Lourenço Paulillo, poeta e cronista
“São nas bifurcações da vida que você se resolve por certos caminhos, por vezes não tão certos” (Haredita Angel)
É impossível se abstrair do noticiário de guerras, de corrupção… Já não bastasse a polarização. A mente fica poluída, a inspiração bloqueada. Dá vontade de programar um período sabático, de passar uma temporada em outro planeta.
Mas é preciso prosseguir pelos caminhos da vida, com as inevitáveis escolhas a cada encruzilhada, desviando dos obstáculos quando possível. Afinal, nem sempre dispomos de GPS ou mesmo dos antigos guias impressos, hoje obsoletos.
Como falar das árvores floridas banhadas de chuva em tempos de mísseis, drones e bombas? Decido então recorrer a capítulos da própria vida. Fazer um retrospecto, voltar aos verdes anos e percorrer a estrada mentalmente, como se fosse um jogo de tabuleiro. Sem opções de retomada em determinados trechos.
Exemplificando:
Quando adolescente, pensava em cursar Agronomia. Certo dia peguei um ônibus e fui até Piracicaba, para conhecer a Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz. Lá chegando, levei em conta a necessidade de ficar distante da família. Eram outros tempos. A viagem terminou sendo um mero bate e volta.
Nos tempos do colegial, eu redigia uma revista semanal, dirigida aos colegas da classe, focando fatos ocorridos com nossa turma e satirizando os professores. Exemplar único, datilografado, circulava de mão em mão, inclusive por alguns mestres que a descobriram. Posso afirmar que era um sucesso até hoje lembrado.
Anos mais tarde, programado um reencontro da turma, tentávamos adivinhar qual caminho cada um de nós teria escolhido. Chegada a minha vez, disseram que sem dúvida teria sido Jornalismo. Parecia óbvio. Só que não! Acabei optando por Administração de Empresas.
São misteriosas as decisões que tomamos. E na vida os caminhos não têm volta.
Podemos apenas imaginar para onde os rumos deixados para trás nos teriam levado.
Teria eu me destacado por algum projeto de agropecuária?
Teria me tornado um jornalista de certa relevância?
São perguntas que ficarão eternamente no ar, sem respostas.
Pensando bem, carrego um pouco de cada um desses interesses, ainda que informalmente, e eles me proporcionam prazer.
Vivo rodeado de plantas, curto observar e escrever.
Talvez não tenha sido muito firme em minhas decisões. Simplesmente caminhei, às vezes tropeçando, outras me distraindo. Sem querer escalar o Everest nem desvendar as profundezas dos oceanos.
A certa altura, a graça da vida é essa. Caminhar, refazendo as expectativas, mas sem saber o que se vai encontrar na próxima esquina.







