O peso da leveza

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Por Edward Magro

Se eu fosse um homem de fé — e Deus sabe o quanto tentei, e falhei miseravelmente — esta sexta-feira me colocaria num impasse teológico de primeira grandeza. Porque ela não apenas sextou. Sextou linda, esplendorosa, radiante, iluminada, apesar do céu de inverno, encoberto e acinzentado, e da umidade da garoa que, renitente e resiliente, cai lá fora há pelo menos doze horas. Sextou fria no termômetro, quente no coração.




Difícil explicar a leveza do ar. O país ainda é o mesmo; o governo, igualmente inalterado. Lula continua refém de um Congresso criminoso, Hugo Motta segue empregando fantasmas em seu gabinete, o agronegócio segue incendiando a Amazônia, assassinando e grilando terras de pequenos proprietários, Arthur Lira, Temer e Eduardo Cunha continuam soltos. E, pior, Abel segue, sem ser incomodado, pardalizando no meu Palmeiras. Mesmo assim, e talvez por isso, tudo é luz e beleza.

Resolvi agradecer à graça recebida, mesmo sem saber exatamente a quem. Agradeci a Deus, a Alá, a todos os Budas, a Santo Expedito — que jamais falha, segundo consta — e, especialmente, a Oxalá, com quem, dizem por aí, mantenho uma relação direta e hereditária.

Agradeci porque não é todo dia que a justiça brasileira dá um passo como esse. E, justiça seja feita, o passo foi firme, sem tropeço: Jair Bolsonaro, enfim, de tornozeleira eletrônica. E essa imagem é belíssima. É uma Guernica sem distorções, sem abstrações exageradas, sem o consolo da arte. É beleza em estado cru.

É excepcionalmente lindo ver o delinquente reduzido à categoria de “pombo correio com GPS”, ostentando no tornozelo uma joia democrática de rastreamento contínuo. Um GPS com jurisprudência, pequeno artefato que carrega em si uma potência estética e pedagógica. Ali, bem ali, entre a fivela plástica e o sensor cinzento, repousa talvez o mais refinado artefato da modernidade jurídica tropical. Uma espécie de relicário civilizatório, uma pequena cápsula de esperança embutida, afivelada à panturrilha da impunidade. É um pequeno artefato no tornozelo de um criminoso, mas um gigantesco símbolo para a civilização.

Esta sexta-feira, de tão importante, mereceria virar feriado nacional: 18 de julho, o “Dia do Empobamento Final da Ditadura de 64”.

Mas, voltando os pés ao chão, é preciso ter cuidado, comemorar a vitória de olho no inimigo, pois, como diria o velho ditado que ninguém nunca disse, tornozeleira em político é como anel de noivado em influenciador digital: bonito de ver, mas não dura muito.

Tratando-se desta criatura específica, seria prudente que o Supremo Tribunal Federal antecipasse um problema que, à primeira vista, parece improvável, mas que, dada a natureza do punguista, se insinua como plausível. É necessário colocar uma tornozeleira na tornozeleira. Algo como um selo antifurto, daqueles usados em lojas de perfume.

Porque não seria nada absurdo imaginar Bolsonaro tentando incluir o dispositivo no acervo presidencial e, antes que percebamos, a peça estar anunciada em algum site de vendas da gringa. Imagine o anúncio: “Tornozeleira usada por Jair em missão patriótica contra o globalismo — item de colecionador. Frete grátis para o Texas.” Não, isso não é paranoia. Trata-se de projeção lógica, alicerçada na vida pregressa do delinquente, no seu histórico de atleta… do furto.

Por outro lado, enquanto o STF se ocupa do criminoso, nós, cá entre espectadores e vítimas, devíamos fazer a nossa parte: fustigar Trump. Um vampetaço coordenado, meticulosamente vulgar, na linha quinta-série, com as vísceras vampetianas devidamente expostas, até deixá-lo putaço, espumando pela boca, a ponto de publicar um tuíte inflamado em defesa de Bolsonaro. Um tuíte do fascista alaranjado é ouro processual e funciona como um atalho luxuoso para o engaiolamento definitivo do meliante.

Reitero meu desejo de engaiolamento definitivo do elemento, de preferência com tornozeleira e tudo o mais. Porque há sempre o risco do desfecho morno, do arranjo confortável. Chamam de “prisão domiciliar” e insistem em qualificá-la como forma moderna de punição, uma abordagem humanizada.

Ora, humanizada para quem?

Para o sujeito que passou anos ameaçando a todos nós? Para quem incentivou a morte, riu da dor, desmontou a máquina pública com prazer? Para quem ama, exalta e premiou torturadores? Para quem odeia os pobres com zelo missionário e sapateia sobre as dores das minorias? Para quem sonha, com indisfarçável volúpia, em ser ditador?

Vamos mesmo permitir que premiem o criminoso com sofá, Netflix e café passado?

O Brasil precisa de símbolos. E nenhum símbolo é mais didático, mais eficaz, mais necessário do que a presença concreta de Jair Messias Bolsonaro num presídio de verdade, com grade, horário e visita marcada. A justiça que se dá ao luxo da gentileza perde a pedagogia. E justiça sem exemplo não é justiça: é nota de rodapé.

Prisão domiciliar é o caralho.

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