O telefone de Daniel Vorcaro continua a falar; veja as mais novas revelações

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Imprensa fala das relações de Vorcaro com Kássio Nunes, Luiz Fux e Gilmar Mendes

Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensar Piauí

O conteúdo extraído do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, continua revelando a dimensão das relações mantidas pelo banqueiro nos meios político e jurídico. As mensagens divulgadas nos últimos dias alcançam integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), familiares de ministros, desembargadores e pessoas que circulavam em torno da Corte.




Nesta sexta-feira (18), três episódios estão no centro das revelações: a preparação de uma mansão avaliada em R$ 250 milhões para um ministro identificado como “KN” durante o Carnaval de 2025; o envio de documentos a Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, relacionados a uma disputa por um precatório de cerca de R$ 5 bilhões; e uma reunião de Vorcaro com Gilmar Mendes, intermediada por Chiquinho Feitosa, ex-cunhado do ministro.

Os casos, porém, apresentam diferenças importantes. No episódio envolvendo Gilmar, por exemplo, registros dos julgamentos mostram que o ministro votou contra os interesses defendidos por Vorcaro nas causas citadas.

Mansão de R$ 250 milhões para o ministro “KN”

A revelação mais recente foi publicada pelo Metrópoles. Conversas extraídas do celular de Vorcaro mostram a organização de uma estrutura de luxo para receber, no Carnaval de 2025, um ministro identificado nas mensagens pelas iniciais “KN”.

Investigadores da Polícia Federal apontam que a referência seria ao ministro do STF, Kassio Nunes Marques. O nome completo do magistrado, entretanto, não aparece nas mensagens reproduzidas pela reportagem. Procurados pelo veículo, Nunes Marques e o desembargador Newton Ramos não se manifestaram.

A hospedagem seria na mansão do ator Márcio Garcia, no Joá, uma das regiões mais valorizadas do Rio de Janeiro.

Avaliada em aproximadamente R$ 250 milhões, a residência tem cerca de 6 mil metros quadrados de terreno, sete suítes, piscina, academia, escritório, estrutura de segurança e vista para o mar. A semana de hospedagem durante o Carnaval teria custado cerca de R$ 1,45 milhão.

Chef, motoristas, champanhe e camarote

As mensagens mostram que a preparação não se limitava à casa.

Vorcaro e seus interlocutores discutiram a contratação de chef de cozinha, garçons e motoristas, além da compra de bebidas de alto padrão. Entre os rótulos citados estavam Macallan 12, Sassicaia, Chablis, Moët & Chandon e Dom Pérignon.

Também aparecem nas conversas providências envolvendo camarotes, pulseiras VIP, kits, motoristas e passeio de helicóptero.

A logística era tratada por Vorcaro com Léo Serrano Giunchetti, responsável por suas viagens. O desembargador Newton Ramos, do TRF-1, aparecia como interlocutor para assuntos relacionados ao ministro e à segurança.

Em uma das mensagens, de 19 de fevereiro de 2025, Léo relata a Vorcaro que Newton havia pedido detalhes porque precisava repassá-los ao ministro.

Feijoada para 40 pessoas

Outro detalhe chama atenção.

Segundo as conversas publicadas pelo Metrópoles, Newton Ramos pretendia realizar uma feijoada para cerca de 40 pessoas na mansão durante o Carnaval.

Léo consultou Vorcaro sobre a possibilidade de realizar o evento e recebeu autorização.

As mensagens também registram a tentativa de organizar uma entrada diferenciada do ministro em um camarote, evitando o procedimento convencional de cadastro no aplicativo do evento.

Vorcaro levou caso bilionário ao filho de Luiz Fux

Outro conjunto de mensagens envolve Rodrigo Fux, advogado e filho do ministro Luiz Fux.

Registros apreendidos pela Polícia Federal mostram que Vorcaro manteve contato frequente com Rodrigo entre 2024 e 2025. Em novembro de 2024, o banqueiro disse que queria sua ajuda em um caso e, depois de uma videochamada, encaminhou um documento relacionado a uma disputa judicial. Rodrigo respondeu que analisaria o material.

