incluem romances e livros de política?  Considerando-se que Lula, um sujeito extremamente ativo e inteligente, está encarcerado, sozinho e com enorme tempo livre, qual é mesmo a surpresa quanto ao fato de este tempo ser despendido na leitura do que lhe cai à mão? Se cortasse o wi-fi, talvez até Bruna conseguisse ler tanto.

Mas enquanto as pessoas se concentrava no parâmetro quantitativo, concentrei-me no “semi-analfabeto”. Aparentemente, o ser analfabeto, em Lula não foi uma circunstância nem era provisório, como em todo mundo, mas uma propriedade estável. Os outros analfabetos podem ser alfabetizados e até se tornarem grandes leitores, menos Lula, que foi, é e será sempre analfabeto. Ou quase. Lula pertence à raça dos analfabetos ou semianalfabetos, não tem escapatória. Não importam as evidências de que leia e muito. E de que não poderia ter tido a sua extraordinária trajetória de sucesso na vida se não dominasse a leitura e a escrita em um nível muito sofisticado. Não, Lula não engana, tem que ser, precisa ser um ignorante fingindo conhecer. Mudam-se circunstâncias, a natureza não se muda: a ignorância é da sua natureza.

Por anos, monitorei a reação das redes digitais da direita conservadora a cada título de doutor honoris causa que Lula recebeu. Foram muitos. A cada novo título, um surto de fúria e indignação no Twitter e no Facebook. Os antilulistas tinham convulsões públicas. O que sempre me impressionou, nesses momentos em que o despeito chegava às alturas, era o perfil dos revoltosos. Nunca vi sequer um dos habitantes do mundo científico, que fazem parte da minha rede, com títulos de doutorado e muitos estágios de pós-doutorado no currículo, achar indignos ou imerecidos os doutorados honoris causa de Lula.

Em compensação, a patuleia que mal tinha concluído uma graduação, se muito, entregava-se a gritos de “analfabeto!” ou, para usar o impropério cunhado ad hocpara Lula por Reinaldo Azevedo, “apedeuta!”. As pessoas do campo científico, sabem o que significam o h.c. e, em geral, não se sentem diminuídos porque a Lula foi concedido um título de honra, por méritos relacionados à sua reconhecida trajetória como homem público. Já para os antilulistas com menor educação formal, acontecia contrário: os títulos de Lula os ofendia pessoalmente.

Eu gostava particularmente do modo como os que se consideravam insultados pelos títulos de Lula iniciavam os posts em redes digitais ou as cartas-correntes de e-mails. Em geral, era na base do “só no Brasil mesmo…”, ainda que a universidade a conferir o título não fosse brasileira, ou “vejam a que ponto chegamos…”. A primeira fórmula denota a posição vira-latas básica. Equivale a dizer que “em lugares civilizados isso nunca aconteceria, já no Brasil até analfabetos recebem títulos de doutorado”. A segunda expressão afeta decadentismo: “houve um tempo em que este título era grandioso, nobre e para poucos, mas hoje em dia há esse absurdo de a plebe tomar conta de tudo e um qualquer virar doutor”.

O vira-latas é só isso mesmo, um sujeito invejoso, lidando eternamente com os seus complexos de inferioridade, para quem é insuportável admitir a ideia de que uma pessoa que ele considera igual ou inferior a si possa ser indignamente recompensada. O decadentista é alguém inconformado pela perda dos privilégios, seus ou da sua classe, com a massificação do acesso aos recursos. Mesmo que sejam recursos de que ele não desfruta, é questão de honra que estejam ao alcance somente de pessoas exclusivas e superiores, que não sejam compartilhados com essa massa indiferenciada de gente que ele nem reconhece nem respeita.

Há um monstro em mim que se diverte quando sofrem pessoas que pensam assim, confesso.

Bruna Luiza é só mais um registro de uma atitude moralmente bem pequena. Para ela, não é apenas que Lula não possa ser doutor; Lula não pode sequer ler 55 páginas por dia. Lula simplesmente não pode. O seu ódio por Lula só se sente autorizado moralmente e justificado intelectualmente se a inferioridade moral e cognitiva de Lula for um fato incontestável. Lula é um cachaceiro, um semianalfabeto, um mentiroso e um ladrão. Lula não presta. Se concordarmos com isso, mesmo um “cristão” tem o direito de detestá-lo e de o insultar. Lula não pode ser igual ou superior a Bruna Luiza, caso contrário é o ódio de Bruna que será considerado uma aberração moral e não Lula.

Neste sentido, é bem a cara da mentalidade-Bruna que ela cometa o que a Nova Ortografia considera um erro justamente na palavra usada para desqualificar Lula: semi-analfabeto. Não, Bruna, semianalfabeto se escreve como semiaberto, semiárido, semiembriagado, semiobscura. Mas a gente releva, é um erro circunstancial, qualquer um erra, não é uma questão de caráter. O engraçado é que quando lhe apontaram o erro, a menina Bruna rebateu, altiva: “Não sigo um acordo ortográfico assinado por um semi-analfabeto”. Pois é, como dizia, não há problema de caráter em errar justamente na grafia do adjetivo usado para chamar alguém de ignorante. O problema de caráter está implicado no preconceito que você carrega e reproduz apaixonadamente.

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