Nome do segurança que matou artista negro no ABC permanece em sigilo

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“Dez dias após o crime, família e comunidade ainda aguardam respostas sobre a identidade e as circunstâncias da morte de Felipe Moraes de Oliveira, jovem capoeirista negro assassinado por um segurança em Santo André.”

Compartilhado de Afro Press




Santo André/SP – Passados 10 dias do crime, até agora não se sabe do nome nem a circunstância do assassinato do capoeirista e artista negro Felipe Moraes de Oliveira, 29 anos, morto a tiros por um segurança do supermercado Loyola, na loja do Jardim do Estádio na periferia de Santo André, região do Grande ABC em S. Paulo. A identidade do assassino, que aparece no vídeo tentando impedir a entrada de Felipe com o seu cachorro no braço, permanece mantida em sigilo, sabendo-se apenas que cumpre prisão provisória de 30 dias.

O crime aconteceu na manhã do dia 26 de agosto, quando Felipe foi até o supermercado comprar pão como fazia habitualmente. Carregava nos braços o cachorro que o acompanhava nas caminhadas. No vídeo o segurança tenta impedir sua entrada e, na discussão que se seguiu, o capoeirista é alvejado. Ferido correu para pedir socorro numa famárcia próxima, porém, levado ao hospital, já chegou sem vida. O cachorro, um vira lata branco foi resgatado por amigos e pela família.

Nesta quinta-feira (04/09), o professor de educação física, João Moreira, o Mestre Pelé, 54 anos, do Grupo Berimbau Brasil (Berimbras) com quem Felipe treinava, falou a Afropress do sentimento de indignação presente em todas as pessoas e na militância negra do Grande ABC, que não se conforma com o crime.

Pelé, que liderou a manifestação de protesto em frente ao Loyola no dia 29 de agosto, é conhecido Mestre de Capoeira no Brasil e em países da América do Sul, como o Chile, para onde está de viagem marcada no mês que vem, para participar de um encontro de capoeiristas. O Berimbrás existe há 23 anos.

Além de capoeirista, ele é coordenador de Políticas de Promoção da Igualdade Racial junto ao Consórcio de Municípios do Grande ABC, que reúne as sete cidades da região. “Esse mercado [Loyola] vai ter de pagar por isso. Se isso acontecesse com um rapaz branco que estivesse com um cachorro, não era cachorro, era pet”, afirma o Mestre capoeirista pedindo Justiça e lembrando a prática muito comum de madames carregarem seus pets em shoppings e locais da moda, sem serem incomodadas por seguranças.

Pela proximidade com a família, Pelé disse que prepara um encontro de toda a militância negra, capoeiristas, parlamentares e ativistas do ABC para o próximo dia 28 deste mês para que o crime não caia no esquecimento. Ele contou que Ewelyn Silva, companheira do capoeirista morto, segue muito abatida e não se conforma com o que aconteceu.

ANONIMATO E SIGILO

No caso do assassinato de Felipe, além do sigilo sobre a identidade do criminoso, há uma outra informação que é desconhecida. Numa consulta ao CNPJ  do mercado,  há a anotação de baixa no dia 29 de maio de 2025 em nome de Max Loyola Minimercado Ltda, tendo sido registrado como motivo da baixa “extinção por encerramento linquidação  voluntária”.

Segundo informações, a empresa teria sido vendida pelos donos originais e o novo proprietário não tomou as providências para a mudança formal do negócio. A situação explicaria o fato de que, não se sabe também quem são os donos da empresa para responder civilmente, na esfera individual, com indenização à família do capoeirista morto, e, na esfera coletiva, em Ação Civil Pública por dano moral coletivo.

Embora o mercado continue com as portas abertas, não se conhece também, até o momento, nenhuma nota ou manifestação da empresa sobre o ocorrido.

O assassinato de Felipe Moraes é o segundo praticado por seguranças de supermercados num período inferior a cinco anos. Em 19 de novembro de 2020 – véspera do Dia Nacional da Consciência Negra – seguranças do Carrefour assassinaram na loja do Bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre, o soldador João Alberto Silveira Freitas. O crime provocou grande repercussão no país. Os assassinos ainda não foram julgados.

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