Por René Ruschel, jornalista
Não sou crítico de cinema. Apenas um cinéfilo moderado que assiste filmes com curiosidade e interesse, especialmente documentários e histórias ancoradas em fatos históricos.
Assisti “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e achei excelente.
Ainda assim, desde o início, não imaginava que pudesse conquistar um prêmio no Oscar. A obra faz um recorte muito particular da ditadura militar brasileira.
O enredo acompanha Marcelo, personagem interpretado por Wagner Moura, um professor universitário que retorna ao Recife em 1977, em pleno período do regime militar.
Fugindo de conflitos ligados a interesses políticos e econômicos daqueles tempos sombrios, ele busca se recolher, reorganizar a própria vida, proteger o filho e compreender episódios do passado de sua família.
Ao chegar à cidade, Marcelo encontra um ambiente marcado pela vigilância policial, pela tensão e por uma repressão que paira no ar.
Enquanto procura documentos e tenta resolver questões pessoais, acaba se aproximando de pessoas que foram perseguidas pelo regime e passa a viver sob a sombra constante do medo.
O filme não segue o caminho mais óbvio para retratar aquele período. Não há cenas explícitas de tortura, nem violência mostrada dentro de prisões.
Não vemos interrogatórios em celas escuras nem confrontos claros entre heróis e vilões.
A história prefere o silêncio, as entrelinhas, o clima de suspeita permanente e as pequenas estratégias de sobrevivência de quem tenta seguir vivendo.
Talvez por isso seja uma obra mais difícil para o público externo compreender plenamente. Trata-se de um olhar muito específico sobre a experiência brasileira durante a ditadura, cheio de nuances e contextos que nem sempre são evidentes para quem está fora dessa história.
Em contraste, o vencedor “Ainda Estamos Aqui” apresenta uma narrativa mais direta, carregada de emoção, dor e sentimentos expostos para retratar a violência da ditadura militar iniciada em 1964.
Histórias assim costumam atravessar fronteiras com mais facilidade.
Por isso, mesmo considerando “O Agente Secreto” um grande filme, não me surpreende que não tenha levado um Oscar.
Nem sempre as obras mais sutis e profundamente enraizadas em uma realidade local conseguem cruzar com facilidade as fronteiras culturais.





