E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, traz o quarto texto da série “Mas Será o Benedito? Aqui o herói mirim numa verdadeira epopeia para conseguir a última figurinha que faltava no seu álbum.
Beija-Flor, 15 de março de 2026.
E a Carla com C, Bené?
Faltava a figurinha do Lato, meus amigos. Era a única que faltava para completar o álbum com os craques da Copa de 1982. E Benedito já ia para terceira caixa de chicletes, sem sucesso. Ao que parece, ninguém da turma a tinha. Então não havia como trocar com quem a tivesse repetida nem ganhá-la em uma suposta partida de Bafo. O jeito era esperar a sorte.
Repita-se: a terceira caixa de chicletes. Bené distribuía chicletes, sem as figurinhas, para quem quisesse. “É só pegar”, dizia Bené, “mas a figurinha é minha”. Era tanto do chiclete que ele jurou para si mesmo que, se conseguisse o bendito Lato, ele jamais voltaria a mascar chicletes outra vez.
Também um polonês! Mas será o Benedito? Tinha João de Deus, que era polonês. Tinha o Lech Walessa, do partido Solidariedade, que era polonês. Mas o Lato ele não tinha.
Tudo isso de geopolítica era vago, quase que absolutamente irrelevante quando se quer completar um álbum. Ele não queria saber do mundo, pelo menos naquele momento, não. Ele queria saber da Copa do Mundo, da última figurinha, a que faltava e só.
Ele estava a ponto de desistir quando o milagre aconteceu. Foi Carla com C, colega de classe recém-chegada à Vila Isabel, que lhe deu a bendita figurinha. Carla com C, a menina branquinha de sardas que morava naquele casarão antes da vila do seu Ivo mais a mãe e a irmã, que era uma versão maior da Carla com C. “Toma, Benedito, essas figurinhas: você não está colecionando as figurinhas da Copa?”, foi o que ela disse abrindo um sorriso com a maior das boas intenções.
Benedito mal se conteve. As mãos tremeram. Ele olhou para um lado e para outro, como que estivesse sendo vigiado e pegou a figurinha. Meu Deus! Não dá pra acreditar. Então o Lato era careca? Nem soube direito onde guardar a figurinha. Depois, em arroubo, Benedito tascou-lhe um beijo daqueles que estalou a bochecha da Carla com C, que ficou um tanto ruborizada com a inesperada manifestação de carinho.
Ele ficou de lhe dar uns mil mimos, a começar por uma caixa de bombons, uma caixa de bombons que só tivesse bons bombons, sem nenhum daqueles de que ninguém gosta. Ou lhe daria flores, flores bonitas, flores, margaridas, rosas, crisântemos, coisas do tipo, bem-me-quer, mal-me-quer…
Ou lhe daria o coração, que já era da Jaci? Benedito, toma tento! Trocar de amor é que nem trocar de time, é que nem virar casaca? Benedito não sabia. Mas a Jaci é muito velha, mas a Jaci é muito linda, a Jaci já gosta de rock brasileiro, a Jaci tem cabelos curtos, já tem namorado que tem bugre que a leva para a praia da Macumba.
Quando Benedito tiraria a sua habilitação? Dali a uns oito, sete, seis anos? Ele mal sabia andar de bicicleta. Estava aprendendo. Seu pai não tinha automóvel. Na rua só o pai do Rico tinha: um Opala branco.
Durante algum tempo, Benedito andou com o álbum para lá e para cá debaixo do sovaco, exibindo-o, exibindo-se, apaixonado, querendo matar os outros de inveja. O Bamba aceitou de bom grado aquela montanha de figurinhas repetidas, ele não gostava de chicletes. Seu Ivo se ria.
O pobre do Lato já não era o tal, não parecia assim tão importante, tão difícil, tão único. Outros meninos também conseguiram completar o álbum com dias de atraso. Os chicletes deram formiga. E Carla com C se mudou do nada, talvez no meio da Copa, talvez antes. Ele nunca soube direito o que houve com ela. Mas como?
Os bombons ele comeu, um a um, enchendo a boca depois das partidas de futebol e do banho tomado, meio como suplemento alimentar, Calcigenol. O difícil foi saber o que fazer com as flores no jarrinho e tudo que ele comprou – sem precisar comprar chicletes, sobrou algum dinheiro para outras coisas.
Jaci, Jaci, você sabe como se cuida de planta? Cuida delas para mim? E Jaci aceitou as flores, que não eram para ela. Até que ficaram bonitas no jarro. Talvez desse trabalho quando crescesse esse menino, amigo do seu irmão, qual é o nome dele mesmo? Benício? Benevides? Bento?
Benedito guardou debaixo da cama o álbum para o dia das recordações. Depois o álbum foi para a estante, para o bendito santuário, trancado a sete chaves. O coração com B e C bem rabiscado na bola foi sumindo partida a partida, cada dia mais um pouquinho até desvanecer. Jogar bola na rua tem disso.
Quando soube que agora há pessoas que vendem as figurinhas mais difíceis nas praças e adjacências, que com dinheiro, ninguém fica com álbum incompleto, Benedito não deixou de pensar que talvez saísse mais em conta do que comprar três caixas ou mais de chicletes de bola. Nem sempre haverá um anjo por perto com cabelos negros e sardas, um anjo como a Carla com C.
O menino passou um tempo sentindo falta da Carla com C e com medo do que o dentista lhe diria sobre chicletes e cáries.
Foto do post: Grzegorz Lato, considerado o melhor jogador do futebol polonês, artilheiro da Copa do Mundo de 1974, com sete gols







