Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensar Piauí
Motta omitiu do governo decisão de votar dosimetria mas foi aclamado por bolsonaristas
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), reuniu-se longamente com integrantes do governo Lula na véspera do anúncio de que colocaria em votação o projeto que reduz penas de condenados por tentativa de golpe de Estado — mas não informou o Planalto sobre sua decisão.
Na segunda-feira, Motta discutiu com ministros a pauta de votações prioritárias, incluindo a proposta de punição a sonegadores contumazes. Apesar dos inúmeros temas tratados, ele não mencionou a disposição de levar ao plenário o projeto da dosimetria. A decisão, revelada posteriormente pela imprensa, causou surpresa no governo e gerou desconforto no presidente Lula, segundo aliados.
Durante a sessão desta madrugada que aprovou o chamado “projeto da dosimetria”, o bolsonarismo transformou Hugo Motta em herói. Parlamentares da extrema direita o aplaudiram após o embate com o líder do PT, Lindbergh Farias, que questionou sua conduta à frente da Câmara. Motta reagiu afirmando haver incoerência histórica quando petistas citam Ulysses Guimarães, lembrando que 15 dos 16 constituintes do PT votaram contra o texto final da Constituição de 1988 — embora todos, inclusive Benedita da Silva, tenham assinado a Carta.
Com a Constituição nas mãos, Benedita rebateu a acusação lendo em plenário o trecho que registrava sua assinatura, e Motta a elogiou publicamente. Mas a fala inicial já havia sido apropriada pela bancada bolsonarista. Zé Trovão (PL) exaltou a postura de Motta e repetiu sua crítica ao PT. Também elogiou a retirada à força do deputado Glauber Braga (PSOL) da cadeira de presidente horas antes, afirmando que o gesto demonstrava “coragem”.
Na mesma linha, Gustavo Gayer (PL) agradeceu a condução “serena e equilibrada” da sessão. Por outro lado, Dorinaldo Malafaia (PDT) advertiu que o bolsonarismo instrumentalizava Motta e não tinha compromisso com sua permanência no cargo, recordando que Zé Trovão fora protagonista do motim de agosto que paralisou a presidência da Câmara por 36 horas.
Lindbergh Farias, por sua vez, declarou que Motta “não tem mais condições de presidir a Casa”. Para o petista, ao avançar com o projeto da dosimetria, o presidente da Câmara interfere indevidamente em processos judiciais ainda em curso.







