Surge um fato de impacto. Quem publica primeiro vira o boi guia. A manada segue. Poucos jornalistas se dispõem ao risco do contraponto
Por Luis Nassif, compartilhado de GGN
A imprensa brasileira carrega um vício estrutural — um subdesenvolvimento editorial — que se manifesta na facilidade com que adere a consensos artificiais. Surge um fato de impacto. Quem publica primeiro vira o boi guia. A manada segue. Poucos jornalistas se dispõem ao risco do contraponto: errar acompanhado é sempre mais confortável do que acertar sozinho.
Esse ambiente é terreno fértil para um fenômeno mais grave: a naturalização do lobby midiático. Antes restrito a grandes grupos corporativos, ele hoje se espalha por portais, colunas e blogs “independentes”, que operam como extensões informais de disputas econômicas e jurídicas.Play Video
Com isso em mente, fica mais fácil entender os movimentos recentes da mídia contra Alexandre de Moraes e, agora, contra o Banco Central. Mas com um fato novo na parada. Ao contrário dos tempos da Lava Jato, desta vez as tentativas de efeito-manada esbarraram em uma barreira de críticas pesadas, que Power Point nenhuma resolverá.
Dois grupos, um objetivo comum: paralisar as investigações
Há, essencialmente, dois blocos em ação, com estratégias distintas, mas interesses que se cruzam.
O primeiro grupo — segundo suspeitas, inspirado no banqueiro André Esteves (BTG) e ancorado editorialmente em O Globo —, trabalha para a desmoralização de ministros do STF — em especial Alexandre de Moraes e Dias Toffoli — e, por extensão, da Diretoria de Fiscalização do Banco Central.
Não é casual. Foi dessa diretoria que saíram os elementos que permitiram à Polícia Federal a primeira ofensiva séria contra a máquina de lavagem de dinheiro da Faria Lima. O problema é sistêmico: não atinge apenas os investigados, mas um mercado inteiro sustentado por fundos com lastros frágeis. A meta é clara: derrotar, constranger e, se possível, empurrar para o impeachment.
O roteiro é conhecido. Primeiro, o escarcéu em torno de um fato antigo e público: os contratos do escritório da esposa de Alexandre de Moraes com o Banco Master. Percebendo que havia ali uma questão ética, mas não um ilícito, veio a segunda etapa: a acusação de que Moraes teria ligado quatro vezes para Gabriel Galípolo para interceder em favor do Master — uma denúncia grave sustentada exclusivamente por seis fontes anônimas do mercado.
Um déjà-vu da Lava Jato, sem Moro e sem PowerPoint, mas com o mesmo desprezo pela prova. E, mostrando que os tempos são outros, com um recuo providencial da jornalista.
O segundo grupo é diretamente ligado ao Banco Master. Sua estratégia é defensiva, mas não menos agressiva: tentar deslegitimar a liquidação do banco.
A primeira tese é acusar o Banco Central de ter apressado a liquidação quando uma “solução de mercado” estaria próxima — invertendo completamente a lógica dos fatos. A tentativa frustrada de empurrar a carteira podre ao BRB implode essa narrativa.
A segunda linha de ataque é ainda mais ousada: tentar anular as denúncias criminais alegando ilegalidade na cooperação entre o Banco Central, o juiz federal e o Ministério Público Federal nas operações Carbono Zero e Colossus.
Essa tese apareceu em blogs alinhados ao lobby do Master, travestida de reportagem exclusiva, mas nada mais era do que a peça de defesa dos advogados do banco. A argumentação foi desmontada publicamente pelo procurador Vladimir Aras, um dos maiores especialistas do MPF no tema.
O teatro chega ao clímax
O jogo de cena entre os dois grupos atingiu o auge numa entrevista curiosa: Reinaldo Azevedo, que divide programa com o principal advogado de Daniel Vorcaro, entrevistando André Esteves.
Reinaldo garante ter perguntado “em on” se Esteves era responsável pelos ataques a Alexandre de Moraes. E — surpresa! — Esteves respondeu que não. Um furo jornalístico à altura das seis fontes anônimas que, segundo Malu Gaspar, ouviram ligações que ninguém gravou, viu ou provou. Ressalte-se, por justiça, que Reinaldo tem se comportado como um defensor do STF.
O pano de fundo
O que se tenta, de forma extemporânea, é reeditar o clima midiático da Lava Jato, em uma quadra histórica completamente distinta. Não há santos nessa história — nem mesmo ministros do STF, que parecem ainda não ter plena consciência de seu papel histórico como garantidores da democracia. Passado o vendaval, será inevitável discutir e consolidar um código de conduta mais rigoroso para o Supremo.
Mas o objetivo imediato é outro: criminalizar o STF e fragilizar o Banco Central para interromper o avanço das investigações sobre o crime organizado, tanto na Faria Lima quanto no Congresso.
O resto é barulho. E manada.





