A avalanche de versões, potencializada pela internet e pela política, desafia o jornalismo a recuperar sua função central: separar fatos de narrativas interessadas.
Por Carlos Castilho, compartilhado de Observatório da Imprensa
Foto: Nick Morrison/Unsplash
É cada vez maior a dificuldade das pessoas comuns em distinguirem no noticiário o que é fato e o que é uma versão deste mesmo fato. E a responsabilidade por este problema pode ser atribuída, em grande parte, à imprensa e ao jornalismo. É através de empresas e de profissionais da comunicação que tomamos conhecimento do que acontece em nosso bairro, cidade, país e no resto do mundo. A forma como as notícias chegam até nós condiciona a nossa tomada de decisões, que direta ou indiretamente acabam influindo no que é decidido em escala nacional e internacional.
Tomando como exemplo o caso dos dois atiradores que causaram a morte de 16 pessoas na Austrália, a descrição do fato pela imprensa, por governantes e políticos foi marcada pela variedade de vieses ou versões, disseminadas pela imprensa e agentes políticos envolvidos na polêmica entre árabes e judeus. Criou-se assim um contexto informativo que pode influenciar os desdobramentos diplomáticos na questão de Gaza.
Aqui na América Latina, nas eleições chilenas do dia 14/12, os dados factuais sobre segurança pública foram atropelados por versões associando o problema ao medo, à autodefesa e à expulsão de imigrantes estrangeiros. A manipulação de versões acabou influenciando o resultado do pleito, favorecendo o candidato mais à direita, apesar das estatísticas apontarem o Chile como um dos países com menor índice de violência urbana na América Latina.
Estes são apenas dois, entre muitos outros casos em que a discrepância entre fatos e versões inseridos na agenda pública de debates levou os cidadãos a desenvolver opiniões e atitudes, muitas vezes não alinhadas com a realidade objetiva. Isto coloca em xeque a missão da imprensa e do jornalismo, uma vez que ambos devem sua existência ao compromisso de oferecer, prioritariamente, fatos a leitores, ouvintes, telespectadores e usuários da internet. É um dilema complicado porque afeta comportamentos entranhados há décadas na cultura jornalística.
A avalancha de versões
A dificuldade em distinguir fatos de versões é um desafio antigo, mas que ganhou enorme importância depois que a internet deu origem à avalancha informativa, que não para de crescer. Quanto maior o número de indivíduos que postam mensagens e comentários em redes sociais e plataformas digitais, maior a quantidade de versões sobre dados numéricos, acontecimentos, declarações e ideias que alimentam a agenda pública de debates.
A imprensa e o jornalismo acabaram sucumbindo à avalanche de versões publicadas na internet e estão diante do difícil dilema de reorganizar seus processos de produção de notícias, reportagens investigativas e análises interpretativas para permitir que leitores, ouvintes, telespectadores e internautas tenham condições de diferenciar melhor o que é fato e o que é versão no noticiário quotidiano. Trata-se de uma decisão difícil porque a intensificação do uso da inteligência artificial tende a sofisticar e embaralhar ainda mais a já tênue fronteira entre objetividade e subjetividade na comunicação social.
Os jornalistas, profissionais e amadores terão que desconstruir narrativas, relatórios, entrevistas e pronunciamentos publicados em veículos de comunicação para identificar em cada um deles o que é fato e o que é versão. Isto toma tempo, exige mais conhecimentos, aprofundamento da contextualização, acarreta mudança nas rotinas de trabalho e, acima de tudo, coloca a preocupação com as decisões do público acima dos interesses dos donos de empresas jornalísticas, patrocinadores e lobbies político-empresariais.
Missão quase impossível
No caso dos assassinatos no evento na praia de Bondi no sul da Austrália, por exemplo, a desconstrução das narrativas em torno do episódio implica identificar primeiro o fato materializado na ação de dois atiradores que mataram com tiros de fuzil 16 pessoas que participavam da festa judaica do Hanukkah. Isto inquestionavelmente aconteceu e foi filmado. Já os testemunhos, interpretações e ilações constituem versões que podem ser mais ou menos condicionadas pela história de vida, visão de mundo, emoções e relacionamentos de entrevistados ou especialistas consultados.
A definição dos responsáveis pelas mortes como terroristas somente seria factualmente correta depois que o sobrevivente, ou parceiro, confessasse sua intenção de assassinar judeus participantes do evento. Do ponto de vista jornalístico, expressões como massacre, antissemitismo, radicalismo islâmico e outros adjetivos com implicações político-ideológicas são publicáveis desde que o autor seja identificado e situado no contexto do evento.
É preciso reconhecer que é materialmente impossível checar todas as versões, no caos informativo contemporâneo. Isto não pode servir como desculpa, mas sim como um desafio, uma meta. O exercício do jornalismo como função a serviço do público implica identificar o autor de uma versão, quais os seus interesses, relações políticas, empresariais, religiosas, familiares e culturais. Todo profissional sabe disso, mas o ritmo quase industrial de produção de notícias na era digital e as consequências, geralmente irreversíveis, do embaralhamento entre fatos e versões tornam inevitável e inadiável rever os paradigmas da atividade jornalística.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.







