Mãe, é o Thuchara!

Compartilhe:

E não é que baixou o Saramago no doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”? Tá bom, o texto é sério, mexe com uma questão social das mais tristes, mas quando o cronista saiu do relato real e foi para a ficção me deu uma coceirinha nos dedos em distribuir vírgulas a torto e direito, igual quando li “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Vejam o motivo:

Beija-Flor, 16 de agosto de 2025.




Prezados leitores:
Apesar de inventado, o que se segue se baseia absolutamente na minha realidade de professor. Havia um aluno de quem eu gostava muito cujo apelido, pelo que eu entendia e como ele falava, era “Thuchara”. Quando fui escrever este texto descobri como se escreve o nome de fato: T´Challa, um super herói negro. O Pantera Negra. Deve haver no filme alguma relação com os Panteras Negras, afroativistas norte-americanos que botaram para quebrar na década de 1960, grupo do qual participou Angela Davis.


Thuchara ou T´Challa, seja como for, se bandeou, de uns dois anos para cá, para o tráfico, destino de alguns de meus alunos. Eu fiquei pensando no que aconteceu com aquele rapaz que se parece com o ator Rodrigo Sant´Anna para tomar tal decisão. Traficante com cara de Rodrigo Sant´Anna soa meio esquisito mesmo.


Eu, enquanto professor, fiz o que estava ao meu alcance: achava-o malandro, mas muito boa praça. Por isso, conversei com ele sobre a importância dos estudos, enquanto ele freqüentou a escola. Será que tudo que conversamos entrou por um ouvido e saiu por outro, como se diz na expressão popular? É bem provável. O fato é que a vida é muito maior que a vida escolar. De vez em quando, o professor perde o senso de proporções.

Eu já tinha me decidido a escrever uma história sobre ele quando, em uma das minhas aulas de sétima fase no noturno, com que topo? Acreditem, “Speaking of the devil”, com o próprio, em sua versão EJA (Educação de Jovens e Adultos). Durante a aula, chamei-o para ficar mais perto de mim, o que ele consentiu. Mas, copiar que é bom, nada: não largou o celular um só segundo. Disse coisas soltas para me mostrar com quem eu estava falando, como “Estou vendendo balas agora”; mas não é bala coisa nenhuma, sabíamos os dois.

Em certo momento, ele recebeu uma ligação de não sei quem ao que respondeu: “Peraí, que eu já estou encostando”. E saiu de sala sem se despedir de mim nem de ninguém.
O texto que segue é de minha autoria e imaginação. É como se eu quisesse estar na cabeça do Thuchara. Não sei se consegui.


Qual foi, mãe, é o Tchuchara, o guerreiro que entrou pra irmandade, já rodei os morros todos, já fui dos Macacos ao Chapadão em uma semana, avisa à mana que essa vida não dá estilo coisa nenhuma, que o negócio é estudar pra ser alguém na vida, mas eu não pude, eu não quis, eu achava aquela porra toda chata, gente chata, querendo mandar no Tchuchara, e eu querendo manejar uma ponto 50, eu te conto umas coisas aí mas é tudo caô do mundo cão, é tudo estranho, eu já tô encostando aí pra levar a carga pra guardar a posição que os vermes azuis e milícia já estão na atividade na escolta lá embaixo, ninguém quem olha pra mim pensa que eu sou o que sou sem radinho, me acham um cara bonito bem apessoado, mas mal sabem eles que Tchuchara é do bico do bicho que tá pronto pra qualquer coisa que atira, que viela é comigo mesmo calango do caraio, que mulher é comigo mesmo, que é só forte quem puxa cadeia e não volta mais pra essa vida, que não pode dar mole, eu de camisa do Mengão último lançamento comendo marmita porque lá embaixo tá lombrado e na escola ninguém sabe direito quem sou eu mas vão saber que respeito é bom também não bate de frente porque quem tem cu tem medo e eu sou o que sou nos vídeos botaram um maluco pra comer cocô, o cara disse que era maluco que comia merda então fizeram ele comer merda de cachorro e o cara mastigava enquanto os malucos riam o pó daqui é bom cura dor de dente mas não pode ficar de marola que pó é bala é mercadoria e não pode dar desfalque se não quiser ir pra vala não fui eu que matei o moleque do asfalto que tava esticando lá embaixo o moleque que dormia de pijama quis fazer fama no tráfico morreu cheio de tiro na carro por eu sei quem foi não sou X-9 uma parada que eu não sou é X-9 é pra matar ou morrer a onda tá batendo é melhor eu ficar entocado na escolta na escola mesmo porque aí dizem que eu sou aluno mas quem me conhece sabe que a parada agora é só fachada mesmo que porra nenhuma me interessa mesmo que se eu aparecer morto ou preso crivado de balas só vai ter você e as viúvas pra chorar a minha passagem pela vida que eu não passei nem pelo Degase nem porra nenhuma eu morri logo cedo ou não morri que dá no mesmo eu não sei o que tou dizeno ou sei?

Te amo, mãe, foi mal.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Tags

Compartilhe:

Posts Populares
Categorias