Por Maria Inês Nassif, jornalista
Feliz 2026, meus contemporâneos. Que os poucos anos que nos restam sirvam para dar nossa última contribuição à democracia, à justiça social, à humanidade. Meus amigos e amigas de todas as idades, sejamos sábios. Precisamos entender nossas fragilidades para nos livrarmos delas e irmos à luta. 2026 nos espera.
Olho com preguiça pela janela. É o último dia do sofrido ano de 2025, que veio depois de uma vitória contra a extrema-direita em 2022 e pequenas vitórias e grandes derrotas nos anos posteriores, quando o país virou refém de uma quadrilha parlamentar disposta ao saque diário da riqueza nacional, ao sistemático boicote de políticas públicas, a uma aliança aterradora com o crime organizado, a uma indisfarçada disposição de destruir os alicerces da democracia brasileira.
Para nós, da geração que cresceu sob uma ditadura, lutou contra ela e se inebriou de liberdade e esperança com a conquista da democracia, é viver um estado de golpe permanente: assistimos ao ataque sistemático a cada alicerce e a cada garantia democrática construída a duras penas pela resistência democrática e pelos constituintes de 1988; à destruição das garantias trabalhistas que remontavam ao governo Getúlio Vargas; a sucessivas tentativas de acabar com qualquer vestígio de Estado de Bem-Estar Social, como saúde e educação públicas de qualidade; ao desmonte do patrimônio da União finalizado no governo do usurpador Michel Temer, que promoveu vivamente o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e aproveitou seus dois anos de governo para destruir o Estado e dar o petróleo nacional aos porcos.
Assistimos estarrecidos ao governo Bolsonaro. Foi inacreditável a indiferença das elites com as 600 mil mortes ocorridas na pandemia de Covid, por incompetência e omissão do governo e até por cálculo. Lembro-me de matéria do Estadão, que relata opinião expressa pela então superintendente de Seguros Privados (Susep), Solange Vieira, de que a concentração da doença entre os idosos seria positiva “para melhorar o desempenho econômico do Brasil e reduzir os rombos da Previdência” – essa crueldade foi relatada pelo Estadão de 28/05/2020).
Pior ainda foi ver a ascensão de uma massa antes amorfa, que vestiu amarelo, rezou para pneus, tentou dar golpe, disse que a terra é plana. Alienada dos interesses de sua classe, passou a atuar – com uso de violência, inclusive – contra os seus próprios interesses.
A chegada da extrema-direita ao poder trouxe junto um lumpesinato enlouquecido como seu líder, o capitão Jair Bolsonaro, que quis explodir o Gasômetro, no Rio, como protesto contra a abertura do regime. Essa massa não veio apenas de baixo ou dos que ascenderam às camadas médias nos governos petistas.
Se tomado ao pé-da-letra, o lumpesinato definido por Marx no “18 Brumário de Luís Bonaparte” como a classe formada por “excluídos de sua própria classe”, a extrema-direita acrescentou donos de fortunas de origem duvidosa, políticos de baixo clero que comiam pelas bordas do sistema – e se organizaram para excluir do butim os políticos tradicionais; uma “elite” endinheirada em negócios duvidosos; os beneficiários de máquinas fenomenais de lavagem de dinheiro; ricaços do mercado financeiro que movem igualmente dinheiro produzido em especulação financeira, lavanderias, tráfico de drogas, garimpo clandestino e que tais.
O que pesa ainda mais no fígado da nossa geração não é a champanhe que tomamos em todas as viradas de ano desde 1985. Foi constatar, ano a ano, a farsa urdida nos meios militares. Enquanto comemorávamos a democracia, as gerações militares que resistiram à democratização fizeram cabeças, escreveram cartilhas, chamaram para dentro dos quartéis ideólogos da extrema-direita, fizeram a guerra híbrida jabuticaba que conseguiu depor Dilma, inventaram o líder de massas Jair Bolsonaro, tomaram a máquina do Estado em seu governo e urdiram um golpe de Estado.
Fomos cegos? Acho que não. Fomos covardes? De forma nenhuma. Era muita informação para quem nunca esteve nos porões da ditadura, exceto como vítimas. E nunca faltamos nos momentos em que a democracia estava em risco.
Mas aí volto na minha preguiça. Olho pela janela e vejo 2026, que já desponta no firmamento dessa cidade quente. Daqui a algumas horas vou erguer um brinde a ele, que chega – e um à nossa geração, para que tenha força ainda, mas sobretudo malícia, para entender as armadilhas que a extrema-direita, a direita, os militares, os interesses do capital financeiro e do crime organizado que ascendeu a ele. Entender é fundamental.
Feliz 2026, meus contemporâneos. Que os poucos anos que nos restam sirvam para dar nossa última contribuição à democracia, à justiça social, à humanidade. Meus amigos e amigas de todas as idades, sejamos sábios. Precisamos entender nossas fragilidades para nos livrarmos delas e irmos à luta. 2026 nos espera.







