O Brasil Coberto de Sangue

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Por Ulisses Capozzoli, jornalista

A matança provocada pela repressão policial no Rio de Janeiro ocupa espaço em jornais internacionais e é manchete (a notícia de destaque) na edição internacional online do espanhol “El País”. O enfoque, evidentemente, é político, no sentido de luta pelo poder, como não poderia ser de outra forma em uma abordagem objetiva de tratamento midiático.




A segurança pública, com este evento que custou ao menos 121 vidas, de acordo com dados que ainda podem ser ampliados, é parte do jogo bruto proposto pela Direita para as eleições de 2026. O discurso e ação desse bloco, enfraquecido pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, é sanguinário, imediatista, brutal, estratégia de fácil processamento por mentalidades refratárias à percepção de um processo mais complexo que exige certa cientificidade para ser compreendido e devidamente tratado.

Uma frase consagrada entre a Direita resume essa postura de pura truculência: “Bandido bom é bandido morto”. E bandido, neste caso, se refere, obviamente, a extratos que compõem a base social. Os segmentos que estão na cúpula, alojados, por exemplo, no mercado financeiro que aufere lucros com essa atividade, estão atrás das cortinas e quase nunca são identificados.

E aqui há, ainda, uma tentativa de conexão com a fixação oral/doutrinária de Donald Trump em um combate militar ao que chama de “mercado das drogas” com armamento pesado e bombardeio de qualquer coisa que possa parecer suspeito, sem ser, necessariamente, identificado.

Em síntese: se a Direita tentou atrair Trump sem sucesso em um primeiro momento, não custa tentar uma alternativa que possa lhe parecer atraente num esforço de recuperar o poder que lhes escapou das mãos e que estão dispostos a recuperar a qualquer custo, com narrativas superficialmente moralista/moralizadores que muitos aceitam por comodismo. Ou a mais descarada cumplicidade.

O texto de “El País, enviado pela jornalista Naiara Galarraga Gortázar, baseada no Rio, levanta evidentemente o tratamento científico indispensável ao processamento da complexa equação social por trás desses eventos, incluindo ações de inteligência, em lugar de força bruta.

Mas isso não é do interesse da Direita que se utiliza desses conflitos com o oportunismo característico para assegurar o que sempre lhes pareceu um direito natural de uma classe, a que pertencem, de ocupar naturalmente o poder como uma espécie de desígnio divino. Algo como a tentativa do príncipe Andrew de desfrutar do corpo de uma garota menor de idade como uma espécie de privilégio de berço, resquício da Idade Média que resiste em ser apagado da História.

Quem teve estômago para acompanhar, na noite de ontem, a solidariedade de, literalmente, meia dúzia de governadores ao governante do Rio, autor material da sanguinolência, pode ouvir as receitas de, Ronaldo Caiado, de Goiás para tratamento da situação. Goiás um estado em que os donos do poder sempre tiveram exércitos particulares para resolver desavenças políticas.

O Brasil tem 26 governadores o que significa dizer que os presentes no Rio representavam um quarto, ou 25% desse total. Entre eles o insosso Romeu Zema servindo sua tradicional sopa de água morna: incolor, inodora e insípida, além do representante de Santa Catarina, Jorge Mello, com um suposto privilégio de estar entre os brasileiros mais bem nascidos. O resto é apenas isso: o resto.

O anfitrião do encontro, o bolsonarista Claudio Castro, havia dito na véspera que “o Rio está só nesta guerra”, daí o socorro da meia dúzia de outros bolsonarista para manter o barco flutuando.

As coisas estão, certamente, mais uma vez um tanto difíceis no Brasil com o legado de um sujeito que dizia com todas as letras “apoiar a tortura”, mas que, às vésperas de ser enviado a uma prisão formal, chora como um patife.

Estão difíceis, sim, mas, para contrapor a essa situação, é preciso reconhecer que, de fato, elas nunca foram fáceis.

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