E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos conta uma história além da imaginação. Uma história fantasiosa, ou não, que se passou em Paquetá. Arrepiante! Justo para este editor, tão suscetível a histórias sobrenaturais. Não é senhor M?
O vento que vem da Cocheira*, em Paquetá, é capaz de produzir estranhas reverberações a quem tem ouvidos sensíveis. Eu, por exemplo, estando hospedado certa noite na casa do senhor M, já próximo do sono, ouvi ao longe uma voz feminina cujo rumor me parecia o de um apelo. Seria possível?
Fiquei quieto? Não. Alguma nota de piano martelava na minha cabeça, impedindo-me um sono tranqüilo. Era tarde da noite. Todos dormiam; eu, desperto, entretanto. Não dava mais. Levantei-me no pé ante pé, abri com cuidado o pequeno portão de madeira e me encaminhei para a praia.
O vento zunia balançando os galhos das árvores. Ao longe, resistia a chama da refinaria. No mais, uma apreensão, um não sei o quê de suspense, apesar de não haver uma viva alma na alameda.
Ocorreu-me dobrar à esquerda, indo em direção ao prédio cuja fachada sempre me pareceu verde, apesar de tão desbotada. Verde-alga, se é que esta cor existe. Eu mal começara a subir uma ladeirinha quando súbito algo surgiu, apareceu.
Ela não me disse nada. E eu, também nada lhe disse, estando tomado pelo pavor, o pavor dos sonhos que nos faz acordar aos giros e aos gritos.
Ela tirou o cabelo da testa e me abriu o sorriso esverdeado enquanto o vento da Cocheira balançava o que sobrara de seu vestido branco. Pude ver o espaço vago em que outrora dois olhos se alojavam. Então eu ouvi do vento uma espécie de cantiga lacrimosa:
Eu sou a mulher de branco
Que ia se casar
Você não viu o meu consorte?
Onde ele está?
Em que mar revolto
Onde andará
Aquele a quem chamo
E jamais deixei de amar?
É por isso que eu insisto
Aos quatro ventos, por Cristo?
A maré virou
A mulher virou no mar
Hoje quem eu sou
Dá medo de avistar
Eu sou mau presságio
Naufrágio em alto mar
Eu sou barco frágil
Fácil de emborcar
Eu vivo cá embaixo
Onde há monstros marinhos
Rasgaram-me o vestido
Arrancaram-me os olhos
Queimaram-me os cabelos esses mesquinhos
Sem me desposarem
Me cobriram de sargaço
Eu procuro o meu marido
No tempo e no espaço…
Ouvi por mais alguns instantes a cantilena da mulher, que depois se foi como se desaparecesse entre os arbustos. Levei algum tempo para me recompor da cena.
Quando voltei à casa, ainda imerso em pensamentos, topei com os olhos brilhantes de um gambá (saruê) a se equilibrar no muro do quintal da casa do senhor M. Deu-me certo alívio cômico. Quem acreditaria em mim? Ou nos gambás? Fechei-me em copas. E, por incrível que pareça, adormeci.
Isto foi há bastante tempo. Anos se passaram. Entretanto, de quando em quando, ouço os acentos da voz da mulher que tenta explicar o seu destino de vagar pelas correntes marinhas sem estar nem morta nem viva. Tomara que os golfinhos libertem a pobrezinha que a esta altura deve estar sufocada entre as gigogas.
*Cocheira: localidade em Paquetá, numa das suas extremidades, onde ficava a cocheira dos cavalos utilizados para transporte de turistas e moradores
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







