Na Globo, Lula endurece discurso sobre segurança, cobra investigação do Master e defende mudanças no STF

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Em entrevista à Globo, presidente defendeu redução da maioridade penal para crimes hediondos, prometeu asfixiar financeiramente as facções, afirmou que ninguém deve ser poupado no caso Master e disse que ataques a Alexandre de Moraes também têm relação co

Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensar Piauí




Lula em engtrevista à Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a entrevista concedida à TV Globo, na noite desta quinta-feira (15), para apresentar posições mais duras sobre segurança pública e, ao mesmo tempo, enfrentar dois assuntos que passaram a ocupar o centro da campanha presidencial: o escândalo do Banco Master e a crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal.

Candidato à reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL), Lula procurou mostrar que não pretende entregar à direita o debate sobre segurança. Defendeu redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos, prometeu ampliar o combate financeiro às organizações criminosas e afirmou que o Estado precisa recuperar territórios hoje submetidos ao domínio das facções.

Ao mesmo tempo, adotou um discurso igualmente duro sobre as suspeitas que atingem integrantes do Judiciário no caso Banco Master: para Lula, qualquer eventual irregularidade precisa ser investigada, independentemente de quem esteja envolvido.

Maioridade penal aos 16 anos para crimes hediondos

Uma das declarações de maior impacto da entrevista foi o apoio de Lula à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos.

O presidente, entretanto, separou a questão da PEC da Segurança Pública. Segundo ele, a proposta que reorganiza as responsabilidades da União, estados e municípios na área deve ser votada primeiro. A discussão sobre maioridade penal poderia ocorrer posteriormente e de maneira específica.

A posição representa uma mudança importante dentro de um campo político que historicamente resistiu à redução da maioridade penal.

Há, porém, uma diferença expressiva entre a posição defendida por Lula e propostas apresentadas pelo bolsonarismo. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, apresentou iniciativa prevendo redução para 16 anos de maneira mais ampla e possibilidade de responsabilização a partir dos 14 anos em determinadas situações. Lula apoia o limite de 16 anos exclusivamente para crimes hediondos.

Politicamente, o movimento também dialoga com um eleitorado que considera a segurança pública uma das principais preocupações do país e que está sendo disputado voto a voto neste segundo turno.

“Asfixiar” as facções e recuperar territórios

Lula também endureceu o discurso contra PCC, Comando Vermelho e outras organizações criminosas.

Segundo o presidente, a estratégia precisa atacar sobretudo o dinheiro das facções. Ele defendeu “asfixiar” financeiramente o crime organizado e devolver ao Estado áreas onde moradores são submetidos ao poder paralelo.

Lula citou situações em que organizações criminosas interferem até mesmo na compra de gás ou no recebimento de benefícios sociais para ilustrar o domínio exercido em determinadas comunidades.

“O que nós queremos é asfixiar o crime organizado e libertar os territórios para que o povo não seja vítima de dono de rua”, afirmou.

Questionado sobre a classificação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas, Lula fez uma distinção. Disse que as facções aterrorizam comunidades brasileiras, mas rejeitou enquadrá-las no mesmo conceito jurídico de terrorismo defendido pelo governo dos Estados Unidos.

O presidente também afirmou ter apresentado a Donald Trump uma proposta de cooperação internacional contra o narcotráfico e o crime organizado.

Caso Master: “ninguém está acima da lei”

O momento politicamente mais delicado da entrevista ocorreu quando Lula foi questionado sobre o escândalo do Banco Master e as suspeitas envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Lula não tentou blindar ministros.

Defendeu a continuidade das investigações e afirmou que qualquer pessoa que tenha cometido irregularidades deve responder por elas.

“Ninguém está acima da lei”, disse.

Para o presidente, a gravidade das denúncias torna impossível imaginar que a sociedade aceite que os fatos não sejam completamente esclarecidos. Lula sustentou que as apurações devem prosseguir e que eventuais responsáveis sejam punidos.

É uma posição politicamente relevante porque o bolsonarismo tenta transformar o caso Master numa arma eleitoral contra Lula e contra o Supremo.

O presidente buscou estabelecer uma linha clara: defender o STF enquanto instituição não significa defender qualquer ministro de investigação.

Lula defende reforma do Supremo

Lula foi além e admitiu que o escândalo abriu espaço para uma discussão sobre mudanças no próprio Supremo Tribunal Federal.

Defendeu que o país discuta critérios para a escolha dos ministros, possíveis mandatos na Corte e conflitos envolvendo escritórios de advocacia ligados a integrantes do tribunal.

Segundo Lula, o debate sobre mudanças no Judiciário tornou-se “irreversível” para o próximo ano.

Ao mesmo tempo, o presidente rejeitou a tentativa bolsonarista de transformar Alexandre de Moraes no responsável individual pela crise do STF.

Na avaliação de Lula, existe outro componente por trás da ofensiva contra Moraes.

O ministro foi responsável por decisões que levaram Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro, à prisão.

“Eles querem cassar Alexandre de Moraes porque ele prendeu o pai do Flávio Bolsonaro”, afirmou Lula, relacionando diretamente parte dos ataques ao ministro à situação judicial do ex-presidente.

Diretor da PF “errou” ao participar de evento ligado a Vorcaro

Lula também foi questionado sobre o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que participou em 2024 de um evento em Londres financiado por Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.

Não tentou minimizar o episódio.

Disse que Rodrigues errou ao participar do encontro e revelou que o repreendeu.

Segundo Lula, a função ocupada pelo diretor-geral da Polícia Federal exigia um cuidado maior e ele “não precisava ter ido” ao evento. Apesar da crítica, classificou Rodrigues como um “extraordinário delegado” e destacou a independência institucional da Polícia Federal.

Lula tenta ocupar terreno que a direita considera seu

A entrevista mostrou uma estratégia política evidente para esta reta final.

Lula procurou ocupar um terreno que o bolsonarismo tenta apresentar como propriedade exclusiva da direita: segurança pública, punição ao crime e autoridade do Estado.

Defendeu prisão e penas maiores para integrantes de facções, redução da maioridade penal em crimes hediondos, combate financeiro às organizações criminosas e retomada dos territórios dominados pelo crime.

Mas também evitou embarcar no discurso de destruição institucional que marca setores do bolsonarismo.

No caso Master, a mensagem foi outra: Supremo não pode ser sinônimo de impunidade. Se ministros cometeram irregularidades, que sejam investigados. Se houver crimes, que sejam punidos.

Ao fazer isso, Lula tentou construir uma posição politicamente difícil, mas compreensível: nem blindagem ao STF, nem guerra contra o STF.

Na segurança, procurou transmitir mensagem semelhante: combater o crime organizado com força, inteligência policial e presença do Estado — sem transformar o combate às facções numa licença para soluções que entreguem ao governo dos Estados Unidos poder de interferência sobre assuntos internos do Brasil.

Em plena disputa com Flávio Bolsonaro, Lula deixou a Globo tentando desmontar justamente uma das principais armas eleitorais do adversário: a ideia de que firmeza contra o crime, cobrança sobre autoridades e segurança pública seriam bandeiras exclusivas da direita.

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