No caminho do ouro sobre azul

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, foi ao cinema e nos traz sua visão sobre “O Último Azul”, filme que trata de etarismo, palavra nova que mexe com uma chaga antiga, o desprezo aos mais velhos.

Ah, o Cesar com sua memória meiga, afetiva, dedica o texto a Eva Shirlene e Lourenço Paulillo. O último é amigo deste editor. Amigo daqueles que a gente quase não vê, mas que está sempre presente com seu texto, sua poesia aqui no Bem Blogado (veja link da forma com que conheci Lourenço aos 81 anos no….cinema, no ano passado).




A Eva, amiga do Cesar, lógico, deve ser de boa cepa também. Com ela, certamente, deve ter uma amizade que remete a coisa de cinema também.

Veja também link sobre demissão por etarismo. Algo muito recente que mostra que o filme não é total ficção.

Vamos ao texto:

“Para Eva Shirlene e Lourenço Paulillo

Finalmente vi o filme “O último azul” (Dir. Gabriel Mascaro, 2025). Era para vê-lo no Ponto Cine, cinema popular de Guadalupe, bairro da Zona Norte do Rio que fica perto da minha casa; mas acabei indo a um cinema de shopping no qual pela primeira vez experimentei assistir a um filme em uma cadeira reclinável do tipo ônibus leito de antigamente. É claro que o conforto a mais está embutido no preço do ingresso. Quer saber, eu gostei do mimo. Depois me bateu saudade das poltronas vermelhas dos cinemas Paradiso do meu bairro de infância. Ai, ai, a gente dorme Pathé e acorda patê.


O filme tem uma fotografia soberba. Muita água, muito rio, muita palafita, muita árvore, muito barco de madeira cujos cascos estão pintadinhos de tinta a óleo. Ao que parece, estamos em uma região estritamente fluvial. Tudo é feito de barco. Será no Pará? Será? Será? Seja como for, não é mata virgem, pois tem indústria de processamento de carne de jacaré. Deu pena vê-los sem couro, pendurados em ganchos.


Estamos no entrecruzar dos mundos, no choque à brasileira entre natureza e cultura, lá para onde o rio faz a curva. Quanto às habitações da região, eu particularmente não gosto de palafitas e afins, acho lugar feio, pouco higiênico, mas quem sou eu na fila do pão para contestar? Se não fosse assim, a água cobriria tudo. Eu, se não moro em palafita, também não moro em palacete. E aqui na Beija-Flor, quando chove, alaga tudo também.


O mote do filme é muito bom, vem a calhar. Em um futuro próximo e “distópico”, se você é velho, o governo orgulhosamente diz que cuidará de você. Como? Levando-te para uma colônia compulsoriamente, ora bolas. Em suma, está escancarada no filme a lógica segundo a qual o bom velhinho é aquele que não faz xixi na cama nem atrapalha o fluxo da economia. Os mais jovens precisam trabalhar, não podem perder tempo cuidando de velhinhos.


A situação parece absurda, mas tem um pé na realidade, portanto. Para muitas economias, o velho é um empecilho, um estorvo, uma obstrução, um gasto. Não há atualmente na sociedade um movimento para se esconder a velhice, para empurrá-la para longe do nosso campo de visão? Talvez a pergunta sejam mais do que meramente retóricas.


Tereza (Denise Weinberg), a protagonista do filme, é uma velhinha rebelde. Ela não quer ser mandada para um asilo, digo, para uma colônia ou coisa que o valha. Ela não quer passar pela humilhação de passear dentro da carrocinha de velhos (igualzinha às carrocinhas que recolhiam nos tempos de antanho os cachorros abandonados, uma sacada tragicômica do filme). Ela não quer ser mandada por ninguém nem mandar em ninguém. Literal e metaforicamente ela apenas quer ter nas mãos o leme de sua vida.


O filme é impactante para mim. Vejamos por quê: eu não sou mais jovem. Eu já vejo muita coisa da vida pelo retrovisor. Por ser de outra geração, talvez eu tenha simpatia pelos mais velhos, pelos que eles têm para me ensinar. Aprecio aprender de todas as maneiras, não apenas pelo Chat GPT. Lições deliberadas ou não, currículos ocultos, beiras de rio, o narrador de Walter Benjamin pode estar à espreita, quem sabe.


Enfim, eu vejo os velhos pelo viés da experiência que eles podem transmitir. Como professor que sou, contudo, já vi muitas vezes aluno desrespeitando o professor mais velho só por causa de idade. Cruelmente os alunos dizem que o professor já deveria estar aposentado, entre outras coisas.


É difícil pensar em algo que envelheça mais a pessoa que desrespeito. Desrespeito é foda. Quanto a mim, se a aposentaria me for concedida amanhã e se for polpuda, largo o emprego sem fazer biquinho, não volto a fazer “bicos” nunca mais e vou tratar de outras coisas da vida, que não me amarra dinheiro, não.


Salvo engano, o jornalista Mário Sergio Conti disse na sua coluna de sábados atrás que o filme era filme de festival: sem pé nem cabeça mas bonito visualmente. Quanto a tal opinião, eu digo de cara: eu discordo. Achei o filme não só muito bem estruturado, mas também muito inteligente em sua discussão sobre o “etarismo oficial” travestido de proteção e respeito, sobre o amor entre os velhos, sobre o desejo de liberdade que não cabe em si, que não tem governo nem nunca terá.


A trilha sonora também está um barato. Como se sabe, música rejuvenesce. A exemplo de Kleber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro sabe escolher as canções que pontuarão seu filme. Salve a Rosa dos Ventos.


Nada falei do caramujo da baba azul nem da participação de Rodrigo Santoro nem do sonho de enricar que perpassa o filme nem mesmo do título. Isto eu deixo para vocês.”

Vejam que o filme “O Último Azul” não é totalmente ficção.

Justiça manda reintegrar trabalhador demitido por idade na Dataprev

Decisão reconhece prática de etarismo, determina retorno imediato ao emprego e fixa indenização de R$ 30 mil por danos morais. CUT Ceará celebra avanço contra discriminação no trabalho

https://ce.cut.org.br/noticias/justica-manda-reintegrar-trabalhador-demitido-por-idade-na-dataprev-7f53

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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