Sobre “o coração do plano do Flávio”.
Por Hugo Souza, compartilhado de seu Blog
Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2026: milhares de estudantes participam de manifestação em apoio à reeleição do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no centro da cidade (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil).
“Posto Ipiranga” da vez, Daniella Marques é “coordenadora econômica” da campanha de Flavio Bolsonaro e será ministra da Fazenda ou “da Economia” caso ele vença, lamentável e desgraçadamente, a eleição para presidente da República. Mas… Daniella quem? Daniella Marques Consentino. É aquela que no último domingo, 18, foi flagrada no “debate” da Band prestando-se a moça de recados de Nikolas Ferreira e Pablo Marçal, levando instruções de molecagem para o rebolão miliciano que chamou o Bolsa Família de “bolsa farelo” e depois apagou a postagem.
Mas Daniella Marques ficou famosa, famosa mesmo, horas após o “debate” da Band. Nesta segunda-feira, 19, numa entrevista à rádio CBN Bahia, Marques afirmou que “as pessoas não podem ficar presas pra sempre no Bolsa Família” e que “o coração do plano do Flávio” é que “vai ter uma regra de transição de dois anos para que [a pessoa] possa abrir o seu negócio ou aceitar um emprego de carteira assinada”.
As palavras de Daniella Marques sobre o Bolsa Família foram imediatamente percebidas como inconfidência daquilo que de fato a declaração indica com clareza: com Flavio Bolsonaro na presidência, o maior programa de transferência de renda e combate à pobreza do mundo subiria imediatamente no telhado para em breve virar poeira ou, nas palavras do próprio Flavio, “farelo”. O candidato e seu partido correram em desmentidos, juram que não é o caso, que é fake news, mas um pouquinho de memória recente, só um pouquinho, pode tirar a prova dos nove.
No ano passado, o senador Ciro Nogueira foi flagrado em complô com Faria Limers contra o governo Lula em reunião realizada num auditório do BTG Pactual em dia alvissareiro para conspirações: 31 de março. O encontro foi organizado pela Legend Invest, subsidiária da Legend Capital, “boutique de investimentos plugada ao BTG”. A chairwoman — presidente do conselho de administração — da Legend Capital, a anfitriã de Ciro Nogueira naquele dia, era Daniella Marques. Daniela quem? Sim, ela mesma e naquele dia, naquele conciliábulo, tramou-se precisamente contra o que foi chamado de “excesso de proteção social no país”.
Daniella Marques é uma longeva escudeira de Paulo Guedes. Foi Guedes quem a levou para o ministério “da Economia”, onde Marques ocupou vários cargos de relevo antes de ser alçada por Jair Bolsonaro à presidência da Caixa. Na Caixa, a “cumpridora das missões dadas por Guedes e Bolsonaro” foi a responsável pela antecipação do calendário do Auxílio Brasil e do consignado para o Auxílio Brasil, lançados entre o primeiro e o segundo turnos das eleições de 2022 para dar um empurrão na candidatura de Bolsonaro pai.
Ministro da Casa Civil de Bolsonaro pai quando da conspiração golpista de 2022, Ciro Nogueira visitou o chefe no Palácio da Alvorada 13 vezes no período de urdidura de minuta de golpe, assassinato de Lula, sequestro de Alexandre de Moraes, etc. Nogueira foi mais vezes ao Alvorada no período da trama golpista do que, por exemplo, o general Augusto Heleno. Mais um pouquinho de memória? Na época, com os acampamentos golpistas de pé, com o golpe comendo solto entre o Alvorada e o apartamento de Braga Netto, Nogueira postou a seguinte mensagem “misteriosa” no então Twitter: “Não digam que não avisei. Não foi por falta de alerta. O tempo não para: tic tac tic tac tic tac tic tac…”.
O tempo não para e agora, quatro anos depois, Ciro Nogueira é cotado para voltar à Casa Civil num eventual retorno dos Bolsonaro aos palácios do Planalto e da Alvorada e de Braga Netto, anistiado, ao seu apê em Brasília. Tic tac tic tac tic tac tic tac para virar farelo o que é o mínimo, o mínimo, mas que eles chamam de “excesso de proteção social no país”.
Não recebe Bolsa Família nem te resta, meu amigo, um pingo de solidariedade? O plano de Flavio para a saúde pode levar centenas de milhares de brasileiros à morte evitável, de novo os Bolsonaro levando centenas de milhares de brasileiros à morte evitável. O médico anunciado por Flávio Bolsonaro para ministro da Saúde disse ser contra mais verbas para o SUS. Não usa o SUS, nunca usou, nem nunca vai usar, tem certeza? As mais de um milhão de câmeras que Flávio Bolsonaro quer instalar no Brasil expõem você na internet. Ou vai dizer que você não preza sequer por um pouquinho de privacidade?
E metanol? Gosta de metanol?
Anos atrás, em 2021, saiu discretamente no jornal O Globo uma notinha informando que um senador do PP e uma assessora de Paulo Guedes tinham pressionado o Cade pelo arquivamento de uma investigação contra a Refit e a Rodopetro por prática anticoncorrencial via sonegação contumaz de impostos. O processo, que foi mesmo arquivado, incluía ainda as distribuidoras 76 Oil, ligada ao grupo Refit, do foragido Ricardo Magro, e Minuano Petróleo.
A Minuano é uma subsidiária do grupo Canabrava, hoje em recuperação judicial após ser alvo de processos por fraude fiscal, lavagem de dinheiro e adulteração de combustíveis. Em 2016, a ANP encontrou 16 milhões de litros de etanol da Canabrava misturados à moda Primeiro Comando da Capital: com metanol. O nome do senador do PP que atuou pela Refit, Rodopetro, 76 Oil e Minuano no Cade é Ciro Nogueira Lima Filho. O nome da então assessora de Paulo Guedes que também atuou no Cade pelo maior devedor de impostos do Brasil e por alquimistas de metanol é Daniella Marques Consentino.
O “Posto Ipiranga” de Flávio Bolsonaro é Ipiranga mesmo? Ou é de bandeira outra?







