O Avesso da Pele e o ensino de literatura na EJA

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Premiado livro de Jeferson Tenório foi banido das escolas públicas paranaenses. Mas, mais que palavrões e sexo, algo deveria chocar a sociedade: o desejo de ensinar de um professor que, esgotado e desiludido, suporta a precarização e o descaso do Estado

Por Eleilson Leite, compartilhado de Outras Palavras




O premiado livro O Avesso da Pele (Companhia das Letras, 2020) do escritor carioca radicado em Porto Alegre, Jeferson Tenório está sendo alvo de uma implacável censura que começou numa escola de ensino médio da cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul. O ato isolado da diretora expresso em vídeo que viralizou na internet despertou a ira de extremistas de direita, motivando o banimento da obra em toda a rede pública de ensino do Paraná por determinação do governador Ratinho Jr. O mesmo fez o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Curiosamente, o livro chegou nas escolas de todo o país por meio de compra pública, via PNLD – Programa Nacional do Livro Didático em 2022, portanto, durante gestão do ex-presidente ao qual os citados governadores são alinhados.

Jeferson Tenório em uma entrevista ao UOL disse estar inconformado de as cenas de sexo e o uso de palavrões terem incomodado mais os detratores de sua obra do que o racismo e a violência, elementos fundamentais da narrativa. E eu quero acrescentar outro componente também central do livro que poderia ter chamado a atenção positivamente da diretora que o baniu de sua escola: os desafios do professor em sala de aula. E cabe sublinhar que se trata do professor de literatura, particularmente o ensino de literatura na EJA – Educação de Jovens e Adultos.

O livro narra a vida do professor Henrique Nunes que tem sua trajetória contada por seu filho Pedro após sua morte. Para quem não leu o livro, alerto que isso não é um spoiler. A narrativa do romance se estrutura com base no ocorrido, recurso utilizado de forma semelhante por Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas que teve o próprio Brás como narrador de seu calvário.

Henrique é um professor que chega aos 52 anos de idade completamente esgotado em decorrência da rotina pesada da sala de aula. Tamanho desgaste faz com que seu filho desenvolva um sentimento de rejeição à profissão do pai: “Ver você sempre preocupado em corrigir provas, redações, reclamando da burocracia escolar, reclamando dos alunos mal-educados, reclamando da falta de estrutura dos colégios, reclamando da reunião com os pais, de fato me afastou de qualquer possibilidade de entrar numa sala de aula na condição de professor” (pág. 129).

Pedro, porém, em uma determinada passagem do livro, se encanta ao ver seu pai lhe recomendar o conto 7 do livro O Jogo de Amarelinha, do escritor argentino Julio Cortázar para ajudá-lo a conquistar uma jovem por quem se viu atraído. Fui conferir o texto indicado e de fato é de arrebatar, como se pode observar no seguinte trecho: “Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha”1

Referir-se a um livro do cânone literário para solucionar uma situação trivial do cotidiano, denota o quanto a matéria a que se dedicava o professor era algo que estava além de um compromisso profissional. Henrique amava literatura e esse encanto permeia toda a história. “Até o fim você acreditou que os livros poderiam fazer algo pelas pessoas”, diz Pedro ao refletir sobre sua ausência, sugerindo que ele seguiria presente nos livros de sua biblioteca (pág. 13). Para além das questões centrais do racismo e violência, O Avesso da Pele é uma exaltação ao livro, à literatura e à educação. Diretora da escola gaúcha, Janaina Venzon tinha na sua mão um livro formidável que, ao invés de condenado no tribunal da internet, poderia ser trabalhado muito bem tanto com os alunos quanto com os docentes.

A vida dos profissionais do ensino é tratada no livro em várias dimensões. Há uma passagem particularmente admirável que retrata uma relação amorosa entre dois professores na faixa dos 50 anos. Henrique se vê atraído por uma colega que lhe dá carona com frequência. Certo dia os dois trocam carícias na sala de seu apartamento. Constrangida, a colega revela não ter uma das mamas em decorrência de um câncer; Henrique a acolheu com empatia e transaram lindamente. A isso se soma outra revelação feita anteriormente: ela era casada há muitos anos com uma pessoa que a amava, mas não lhe desejava mais.

