Por Ana Pinta.
Primeiro de dezembro era dia de descerem as cestas de vime com os enfeites de Natal. Na tradição da casa dos meus pais o presépio era mais importante que a árvore e a preparação era minuciosa. Estábulo, palmeiras, riacho de espelho, ponte, tartaruga, ovelhas, pastores, anjo, Reis Magos, camelo, boi, vaca, estrela cadente e a Sagrada Família. Mas não era só cenário, o roteiro era cumprido à risca.
Primeiro só a paisagem , o estábulo, as palmeiras, o rio de espelho com a ponte e o sapo e a praiazinha feita com a areia branca que trazíamos do nosso quintal (a praia de Copacabana) no baldinho de plástico azul enfeitado com estrelas do mar.
Alguns cristais de rocha trazidos das viagens a São João del Rey. No dia 24 chegavam os pais e se instalavam no estábulo , entre o burrinho e a vaca. O anjo ocupava um lugar de destaque, bem perto da estrela. Só à meia noite o menino era colocado na manjedoura. Aí surgiam os pastores e uma moça carregando um cântaro. Reis Magos e seus camelos só chegavam no dia seis.
O presépio era tão elaborado que nem dava tempo para pensar muito na montagem da árvore e nos presentes que estariam lá, que eram sempre muitos.
Depois íamos até a Tia Bá, na Av Atlântica e de lá seguiamos para a Missa do Galo, na capelinha do Forte Copacabana .
Eram assim os Natais da minha infância. Agora, aos 70, Ricky e eu voltamos a montar um pequeno presépio, uma versão reduzida. Bem simplificado e com coisas do quintal. Não temos religião mas é uma lembrança e homenagem a todas crianças que nascem vivem e morrem em campos de refugiados, fugindo de um Herodes ou de um Netanyahu.
Você aí reparar que tem um urso. Isso é uma história ligada ao primeiro Natal do Ricky, aos seis meses. Ele e os pais passaram a noite de Natal nas montanhas da Carolina do Norte no carro enguiçado com um urso faminto do lado de fora.
Virou uma lenda da família. E um símbolo de sobrevivência.







