Xi Jinping propõe a criação de uma nova ordem mundial baseada na igualdade, na consulta mútua, no respeito pela diversidade das civilizações
Por José Luís Fiori, compartilhado de GGN
Nos oito primeiros meses de 2025, Donald Trump ocupou a primeira página dos principais jornais do mundo, praticamente todos os dias e semanas, com seu hiperativismo midiático e todo o tipo de decisões e iniciativas surpreendentes, unilaterais e arbitrárias na maioria dos casos. Muitas delas, inclusive, não foram implementadas ou nunca existiram. E outras tantas criaram enorme barulho, mas depois ficaram pelo meio do caminho. É o caso de seu anúncio da anexação do Canadá e da Groenlândia ao território dos EUA, ou suas bravatas pacifistas com relação às guerras da Ucrânia e de Gaza. E ainda, sua recente decisão de marcar data e convocar os presidentes da Rússia e da Ucrânia para uma reunião promovida por ele, mas que foi rejeitada pelo presidente ucraniano e solenemente ignorada pelo presidente Vladimir Putin…
No entanto, o que aconteceu na China entre os dias 31 de agosto e 3 de setembro de 2025 foi algo completamente diferente, não passou pela vontade ou decisão dos EUA e deixou Donald Trump inteiramente marginalizado, paralisado e sem capacidade de resposta frente ao gigantesco espetáculo promovido pelos chineses. Durante esses quatro dias, o mundo teve a certeza de que algo novo acabara de acontecer, sacramentando o declínio de uma “era eurocêntrica” e de uma ordem mundial “unipolar”, junto com o nascimento de um novo polo de poder mundial, com capacidade suficiente e projeto próprio de reorganização do mundo e das relações entre suas várias civilizações.
A 24ª. Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, realizada na cidade de Tianjin nos dias 31 de agosto e 1º de setembro, e o grandioso desfile militar realizado em Pequim no dia 3 de setembro, em comemoração aos 80 Anos da Vitória da China contra o Japão, e contra o fascismo na II Guerra Mundial, foram antes que nada dois espetáculos programados e coreografados nos mais mínimos detalhes – como na tradição milenar dos grandes rituais chineses, com seus símbolos e significados que refletem a visão de seu povo a respeito da ordem social e cósmica, e que contêm mensagens que são praticamente inacessíveis para quem não possui a chave para decifrá-las.
Assim, do ponto de vista da crise contemporânea da ordem internacional e do caos geopolítico instalado pelo declínio da Europa, da desconstrução da hegemonia americana e do mandonismo arbitrário de Donald Trump, esses dois eventos emitiram alguns sinais muito claros, através de gestos e palavras, mas também através do silêncio imponente das novas armas produzidas e apresentadas ao mundo no desfile da Praça da Paz Celestial.
Em primeiro lugar, destacam-se a duração da visita e o calor da recepção dada por Xi Jinping ao presidente russo, Vladimir Putin, deixando claro que sua amizade é indestrutível e que a aliança estratégica entre Rússia e China não foi, nem será abalada pela reaproximação entre a Rússia e os EUA de Donald Trump. Putin e Xi defenderam as mesmas posições na Cúpula da OCX e estiveram lado a lado no desfile militar, além de terem mantido várias conversas privadas e amistosas durante os cinco dias da visita do presidente russo à China. Em seguida, cabe destacar a entrada na conferência, de mãos dadas, de Vladimir Putin e do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, até se encontrarem com o primeiro-ministro chinês, com quem se deram as mãos, formando um círculo inimaginável alguns anos ou meses atrás – três dos maiores e mais populosos países do mundo unificados pelo ataque econômico desastroso de Donald Trump contra a economia indiana. Por fim, como não ver a importância da chegada ao desfile militar do dia 3 de setembro, lado a lado, de Xi Jinping, Vladimir Putin e Kim-Jong-Un, representando os três países que lutaram juntos contra os EUA na Guerra da Coreia entre 1950 e 1953, logo depois do fim da II Guerra Mundial. Passaram uma imagem e decisão de retorno e releitura de uma história que eles consideram ter sido interrompida ou distorcida pala narrativa das potências ocidentais lideradas pelos EUA.
