Por René Ruschel, jornalista
O mesmo Congresso que adota o discurso da responsabilidade fiscal, que derruba medidas do governo sob o pretexto de proteger o contribuinte acaba de escancarar sua verdadeira prioridade.
Aprovou, nesta quarta-feira, 25, por 361 votos a favor e 36 contra, o aumento de 13 cadeiras na Câmara dos Deputados. Dentre os favoráveis, 42 deputados são petistas. Como se os atuais 513 parlamentares já não fossem suficientes para garantir a chantagem e o fisiologismo que paralisam o país.
Enquanto rejeitam propostas voltadas a projetos sociais com o argumento cínico de conter gastos, os nobres parlamentares decidem, sem pudor, sem vergonha, que o Brasil precisa de mais deputados. Mais salários, mais gabinetes, mais verbas, mais assessores, mais cotas, mais mordomias. A conta cresce. A crise, também. Mas para eles, tudo é expansível, menos o senso de limite.
É o retrato escancarado da desfaçatez. Cobram cortes, mas ampliam seus próprios privilégios. Falam em equilíbrio, mas pesam ainda mais sobre a máquina pública. A lógica é cruel. Austeridade, sim, mas só para os outros. Educação, saúde e programas sociais que esperem. O essencial, para essa elite política, é garantir espaço e poder para mais caciques no butim institucionalizado.
O governo, por sua vez, precisa parar de tergiversar. Deve assumir posição, explicitar seus compromissos, mostrar com clareza de que lado está. Porque continuar alimentando o Centrão enquanto afunda em contradições não é governar, é capitular. O Congresso já deixou claro que não quer jogar junto, quer dominar o jogo, indicar o juiz para apitar a partida, escalar os jogadores e sair com o troféu debaixo do braço.
No Brasil da política criativa, cortar benefícios fiscais é tabu, taxar milionários é proibido, mas multiplicar os custos do Legislativo passa com facilidade, sem resistência, quase sem notícia. Tudo em nome da tal “representatividade”.
Representar o quê, afinal? O povo, certamente não.







