Por René Ruschel, jornalista
Pesquisas eleitorais são, como se diz, retratos do momento. Não definem o vencedor, mas revelam tendências, indicam o humor do eleitor e apontam o caminho provável.
Se as eleições presidenciais fossem hoje, as sondagens indicam que Luiz Inácio Lula da Silva seria novamente o escolhido pelos brasileiros.
Um presente e tanto para quem completa 80 anos de uma vida marcada por vitórias improváveis, quedas dramáticas e renascimentos políticos que desafiaram a lógica e os adversários.
Lula chega a essa marca cercado de desafios. O governo atravessou um início turbulento, sem narrativa clara e com uma comunicação desastrosa. Herdou um país combalido, mas foi lento em explicar o tamanho do problema.
Por dois anos, o Planalto parecia surdo ao descontentamento popular e ao ruído da desinformação.
A virada começou quando o presidente finalmente trouxe Sidônio Palmeira para reorganizar o discurso e devolver rumo à estratégia de comunicação.
O alívio para o petista também veio do outro lado. A direita verde-amarela, comandada pelo ex-capitão e seus filhos revelou uma impressionante incapacidade de se reinventar.
O deputado Eduardo Bolsonaro, em especial, tornou-se o símbolo da autodestruição do bolsonarismo, que trocou projeto por ressentimento e transformou a oposição em caricatura. A cada nova bravata, enterra ainda mais as chances de retorno da família ao poder.
Os quatro anos do ex-capitão foram um amontoado de desastres. Pandemia conduzida com negacionismo, denúncias de corrupção, escândalos das joias, rachadinhas, o gabinete do ódio, um rosário de crises que manchou sua imagem e desmoralizou seus seguidores.
Diante disso, Lula, mesmo com tropeços, aparece hoje como o porto possível da estabilidade.
Ainda assim, o atual governo não está imune a erros. Há fragilidades visíveis. Uma comunicação que ainda reage mais do que age, declarações infelizes do presidente e o impacto de fake news que corroem a confiança popular.
Lula sobrevive politicamente apoiado em uma imagem que resiste ao tempo e às crises. A de um líder que fala diretamente ao povo, sem intermediários.
Aos 80 anos, Lula entra em seu último ciclo de poder. O próximo ano será decisivo. Se conseguir manter a inflação sob controle, a geração de empregos e evitar deslizes verbais certamente chegará forte a 2026.
A grande questão, porém, é o que virá depois. O futuro do lulismo sem Lula. O presidente sempre foi maior que o PT e sua popularidade individual supera a do partido em qualquer cenário.
Mas o tempo impõe seu limite. Preparar um sucessor, alguém capaz de unir, convencer e vencer, será sua missão mais complexa. Caso falhe, o PT pode se ver diante de uma sucessão fratricida, uma disputa entre herdeiros pelo espólio político do pai fundador.
O aniversário de 80 anos de Lula é, portanto, mais que uma celebração pessoal. É um marco de transição. O líder que moldou a política brasileira nas últimas quatro décadas precisa agora moldar o futuro de seu próprio campo.
Se conseguir transformar o carisma em legado e o poder em projeto coletivo, Lula poderá encerrar a carreira não apenas como o maior político de sua geração, mas como o fundador de uma nova etapa da esquerda brasileira.
Caso contrário, o fim será de aplausos tardios e herdeiros em guerra.
Foto: Ricardo Stuckert







