A metrópole carioca precisa – e tem como – colocar a natureza no centro do debate urbano
Por Edu Carvalho, compartilhado de Projeto Colabora
Foto: Rio 40 graus no verão: a cidade pode aprender com a Rio Nature & Climate Week (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil – 27/12/2025)
Desde o dia 1º de junho, o Rio de Janeiro se tornou o epicentro das discussões globais sobre natureza e clima. A primeira edição da Rio Nature & Climate Week (RNCW) reuniu no Pier Mauá — e em dezenas de territórios espalhados pela cidade — cientistas, ministros, lideranças indígenas, empresários e ativistas de diferentes países para debater soluções e preparar o caminho para a COP31. O tema era urgente; e o endereço, também.
Não é pouca coisa sediar, em junho, um dos eventos climáticos mais relevantes do ano, justamente numa cidade que, meses antes, registrou sensação térmica de 50°C. Que viu seus termômetros baterem 44°C em fevereiro de 2025, sendo este o maior valor já registrado pelo Sistema Alerta Rio desde em 2014.
Nos termos dos próprios organizadores, ela nasce como movimento e comunidade, com uma missão direta e focada para alinhar prioridades, ampliar soluções e anunciar compromissos concretos direcionados ao Sul Global. E o Rio, ao criar essa agenda, tem uma oportunidade rara: incluir no debate do clima global, com olhar honesto, o que acontece em suas próprias ruas.
No primeiro dia da conferência, as discussões giraram em torno da integração entre as agendas de clima, biodiversidade e combate à desertificação, e da própria necessidade de transformar compromissos em ação. Natalie Unterstell, uma das vozes mais importantes da política climática brasileira, afirmou que o Rio de Janeiro pode e deve assumir papel protagonista nesse processo.
Um dos aspectos mais interessantes da programação foi justamente a aposta na descentralização. Com um edital, a organização selecionou 20 projetos de organizações da sociedade civil e coletivos independentes para levar o debate climático para além do Pier Mauá. No Complexo do Alemão, comunicadores comunitários discutiram novas narrativas sobre a crise. Na Maré, o foco foi saneamento e justiça climática. De Realengo a Tijuca, de Olaria a Santa Teresa, os primeiros dias do mês mostraram que o clima não é pauta de evento internacional e sim pauta de bairro. E aqui mora o maior recado já dado pela semana: esse é o espírito que a cidade precisa assimilar.
Às vésperas da formação do El Niño, um dado não pode sair da cabeça: existe 50% de chance de que o fenômeno alcance intensidade forte ou muito forte. Em dois meses, a partir de agosto, a chance de estabelecimento do fenômeno sobe para mais de 80%.
Para o sudeste brasileiro, o fenômeno vai elevar ondas de calor. Ouvir isso num Rio já viveu o que acontece quando o fenômeno se soma ao aquecimento de fundo, quando lá em 2024, a cidade bateu seus recordes históricos de temperatura, preocupa. Se o fenômeno voltar com força em 2026, e se as projeções se confirmarem, o próximo verão carioca pode ser ainda mais extremo. E o Rio está pronto? Tem sombra suficiente? Tem parques que resfriam o ar? Tem calçadas que deixem a água infiltrar? Tem bairros onde se possa caminhar no verão sem risco à saúde? Hoje, a resposta honesta é não.
A metrópole carioca tem como colocar a natureza no centro do debate urbano, não apenas como tema de painel, mas como princípio de gestão da cidade. O Secretário-Executivo da ONU para Mudanças do Clima, Simon Stiell, disse que a COP de Belém marcou o início de uma nova era de implementação. As semanas neste 2026 que já corre, sendo as próximas Nova York e Londres, devem atestar como essa implementação acontece na prática.
Mais que implementar, nossa capital precisa entender e revisar o ordenamento urbano com olhos no clima. Em outras palavras: significa que nenhuma obra de grande porte deve ser aprovada sem um componente de compensação ambiental obrigatório. Significa que a arborização deixe de ser ação pontual e vire condição sine qua non de qualquer licença de construção. Significa que os debates que aconteceram esta semana no Pier Mauá cheguem às reuniões do Conselho Municipal de Urbanismo. E que a sociedade civil que ocupou o Complexo do Alemão e a Maré, por exemplo, tenha cadeira garantida nessas conversas ao longo do ano.
A cidade que sediou um dos maiores eventos climáticos do mundo precisa ser diferente depois dele. Não é só hospedar o debate, é preciso virar o debate em política, em legislação, em obra, e em sombra, de fato, nas ruas da Zona Norte no próximo verão.
O calor vem, e a pergunta é o que a cidade vai fazer enquanto ainda há tempo. A Rio Nature & Climate Week já deu o norte.







