Será o Cícero César? E não é que o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, resolveu dar vida a um heterônimo! E não é que este heterônimo resolveu “denunciar” que o Benedito da série “Mas será o Benedito?” é também heterônimo do Cícero Césa! Deste jeito o homem passa o Fernando Pessoa…
Maria da Graça, 24 de março de 2026.
Prezado editor:
Com sua permissão, aqui quem vos fala é Alfredo Urizzi, também conhecido como o professor Alfredo. Como vai, meu grande amigo? Espero que todos desta aprazível Ilha estejam bem, gozando de boa saúde. A eleição presidencial que se aproxima exigirá de todos nós, 60+ ou quase lá, cabeça fria e coração quente. Porque a luta será intestina, é mister que desde já estejamos, como antes se dizia, nos cascos.
Bem, deixemos a política de lado, pelo menos por enquanto. O motivo principal desta missiva é comentar a série que o cronista Cícero tem divulgado aqui no BemBlogado.
Benedito é um nome interessante, um alterego, um heterônimo. Falo-te de cátedra, pois, passei parte da minha vida em Vila Isabel, em uma residência muito próxima deste logradouro. Se Benedito/Cícero fala com orgulho da Barão de Cotegipe, eu posso falar, se o assunto é bola nos pés, da Mendes Tavares, que lhe é transversal.
Frequentei, tal como o Benedito, o Campo do América, hoje, infelizmente, um shopping center. Mal posso conter as lágrimas quando me recordo dos memoráveis jogos a que assisti naquele campo que costumávamos chamar de Andaraí.
Pois bem, as histórias que o nosso cronista tem nos contado lampejam um Rio de Janeiro que se perdeu. É bem provável que as gerações posteriores estejam a morar em regiões mais litorâneas como a Barra da Tijuca ou o Recreio dos Bandeirantes. Para eles, aquelas ruas de Vila Isabel não passam de lugares distantes do GPS dos seus corações. E o que não se guarda no coração se perde.
Não sei se o Cronista tem consciência completa daquilo que ele tem escrito. Não é propriamente algo nostálgico, e sim algo que nos traz à baila um desejo de renovação do passado. É como descascar uma parede no intuito de encontrar a pintura original. Eis o passado. E agora? Recordar é viver, Bené recordou com vocês!
Bem, as histórias têm sido interessantíssimas, algumas das pessoas mencionadas realmente existiram. O grande Ivo, o saudoso Ivo, foi realmente um treinador do Grajaú Country Club. Ele morava em uma vila com portão de ferro fundido e tudo. Bem, o Ivo tinha dois filhos, o Sérgio e o João Paulo. Luiz Paulo, que deve ter agora por volta dos seus 60 anos, creio, tinha uns quinze anos quando tentou ser goleiro do Grajaú Country Club. Infelizmente, ele não conseguiu.
Não sei se o Luiz conseguiu ser alguma coisa. Gostaria de saber, sinceramente, afinal era ele quem mais representava a Vila Isabel estabelecida, a dos tempos idos. Talvez fosse rejeitado pelos falsos amigos por isso mesmo: por ser o mais raiz de todos em uma época em que já se queria se afastar de Vila Isabel.
O Ivo era um ser muito educado. Lembro-me bem como se fosse hoje, a sua mulher, dona Virgínia, entregava marmitas para complementar a renda. E assim se vivia, com muitas pessoas sem rendas nem posses, mas já na idade da aposentadoria, e outras, como o próprio avô de um menino que era dono de um prédio de apartamentos. Imagine. Apenas uma pessoa dona de um prédio de seis apartamentos. Em suma, uns viviam sem nada. Outros de renda viviam.
E havia essas vidas, todas essas… As crianças jogavam bola na calçada ou na rua. O futebol mais especial aos sábados depois da feira. E no domingo, da manhã até a tarde. Algumas vezes, nem sempre, houve também partidas em quadras. Por isso que digo que um pouco do que o Cícero tem dito faz parte do que convencionamos chamar de licença poética. Ainda assim, as histórias têm sido muito boas.
Naquela época a Vila Isabel era um pedacinho do céu, e eu era meio carola. Se não me engano, a família do Cícero também ia às missas de domingo no convento que fica ali à Praça Sete.
Pois bem, o que havia em Vila Isabel que não havia em outros lugares? Eu creio que era a revoada de pássaros, que Cícero apontou também, a revoada dos pássaros por volta das seis horas da tarde, ao som dos sinos ou de “Lay, Lady, lay”, na rádio AM. Duvido que tenha isso na Barra da Tijuca.
Haveria muito mais o que dizer, mas não é do meu feitio ser inconveniente. Já me estendi por demais. Muito obrigado pela sua atenção e, se possível, que esta carta chegue ao nosso grande cronista, o Cícero. Sem mais, convido-te para um encontro aqui em minha residência, neste aprazível quintal que Matilde, minha amada, e eu mantemos em Maria da Graça. Marquemos, pois.
Respeitosamente,
Alfredo Urizzi







