“Mas será o Benedito?” II

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A primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor…

E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos apresenta o segundo texto da série “Mas será o Benedito?”, sobre futebol infantil e sonho.




Beija-Flor, 2 de março de 2026.

A vida de Benedito não era só futebol na rua, era também futebol no botão. Esporte indoor. Geralmente os botões eram acomodados em latas de leite. Os goleiros eram feitos de caixas de fósforos, cobertas de esparadrapo. Tinha gente que colocava chumbo dentro da caixinha, para o goleiro, ficando mais pesadinho, não ser derrubado pelos atacantes.


Era difícil encontrar naquela época o porta-botão, espécie de pano com inúmeras casas. Como Benedito era craque também com as mãos, ele pegou uma caixinha de goiabada, a forrou por fora e por dentro com Contact, e fez um bauzinho de carregar botões. Coisa fina, de marceneiro-mirim.


Era um exercício de método tirar aqueles craques um a um, depois limpá-los com Poliflor para que brilhassem ainda mais. Brilhassem e escorregassem, porque se passava Poliflor debaixo do botão também. Havia gente que usava talco na mesa para que os botões escorregassem com mais leveza. Bené não gostava de tal recurso, a não ser que fosse para imitar jogo no frio europeu, com o talco fazendo o papel de neve. Se a mãe pegasse, é só um pouquinho, mãe. Mas você sabe quanto custa? Por que não usa o Poliflor? Mas será o Benedito?


O jogo daquele dia era na casa do Jacinto. Uma linda casa de vila cheia de personalidade: talvez lhe faltasse um pouco de Poliflor ou de talco, vá saber. Ainda assim, era uma casa de vila, e o Bené ficava pensando que não seria má idéia morar em uma beleza assim em vez de em apartamento, pensava ele lá com seus botões. E o seu Ivo, grande técnico, morava na mesmíssima vila. E a dona Eva, sua digníssima esposa, fazia marmitas para vender. Os velhos trabalhavam à vera na vila.

Jaciara, a musa da vila entra em campo
A primeira partida no ”Jaçanã” (estádio do Jacinto) mal começara quando ocorreu um incidente que marcaria a vida de Bené para todo o sempre. De relance, ele viu a irmã do Jacinto, a Jaciara, de roupas íntimas. Mas será o Benedito?


Um monumento, meu Deus! Morena, de pernas grossas, de duas redondas e lisas nádegas e de dois seios que mais pareciam mangas-espada. E de cabelos negros e crespos. E o monte de Vênus seria coberto de que cor? Tira o olho, Bené! A eternidade cabe em um relance.


Se Neruda teve sua Guilhermina, cuja aparição parece ter definido seu destino poético, Bené teve na Jaciara a sua Jaci. Ela, talvez dos seus quinze, dezesseis anos, era mais bonita que uma estátua grega. Mais bonita que um avião em pleno vôo. Mais bonita que a própria Anistia, talvez nem tanto na idéia, mas na costura. Mais bonita que o canto da torcida num domingo no Maracanã. Tão bonita quanto um grito de gol. Talvez só perdesse em comparação com a Copa do Mundo, que estava por vir.


Aquela aparição mexeu com ele. Ah, se mexeu. Bené sentiu de imediato uma espécie de cãibra ali no piu-piu, de uma forma que até então ele não conhecera: não era vontade de fazer xixi, era como se o bichinho tivesse ganhado vida própria, subindo, despertando ainda mais para a vida.


Enquanto durou o devaneio, Bené levou um vareio do Jacinto, que ficou meio sem entender por que o adversário não parecia ter entrado no jogo, logo ele, tão concentrado, quase imbatível.


Ou aquilo ali foi de caso pensado? Guerra fria, jogo sujo do Jacinto, que em conluio com a Jaci lhe preparara uma armadilha. Bené não era o James Bond, não sabia lidar bem com as mulheres. Mediocridade de ouro: uma casa de vila, Jaci, uma mesa de botão, Poliflor.


Nunca se soube se foi gesto premeditado ou mero ato fortuito do acaso, flecha de cupido não erra o alvo.

O fato é que ocorria a Bené, já durante o jogo, pensar em duplos sentidos para as ordens que se dão ao adversário: “Coloca!” “Tá!” E ele pensava nos lábios carnudos de Jaci lhe dizendo essas coisas, lhe dizendo para lhe passar Poliflor nos botões ou talco nas costas, Jaci, Jaci, Jaci, um coração na árvore com o nome dele e dela para todo o sempre, para a glória eterna.


Já devia estar uns 7 a 1 para Jacinto, isto na terceira partida, quando Jaci adentrou o quarto do estádio, vestida de vermelho, de cabelos molhados, esmalte rosa chá nas unhas e batom rouge nos lábios, com uma pastinha na mão, indo para a English Class. E que perfume: Jaci, jasmim.


Da próxima vez que ele fizesse um gol, mais tarde teria pelada, isto é, se não chovesse, Bené faria hat-tricks a granel e dedicaria cada um a ela, que riria talvez sem entender que tinha o dom de despertar o amor com as faíscas que saíam de seus dois olhos negros.


À noite, antes de dormir, a bola ouviu toda a história do dia com a atenção dos objetos a quem de quando em quando animamos. Foi quando Benedito pegou a caneta esferográfica azul e escreveu dentro do coração: “Bê e Ja”, perto do desenho, muito bem-feito, do mascote Laranjita.
Bê e Já. Beja, beija, beija, beija.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um  livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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