O Cavaleiro e os Moinhos

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, busca Aldir Blanc, João Bosco, Dom Quixote e Sancho Pança para ilustrar o momento em que vivemos politicamente. Momento em que muitos dos que poderão ser enterrados vivos estão cavando com entusiasmo a própria cova. (César, perdão, por me meter com causticidade em seu romântico, porém cortante, texto – WLA)

Sei que muitos de nós têm mal dormido ou dormido mal, apreensivos devido aos resultados da eleição neste último domingo e no prognóstico sombrio que encerram. Sim, não podemos tapar o sol com a peneira, a notícia é de tempo ruim, muito ruim. E tem mais: envelhecemos. Se a gente pegar um resfriado, vai pro saco.




Não sei o quanto pesa nesta eleição o fato de termos envelhecido. Talvez sejamos mais consumidores das redes sociais do que propriamente produtores exatamente por isso. Eu mesmo, reconheço, escrevo como se estivesse elaborando, sei lá, um artigo ou algo do tipo.

Eu costumava fazer lives pelo Instagram, e era algo que me fazia bem, era mais ou menos como quando a gente se prepara para dar uma boa aula. Mas aí o Instagram subiu o sarrafo do número de seguidores para mil ou mais para liberar uma mísera live e me deu preguiça. Eu não posso ficar catando seguidor como quem caça vaga-lume, pensei.

Cortei o cabelo hoje. O Leandro, meu barbeiro, me disse que votou 22. Deivid, o dono do boteco da cerveja mais gelada da área, também. Estão todos ligados no escarcéu que o senhor Garotinho, político tarimbado, acabou fazendo. Acho que dessa vez Garotinho foi longe demais. Jogar xadrez contra pombos das Ruas talvez seja mais fácil do que jogar com gente do tipo do Little Boy.

Quer dizer, na minha área, no meu quadradinho da Beija-Flor, estou cercado por bolsonaristas gentis que cortam meu cabelo e me pegam a cerveja gelada de que preciso a preços de mercado. Eu não sei como fazer para virar o voto deles. Nem sei o que lhes dizer, do tipo vocês não sabem a merda que estão fazendo. E fica um travo na garganta.

Só me lembro do Deivid quando ele me viu na última eleição com o adesivo do Lula. Ele me olhou de lado assim como quando a gente finge que não está olhando. Eles sabem que sou professor; talvez não saibam o quanto tem difícil ser professor. Eu vi crianças gritando “Bolsonaro, Bolsonaro”. E algumas poucas gritando “Lula, Lula”. Quer dizer, não estava na faixa do 50 a 50, não, senhor. Quer dizer, uma guinada à direita estava ocorrendo debaixo dos nossos narizes. Quem é o doutrinador mesmo?

Chega a ser macabro pensar num governo como o de Ruas, aliado a um governo federal como o de um Flavio Bolsonaro. Enfim, enfim, todo mundo sabe que o Rio de Janeiro, mais que um estado, é um estado de sítio.

Canções da dupla João Bosco e Aldir Blanc mexem comigo. Não as escuto com frequência, por incrível que possa parecer; mas ainda assim de quando em quando elas retornam tais fantasmas. Me sopram avisos, inconfidências, sonhos afora. E eu me pego assoviando.

Talvez seja isso uma espécie de formação, eu que as ouvi demais as tenho como epifanias.
“O cavaleiro e os moinhos”, do LP Galos de Briga (1976), é uma canção com fortes traços ibéricos. Começa meio marcial, falando que é preciso acreditar na chegada do sol mesmo sabendo do escuro da noite etc. e tal. Até aí tudo bem. Pode-se classificar a canção na categoria esperançosa na linha da do “Dia que virá”, ainda que ela apresente uma série de ações, de tomadas de decisão.

Mas a segunda parte é a que me interessa aqui, porque o clima muda quando a letra diz: “Eu, baderneiro, me tornei cavaleiro/ Malandramente/ Pelos caminhos”. A ênfase no advérbio de modo, isto é, no malandramente, quando a música dá uma chicotada de bonde na gente. Música e letra e performance trabalhando juntas.

Malandragem, algo que tem nos faltado nesta eleição. Mas sempre lembrando que malandro demais se atrapalha, conforme diz o ditado. Mas a malandragem das redes é algo do qual não se pode mais prescindir. Senão a gente cai no conto do vigário dos algoritmos.

Há um outro trecho da letra que também diz respeito a certas mudanças: “Meu companheiro/ Está armado até os dentes/ Já não se fazem moinhos/ Como os de antigamente”. Constatação quixotesca de que a porrada está para estancar a qualquer hora. E que talvez a gente tenha falhado no cálculo, confiado demais nas pesquisas enquanto os grupos de zap se fechavam em copas.

Nada do que eu disse aqui é para nos fazer jogar a toalha ou bancar o fanfarrão. Mas há algo a nosso favor. Para o nosso bem, Lula é que nem o Messi. Dá orgulho de vê-lo atuar. Isso até mesmo os adversários estratégicos são obrigados a reconhecer: a jararaca ainda não morreu. Com acertos aqui e ali, a campanha pode decolar e deixar muita gente que está cantando vitória neste exato momento espumando de raiva.

O que você acha, meu amigo Sancho Pança?

Imagem do post: Esboço de Pablo Picasso (1955. Fonte: Wikimedia Commons)

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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