Segundo reportagem de Bela Megale, de O Globo, o arquivo estava relacionado à Agro Industrial Tabu, empresa cujo precatório era de interesse de fundos ligados ao Banco Master.

A cobrança chegava a aproximadamente R$ 5 bilhões.

O processo tinha origem em ações movidas por empresas do setor sucroalcooleiro contra a União, envolvendo prejuízos atribuídos ao tabelamento de preços de açúcar e álcool nas décadas de 1980 e 1990.

O envio do documento ocorreu quando o processo estava próximo de voltar à análise do Supremo.

Há, entretanto, um dado fundamental para a compreensão do episódio.

Apesar das conversas entre Vorcaro e Rodrigo Fux, Luiz Fux votou contra a liberação do dinheiro.

O julgamento terminou em junho de 2026 com rejeição unânime da pretensão de liberar os valores.

Rodrigo Fux afirma que seu escritório nunca advogou para Daniel Vorcaro ou para o Banco Master, não celebrou contratos e não recebeu pagamentos do banqueiro. O advogado também sustenta que não discute com o pai processos que tramitam no STF.

As mensagens, contudo, mostram uma relação informal entre Rodrigo e Vorcaro. Em diferentes momentos, o filho do ministro chamou o banqueiro de “irmão”, marcou encontros e chegou a dizer que haveria “tapete vermelho” para recebê-lo no escritório — encontro que, segundo a reportagem, acabou não ocorrendo.

Gilmar recebeu Vorcaro, mas votou contra sua tese

O terceiro caso envolve o ministro Gilmar Mendes.

Reportagem da Folha de S.Paulo revelou que Vorcaro esteve no gabinete de Gilmar, no STF, em 11 de abril de 2024, acompanhado de advogados, para tratar de uma causa bilionária envolvendo empresas do setor sucroalcooleiro.

O encontro teria sido facilitado por Chiquinho Feitosa, empresário e ex-senador que mantinha contrato de R$ 500 mil mensais com Vorcaro.

Feitosa era, naquele período, cunhado de Gilmar Mendes. Atualmente, é ex-cunhado do ministro.

Esse detalhe ganhou destaque porque algumas reportagens apresentaram Feitosa apenas como “cunhado”, associação contestada pelo gabinete do magistrado.

Mais importante, porém, é o resultado objetivo dos julgamentos.

Os votos de Gilmar foram contra os interesses de Vorcaro

Na causa envolvendo a Destilaria Alcídia, discutida na audiência com Vorcaro e seus advogados, Gilmar Mendes posteriormente votou contra o pagamento do precatório e a favor da União.

André Mendonça acompanhou Gilmar.

A posição vencedora foi formada pelos ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, favoráveis à empresa.

O gabinete de Gilmar também relacionou outros processos do setor sucroalcooleiro nos quais o ministro votou contra a liberação de recursos às empresas.

Em nota, afirmou ainda que Gilmar não tinha conhecimento das tratativas privadas entre Chiquinho Feitosa e Daniel Vorcaro e não foi procurado pelo ex-parente para tratar dos assuntos mencionados nas mensagens.

Celular de Vorcaro virou peça central da crise no STF

Os novos episódios reforçam a importância assumida pelo conteúdo do telefone de Daniel Vorcaro na crise que atingiu o Supremo.

O material contém conversas, contatos e referências envolvendo integrantes da Corte, familiares de ministros e personagens ligados aos meios empresarial e jurídico. A própria Polícia Federal informou que mantém sob sua custódia os dados originais extraídos do aparelho e que pode fornecer cópias tecnicamente idênticas aos ministros que as solicitarem.

Nesta sexta-feira (18), Kassio Nunes Marques também solicitou à PF acesso aos dados brutos do celular. Outros ministros, como Cristiano Zanin, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, André Mendonça e Luiz Fux, já haviam recebido ou solicitado acesso ao material.

As mensagens mostram a amplitude da rede de relações construída por Vorcaro. Mas cada episódio exige análise própria: contato, reunião ou pedido de ajuda não significam, por si, favorecimento, e os votos efetivamente proferidos pelos ministros são elementos relevantes para verificar se as aproximações produziram consequência nos julgamentos.

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