Certamente uma defensora da família tradicional, a diretora não ia gostar dessa parte, mas o trecho demonstra que esses professores exaustos e frustrados e a caminho da aposentadoria, são pessoas que amam, sofrem e estão expostas a situações afetivas embaraçosas como quaisquer outras. Demasiadamente humanas que são, podem se renovar e se reinventar mesmo depois de idade avançada tanto no campo pessoal, quanto no profissional. Muitos professores irão se identificar com a história. E é sobre reinvenção de si próprio que o livro O Avesso da Pele oferece uma boa lição para quem tem apreço pela educação.

Crime e Castigo

Já no final da carreira, Henrique passa a dar aulas para turma de educação de jovens e adultos numa escola pública. O autor explica, por meio da narrativa o quanto que a EJA virou reduto de jovens que abandonaram a escola na adolescência, invariavelmente por conta da necessidade de trabalhar. Defasados, eles retornam nessa modalidade de ensino para recuperar o tempo perdido. Quase toda a sala é formada por garotos e garotas entre 16 e 20 anos. São jovens pobres periféricos, quase todos pretos, cansados e desinteressados nos estudos. Mesmo contando com certa consideração por parte da turma por ser o único professor negro da escola, Henrique se vê impotente diante do desafio de ensinar para aqueles alunos.

Certo dia, ele entra na sala de aula e a turma estava meio em transe em torno de uma roda de garotos que falavam com orgulho por terem conhecido assassinos, algo que não é nada surpreendente dado o contexto social em que vivem. Mas os garotos relatam isso com arrogância como se fossem comparsas dos bandidos. Diante daquela situação, Henrique resolve se dirigir aos alunos energicamente e consegue encontrar uma solução não só para acabar com o burburinho, mas também para atraí-los para a literatura.

Ele se deslocou até o meio da sala e falou num tom dramático: “Gostaria que vocês ouvissem uma coisa: se querem saber, eu conheço um cara que matou duas pessoas”. Os alunos ficaram surpresos e incrédulos. O professor disse então que traria o assassino na próxima aula para que todos o conhecessem. A galera acabou se convencendo e ficaram atentos e ele conseguiu finalmente, pela primeira vez, dar uma aula como ele gostaria para aqueles jovens.

Henrique saiu da escola naquele dia só pensando na tarefa que tinha pela frente. Ele não poderia decepcionar a turma. Na aula seguinte reúne os alunos em roda. A ansiedade imperava na sala à espera da chegada do assassino. Henrique então distribui folhas com passagens do livro Crime e Castigo, de Dostoieviski chamando a atenção para os crimes de Raskólnikov. Mais de 20 anos de magistério lhe deram a segurança e a criatividade para atrair os alunos para aquela história que se passa em São Petersburgo, na Rússia no século XIX. A ideia era ler pequenos trechos, mas acabou repassando praticamente a obra toda ao longo das aulas seguintes.

Dali em diante, o professor desiludido se entusiasmou e preparou novas aulas para aquela turma que ficou sedenta por literatura. Pedro, em suas lembranças, afirma sobre a relação do pai com a escola: “Você simplesmente não sabe como sobreviveu à escola, primeiro como aluno, depois como professor”(pág. 129). O desejo de aprender e de ensinar é que move o professor e faz ele suportar a precariedade a que está submetido pelo descaso do Estado que não lhe dá o devido valor e ainda apela para esse sentimento “de amor à profissão” como fez, recentemente, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas. No caso de Henrique, professor negro, periférico, o Estado fez pior. Além de sugar sua força de trabalho, o liquidou com seu braço armado.

A diretora da escola gaúcha, assim como a deputada Bia Kicis, os governadores Ratinho e Caiado e todos que passaram a cancelar a obra O Avesso da Pele, estão com sua ira extremista matando mais uma vez o professor Henrique e, por extensão, atingem a todos os professores como é o próprio autor, Jeferson Tenório, que está sendo submetido a um castigo por ter cometido o “crime” de exaltar o livro, a literatura, a escola e a educação de jovens e adultos, além de condenar o racismo estrutural que marca a sociedade brasileira.


Nota:

1 Cortazar, Julio, O Jogo de Amarelinha, conto 7. Tradução: Fernando de Castro Ferro. Edição da Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2003.

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