O Brasil de Bolsonaro virou o velho-oeste e não tem nada de acidental

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Acordamos com a notícia do assassinato a mão armada de um homem dentro de um clube de classe média-alta paulistano.

Por Milly Lacombe, compartilhado de sua Coluna no Uol

Leandro Lo, campeão mundial de jiu-jitsu - Reprodução/Instagram

Era um show musical num sábado à noite, nada além disso.




Mas havia um cidadão de bem armado na plateia e ele decidiu que não iria levar desaforo para casa – como todo macho de respeito, diga-se. Levar desaforo pra casa é coisa de maricas.

Então, de acordo com testemunhas, depois de se desentender com outro homem, de sair no soco e de ser imobilizado, o cidadão de bem sacou a arma e atirou para matar.

A vítima era campeã mundial de jiu jitsu; o assassino era um policial à paisana. Deu em tragédia.

Haverá outras porque não se celebra impunemente a posse de armas, os clubes de tiro, a virilidade do macho de respeito que só atura a mulher para as barbatanas sexuais, uma grande liberdade de calar quem te nem que seja na bala.

A vida pública de Jair Bolsonaro se baseia nesse pilar de masculinidade.

Antes, ele falava suas atrocidades a partir de um pequeno e delinquente gabinete como deputado federal e era ridicularizado por colegas. Assim, pouco barulho fazia.

Mas o renegado Jair viraria esse jogo, colaria sua imagem na de um ícone do liberalismo e assim seria o presidente do país, calando aqueles que o excluíam da cena política e consideravam fora do baralho.

No posto mais alto do funcionamento do público, Bolsonaro foi o responsável, a população de liberdade do seu valor, armou a civil e autorizou as polícias a agirem em defesa do que acham que é essa tal liberdade de funcionamento.

A questão é que cada um tem uma ideia muito particular do que é liberdade e, por ela, se sente agora legitimado a aplicá-la.

Em todo o país, o número de civis armados é maior do que o de integrantes das Forças Armadas, Exército e Aeronáutica.

Segundo dados do Instituto Eu Sou da Paz, a proporção é de aproximadamente 600 mil pessoas armadas e de 350 mil militares.

Temos, assim, cerca de um milhão de pessoas andando armadas por aí.

Isso em números oficiais, o que indica que o contingente de valentes e defensores dessa ideia adotada de liberdade é muito maior.

Estão armados nos bares, nos cinemas, nos restaurantes, nos parques, nos shows, nas igrejas, nos clubes, nos hospitais, nas escolas.

Não saia de casa sem uma arma na cintura porque a liberdade é ter o direito de desfilar por aí com suas pistolas e suas ideias de masculinidade e valentia.

Estamos no Velho Oeste dos filmes de Hollywood.

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

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