O dia em que Luis Fernando Veríssimo me fez uma pegadinha

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Por Washington Luiz de Araújo, jornalista

Um dia Luis Fernando Veríssimo apareceu em minha vida. Ou melhor, fui até a vida dele, apareci na sua casa, Bairro Petrópolis, Porto Alegre. Casa onde viveu com seus pais, Erico e Mafalda, e onde sempre morou. Casa daquelas de bairro, simples como ele e Lúcia, sua companheira de vida.




Conto aqui como se deu: trabalhava na Petros – Fundação Petrobrás de Seguridade Social – na primeira década deste século 21. Quando lá cheguei, havia um Concurso de Contos para os trabalhadores da estatal.

Gostei muito da ideia e só propus uma alteração para o livro a ser editado em 2005: que homenageássemos a partir daquele ano, um grande nome da literatura brasileira.

Fui pesquisar e descobri que Erico Veríssimo estaria completando 100 anos naquele 2005. Falei com o Geraldo Lúcio, amigo petroleiro que trabalhava na Petros e morava em Porto Alegre. Ele me disse que o jornalista Floriano Soares, o Florianinho, outro amigo que se aposentou na Petrobras, era amigo de Luis Fernando Verissimo, tendo trabalhado com ele em jornal.

Floriano ligou para o Luis Fernando e lá fomos nós para Porto Alegre, conversar com o escritor, para solicitar sua presença no lançamento do livro em que seu pai era homenageado. De cara, fui alertado pelo Floriano: “Olha, Washington, não estranhe, pois ele quase não fala. Ouve muito, mas fala pouco.”

Chegamos na porta da casa, eu, Floriano e Geraldo. Batemos palma e de lá sai Luiz Fernando que abre o portão e nos convida a entrar.  Somos apresentados a Lucia e encaminhados à sala, com uma repleta biblioteca.

Nos sentamos num sofá os três e Luis Fernando senta-se numa pequena poltrona na nossa frente.

Começo: “Luis Fernando, estamos aqui para informar que faremos uma homenagem ao Erico Veríssimo pelo seu centenário. Será no Rio de Janeiro. Promovemos um concurso de contos e editamos um livro com os trabalhos selecionados. No qual, a partir deste ano, passaremos a destacar um grande nome da literatura brasileira”.

Contei tudo isso e ele me encarando, intervalo num silêncio total. De repente, ele fala: “Quando?”. Respondo: “05 de dezembro”. Ele responde: “Vou”.

Suspiro aliviado e complemento: “Luis Fernando, pagamos um cachê para quem vai se apresentar como palestrante”. Ele responde: “Palestra, não. Como você pode perceber, não sou de falar muito. Mas o que vocês perguntarem, respondo”.

Sobre o cachê: “Queria entender sobre o cachê”. Eu: com quem eu falo sobre valor”. Ele: “Comigo mesmo, mas deixa eu entender: Vocês vão homenagear meu pai pelo seu centenário”. Eu: “Sim”. Ele: “Eu vou à homenagem que vocês vão propiciar ao meu pai e querem que eu cobre? Ele jamais me perdoaria”.

Conversa encerrada, Luis Fernando veio ao Rio com Lúcia e não cobrou nem hospedagem e nem passagem aérea.

Na mesa, como moderador, coloquei amigos do escritor para que ele se sentisse bem à vontade: o jornalista e artista plástico, Enio Squeff, e Floriano Soares, aquele que nos ajudou a chegar a Luis Fernando.

Evento muito agradável, no qual muitos se espantaram, inclusive a companheira Lúcia, pois Luiz Fernando falou mais do que o usual.

Na saída para o coquetel, solicito o meu autógrafo no livro lançado e pergunto se tudo tinha saído a contento.

Ele responde que sim, que ficou muito contente com quase tudo, só surgiu uma pequena questão. De imediato perguntei qual era e ele respondeu: “O cachê”.

Como cantava Maísa, meu mundo caiu. Respirei fundo e disse: “Tudo bem, Luis Fernando, converso com a diretoria, mesmo tendo já passado o evento. Quanto você propõe de valor?” “Mario Quintana”, respondeu.

Aí que não entendi mais nada, perdi a fala, fiquei olhando para ele, que emendou: “ Mario Quintana no próximo ano”.

Tergiversei: “Mas Luis Fernando, como vou convencer a diretoria em homenagearmos dois gaúchos consecutivamente?”.

Resposta: “Me arrume, então, um poeta da altura de Mario Quintana que esteja completando 100 anos em 2006, que abro mão do meu cachê, cujo valor é reverenciar Mário Quintana”.

No ano seguinte fizemos a homenagem ao grande poeta. Cachê pago.

No ano da edição, entrei em contato por email com Luis Fernando, pedindo um pequeno texto sobre Mario Quintana para abrirmos o livro de Concurso de Contos de 2006.

No dia seguinte, o escritor me enviou o texto. De pronto, perguntei o valor do cachê pelo mesmo. Resposta: “Já pagastes, lembra? Homenagem a Mário Quintana em 2006”.

Abaixo o texto que Luis Fernando me enviou sobre Mário Quintana e o autógrafo do mesmo no livro sobre o pai, com as devidas capas dos dois anos nos quais o escritor fez parte de minha vida profissional. Ô Sorte!, com dizia Wilson das Neves.

“O Mario Quintana, cujo centenário do nascimento se comemora este ano, gostava der frequentar a Feira do Livro de Porto Alegre. Nas sessões de autógrafos de outros autores, ficava sentado num banco da praça, por perto, era reconhecido por quem passava e depois contava que dera mais autógrafo do que todos.

O Mario era assim, tinha um prazer quase infantil nas suas próprias travessuras e com a sua notoriedade na cidade.

A fama era merecida: cantando a cidade suas ruas e lembranças, ele se tornara um dos cinco ou seis maiores poetas brasileiros, sem nunca perder sua identidade municipal e seu gosto pelo convívio na praça e o carinho público.

Além de um grande poeta, foi um grande humorista, às vezes sem se dar conta disto. Uma vez nos encontramos no Rio e ele me disse que o que mais gostava quando estava na cidade era entrar num túnel. “A gente descansa um pouco da paisagem…”, disse.

Grande Mario. E com o passar do tempo, Mario cada vez maior. Como nas Feiras do Livro, quando ele não precisava sair do seu banco para atrair mais atenção do que os outros, ele não precisa estar vivo para ir ficando cada ano melhor, e mais reconhecido (Luis Fernando Veríssimo)”.  

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