Por René Ruschel, jornalista
Com ares de imperador do mundo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Um gesto autoritário que trata países soberanos como vassalos de seu império imaginário.
Age como se comandasse sozinho a ordem global, ditando regras e punindo nações que ousam existir fora de sua cartilha ultranacionalista, como fosse o síndico do planeta. Não esconde seu desprezo por qualquer noção de equilíbrio diplomático.
Em sua primeira passagem pela Casa Branca terminou o mandato com a ignomínia de incentivar a invasão do Capitólio por uma horda de fanáticos, insuflados por seu delírio de fraude eleitoral.
Uma cena que entrou para a história como um dos momentos mais sombrios da democracia norte-americana. Se havia alguma dúvida sobre seu apreço por regimes autoritários, ela foi enterrada sob os escombros das janelas quebradas do Congresso dos EUA.
É esse mesmo Trump, agora mais radical e ressentido, que pretende ditar as regras do comércio internacional com mão de ferro e retórica de palanque.
A ameaça de sobretaxar produtos brasileiros não é apenas um ataque à economia do país, mas um aceno claro ao seu público interno, nacionalista e xenófobo, que vê com bons olhos qualquer tipo de agressão aos “inimigos estrangeiros”.
No Brasil, o que se viu de setores bolsonaristas diante da taxação arbitrária não foi uma reação diplomática à altura, mas uma vergonhosa demonstração de servilismo.
Em vez de defender os interesses nacionais preferem bajular o presidente norte-americano como súditos de uma república bananeira.
Mas o auge do constrangimento institucional veio com a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado Filipe Barros, PL-PR, que aprovou uma inacreditável moção de louvor a Trump.
O pastor-deputado bolsonarista, Sóstenes Cavalcante, PL-RJ, afirmou que o americano deve ser enaltecido e lembrado “como um dos melhores presidentes do mundo e exemplo a ser seguido para implementação e manutenção de uma democracia moderna e justa”.
Esse alinhamento submisso de parte do Congresso a um presidente estrangeiro que ameaça a soberania e os empregos nacionais é mais que um vexame, é uma traição aos interesses do país.
São os mesmos que se erguem contra o “globalismo” de esquerda, mas se ajoelham sem pudor diante de um imperialista de ultradireita em troca de migalhas simbólicas e do aplauso dos órfãos do bolsonarismo.
Não à toa a imprensa internacional soou o alarme. O jornal britânico The Guardian chamou a proposta de “ataque deliberado ao comércio justo”. A revista The Atlantic qualificou Trump como “um risco renovado à estabilidade global”.
O Nobel de Economia, Paul Krugman, não mediu palavras. “Trump não entende de economia, mas entende de destruição”. Um risco não apenas aos EUA e a democracia, mas a qualquer país que valorize instituições, ciência, diversidade e cooperação internacional, afirmou o economista.
As medidas adotadas pelo tirano de plantão na Casa Branca reacende a urgência de uma reflexão dura. O mundo está pronto para resistir a mais quatro anos de um governo que flerta com o autoritarismo, exporta intolerância, sabota a democracia e age como se estivesse acima do bem e do mal?
Os “patriotas” verde-amarelo serão capazes de romper com essa mentalidade colonizada que transforma ditadores em representantes de uma elite entreguista?
Diplomacia não se faz com aplausos às ameaças. A elite brasileira precisa se olhar no espelho antes que a imagem que restar seja a de um país de joelhos diante do síndico do planeta.