Na abertura da Cúpula da OCX, e frente aos seus convidados da Praça Celestial, o primeiro-ministro Xi Jinping fez dois pronunciamentos que deverão passar para a História, propondo a criação de uma nova ordem mundial baseada na igualdade, na consulta mútua, no respeito pela diversidade das civilizações e na busca do desenvolvimento econômico e na luta conjunta por um futuro compartilhado. Criticou veementemente todo tipo de “hegemonismo” e “política de força”, numa referência velada ao “supremacismo europeu” e à linguagem utilizada constantemente por Donald Trump e seu grupo de governo. Xi Jinping foi mais além e propôs diretamente a “iniciativa de uma nova governança mundial”, baseada em cinco princípios fundamentais: i) o respeito pela soberania de todos os Estados, independentemente de sua força; ii) o respeito ao direito internacional; iii) a prática igualitária de um multilateralismo renovado; iv) a criação de uma ordem voltada para a proteção e desenvolvimento das pessoas, na sua condição universal de seres humanos, e não apenas de indivíduos; e por fim, v) a adoção de medidas concretas e imediatas, com o objetivo último de obter a paz entre os povos baseada no desenvolvimento conjunto e cooperativo de todos, sem nenhum tipo de dominação e colonialismo.
A Cúpula da OCX reuniu cerca de 20 chefes de Estados-membros do maior bloco regional do mundo – entre os quais Turquia, Egito, Irã e outros –, com cerca de 42% da população mundial e 24% da área territorial global. E o desfile militar, por sua vez, apresentou ao mundo as novas armas chinesas, que podem projetar seu poder ao redor do globo em caso de guerra, incluindo o míssil nuclear Dogfeng 5, capaz de atingir seus alvos a 20 mil quilômetros de distância – ou seja, qualquer ponto da Eurásia ou do “hemisfério ocidental” – ao lado de seus novos drones submarinos de grande porte e mísseis antinavio, capazes de desbloquear em conjunto o cerco marítimo do Sul do Pacífico, sustentado pelas forças navais de EUA e Grã-Bretanha junto com Austrália, Japão e Coreia do Sul.
Antes de iniciar-se o desfile desses armamentos e de mais alguns milhares de soldados, do alto do prédio da entrada da Cidade Proibida – no mesmo lugar em que Mao Tse Tung anunciou ao mundo, em 1949, a fundação da República Popular da China –, Xi Jinping também anunciou ao mundo que a China se colocava naquele momento ao lado da paz e da civilização, e se propunha a liderar, junto com os demais povos do Oriente e do Ocidente, uma nova ordem global. Na verdade, a China de Xi Jinping propõe que seja feita uma releitura do papel chinês na II Guerra Mundial e na derrota do fascismo, papel que foi literalmente negado ou cancelado depois da exclusão da China de Mao Tse Tung do Conselho de Segurança da ONU, em 1949 – exclusão que foi feita de forma absolutamente arbitrária e autoritária pelas chamadas “potências ocidentais”. E agora, ao lado desta releitura, Xi Jinping está reivindicando liderar a reorganização do próprio sistema das Nações Unidas, sem destruí-lo – pelo contrário, com a participação igualitária e proporcional de todos os povos, e com o fim definitivo da pretensão hegemônica das antigas potências europeias e dos Estados Unidos.
Ou seja, se fosse necessário identificar a mensagem principal desses três dias em que a China iluminou o mundo, é que ela e seus grandes aliados estão dispostos a reorganizar e sustentar uma nova ordem mundial pacífica e igualitária, que respeite as várias civilizações que coexistem na face da Terra. Uma ordem ancorada na estabilidade, na credibilidade dos valores, instituições e práticas historicamente comprovadas do pacifismo e da estabilidade chinesas. Por isso talvez a China tenha decidido fazer sua grande demonstração de força militar exatamente na majestosa Praça da Paz Celestial.
Setembro de 2025
José Luís Fiori – Professor emérito dos Programas de Pós-graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ), e em Bioética e Ética Aplicada (PPGBIOS/UFRJ), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenador do GP do CNPQ, “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”, do NUBEIA/ UFRJ.







